sábado, 17 de março de 2018

SUBSTANTIVOS - EXERCÍCIOS


CLASSIFICAÇÃO

 1 – Identifique os substantivos presentes nas frases.

a)      João agradeceu o convite.
b)      A festa na casa de Rodrigo foi barulhenta.
c)       Fortaleza é uma bela cidade.
d)      A tristeza estava estampada no seu sorriso.
e)      A discussão foi animada.
f)       Meus tios combinaram a pescaria.

2 – Classifique os substantivos destacados em concretos ou abstratos.

a)      Foi feita uma boa limpeza no jardim.
b)      A saudade dos pais era revelada pelas lágrimas.
c)       O fogo alastrou-se pela mata.
d)      O saci brincou toda a noite no meio da floresta.
e)      A euforia dos torcedores animava os jogadores.

3 – Com as palavras abaixo forme substantivos abstratos.

a)      Pobre
b)      Amigo
c)       Feliz
d)      Justiça
e)      Nobre

4 – Forme um substantivo derivado de cada primitivo abaixo.

a)      Chuva
b)      Ferro
c)       Casa
d)      Carro
e)      Desenho
f)       Pedra

5 – Classifique os substantivos como simples ou compostos.

a)      Casa
b)      Passatempo
c)       Água-viva
d)      Sol
e)      Chuvisco
f)       Aguardente
g)      Porco
h)      Girassol

6 – Classifique os substantivos abaixo em: comum ou próprio, concreto ou abstrato, primitivo ou derivado, simples ou composto.

a)      Carta
b)      Felicidade
c)       Amor

7 – Complete as frases usando adequadamente os coletivos abaixo.

Álbum – flora – ramalhete – revoada – fauna – biblioteca – junta – elenco

a)      Os estudantes brasileiros precisam de muita leitura e poucas são as .......................... que funcionam.
b)      Retiraram quase todas as fotografias daquele .................................
c)       Na .................................. brasileira existem plantas raríssimas.
d)      O tema da peça é ótimo e sobre o seu .................... não há o que discutir: somente bons atores.
e)      Como o seu problema de saúde era muito delicado, foi necessária uma .................... médica.
f)       Ofereceram-lhe como presente um ....................................... de rosas vermelhas.
g)      Muitas espécies da .......................... brasileira estão em extinção.
h)      Foi uma linda .............................. de andorinhas nos céus daquela cidade.

FLEXÃO DE GÊNERO

1 – Passe os substantivos das frases abaixo para o feminino, fazendo as adaptações necessárias.

a)      O juiz declarou o barão autor do crime.
b)      O autor declamou versos de um famoso poeta.
c)       O advogado defendeu o réu perante o tribunal.
d)      O conde italiano orgulhava-se de ser um bom patrão.
e)      O cantor dedicou a música ao francês.

2 – Dê o feminino de:

a)      Genro
b)      Espião
c)       Cidadão
d)      Cavalheiro
e)      Cavaleiro
f)       Bode
g)      Herói
h)      Imperador

3 – Explique o processo de formação do feminino ocorrido em autor/autora e boi/vaca.

4- Classifique os substantivos uniformes em epicenos, sobrecomuns e comuns de dois gêneros.

a)      Vítima
b)      Jovem
c)       Colega
d)      Girafa
e)      Onça
f)       Estudante
g)      Testemunha
h)      Indivíduo
i)        Formiga

5 – Dê o significado dos substantivos seguintes:

a)      O cabeça – a cabeça
b)      O guia – a guia
c)       O capital – a capital
d)      O grama – a grama
e)      O rádio – a rádio

FLEXÃO DE NÚMERO

1 – Dê o plural dos substantivos.

a)      Mês
b)      Mal
c)       Pincel
d)      Amor
e)      Juiz
f)       Álbum
g)      Fuzil
h)      Adeus
i)        Dólar
j)        Gás
k)      Hífen
l)        Nível
m)    Pão
n)      Cidadão
o)      Folião

2 – Passe os substantivos compostos para o plural.

a)      Bombom
b)      Copo-de-leite
c)       Guarda-sol
d)      Peixe-espada
e)      Beija-flor

3 – Explique o significado dos substantivos destacados.

a)      Os bens deixados pelo pai não lhe trouxeram o bem.
b)      O motorista de táxi contou sua féria e não fez boa cara.
c)       As férias escolares estão próximas.
d)      Esta é a data do vencimento da conta de luz.
e)      Não recebi os meus vencimentos.

FLEXÃO DE GRAU

1 – Informe se o aumentativo destacado nas frases abaixo é analítico ou sintético.

a)      Um grande muro divide as cidades.
b)      Um vozeirão ecoou na sala.
c)       Tudo estava calmo até o aparecimento daquele homenzarrão.
d)      Um animal enorme espantou os habitantes da cidade.

2 – Informe se o diminutivo destacado nas frases abaixo é analítico ou sintético.

a)      Os moradores da viela entendiam-se bem.
b)      Era uma pequena cidade cheia de paz.
c)       Um minúsculo inseto nadava no vinho.
d)      Trouxe apenas uma maleta e saudades.

3 – Dê a forma normal dos aumentativos sintéticos.

a)      Bocarra
b)      Corpanzil
c)       Canzarrão
d)      Manzorra
e)      Cabeçorra
f)       Barcaça
g)      Volumaço
h)      Animalaço

4 – Dê a forma dos diminutivos sintéticos abaixo.

a)      Corpúsculo
b)      Rapazelho
c)       Moçoila
d)      Homúnculo
e)      Papelucho
f)       Vermiculo
g)      Casebre
h)      Burrico

5 – Passe os substantivos abaixo para o diminutivo plural.

a)      Troféu
b)      Pão
c)       Botão
d)      Jornal
e)      coração


ROMANTISMO


A ESTÉTICA ROMÂNTICA

     O Romantismo definiu-se como escola literária na Europa a partir dos últimos vinte e cinco anos do século XVIII. O romance Werther, de Goethe, publicado na Alemanha em 1774, lança as bases definitivas do sentimentalismo romântico e do escapismo pelo suicídio. Na Inglaterra, o Romantismo se manifesta nos primeiros anos do século XIX, com destaque para a poesia ultrarromântica de lord Byron e para o romance histórico Ivanhoé, de Walter Scott.

CONTEXTO HISTÓRICO

     A Revolução Francesa dá destaque a uma nova personagem na cena europeia, o povo que pegou em armas e à força, transformou em realidade os ideais defendidos pelos filósofos iluministas.
     Após séculos de segregação, exploração e sofrimento nas mãos da monarquia, o homem comum tem sua liberdade e igualdade afirmadas e, mais importante, transforma-se em cidadão.
     A queda da monarquia, na França, abalou as monarquias absolutistas europeias e desencadeou uma série de transformações políticas em outros países.
     Na Inglaterra, onde a monarquia era mais estável, as mudanças aconteceram no terreno econômico. O país começou a acompanhar a passagem do modo de produção artesanal para a fabril. A máquina a vapor, os motores movidos a carvão e os teares mecânicos multiplicaram o rendimento do trabalho e aumentaram o ganho do burguês dono do capital.
     Com isso, alteram-se as relações sociais. De um lado, os empresários (capitalistas), detentores do capital, dos imóveis, das máquinas e dos bens produzidos pelo trabalho, e, de outro, o proletariado, que vende sua força de trabalho e produz mercadorias em troca de salários.
     A instalação de fábricas próximo aos centros urbanos atraiu um significativo número de camponeses, que abandonaram o campo em busca da promessa de prosperidade associada ao crescimento do comércio na zona urbana.
     A onda do progresso tecnológico se expande da Inglaterra para outros países da Europa e consolida as chamadas revoluções burguesas do século XVIII. A Independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial determinam a queda do Antigo Regime e consolidaram o capitalismo como novo sistema econômico. 
  
O ROMANTISMO

     Até o século XVIII, a arte sempre esteve voltada para os nobres e seus valores. Quando o burguês conquista poder político, precisa criar as suas referências artísticas, definir padrões estéticos nos quais se reconheça e que o diferenciem da nobreza deposta. É nesse contexto que o movimento romântico surge, provocando verdadeira revolução na produção artística.
     Para romper com a postura racional da estética árcade, o movimento romântico interpreta a realidade pelo filtro da emoção. Combinada à originalidade e ao subjetivismo, a expressão das emoções definirá os princípios da nova produção artística.
     A estética romântica substitui a exaltação na nobreza pela valorização do indivíduo e de seu caráter. Em lugar de louvar a beleza clássica, o novo artista elogia o esforço individual, a sinceridade, o trabalho. Pouco a pouco, os valores burgueses vão sendo apresentados como modelos de comportamento social nas obras de arte que começam a ser produzidas.
     O filósofo que inspirou boa parte dos princípios românticos foi Jean-Jacques Rousseau. Quando ele afirma que deseja mostrar a seus semelhantes “um homem em toda a verdade de sua natureza”, ilumina o grande projeto literário a ser cumprido pelo Romantismo: criar uma identidade estética para o burguês. Assim, o Romantismo pode ser definido como uma arte da burguesia.
     O primeiro passo para alcançar esse objetivo é valorizar, na obra literária, o indivíduo e toda a sua complexidade emocional, abolindo o controle racional. Os textos literários traçarão o perfil de heróis que precisam agir, sofrer, superar obstáculos de toda natureza para se qualificarem como exemplares. Na sociedade capitalista que remunera o trabalho, sacrifício e esforço passam a valer mais que a nobreza que se recebe de herança.
     O contexto de produção modifica-se bastante durante o movimento romântico. O desaparecimento da figura do mecenas contribui para a profissionalização dos artistas. Os escritores românticos, pela primeira vez na história, escrevem para sobreviver. Procuram, então, conciliar dois objetivos: divulgar os valores da burguesia e ao mesmo tempo divertir os leitores.
     Nos séculos XVII e XVIII, o número de leitores era bastante limitado e muitas vezes os textos eram lidos somente pelos nobres e por outros escritores. Com a possibilidade de publicação em veículos de grande circulação, como jornais e revistas, o alcance da literatura se amplia bastante.
     O público que lê os textos românticos tem um perfil bem mais heterogêneo do que o público de séculos anteriores, que vivia nos salões da Corte e no ambiente restrito das academias e das arcádias.
     Os burgueses que leem jornais e folhetins não contam com a mesma formação dos nobres. Não conhecem os autores clássicos, têm dificuldade em decifrar as referências à mitologia greco-latina. Por isso, preferem uma linguagem mais direta, passional, que não se ligue necessariamente aos padrões da herança literária.

     CARACTERÍSTICAS

     O romântico considera a imaginação superior à razão e à beleza, porque ela não conhece limites. Por esse motivo, a originalidade substitui a imitação, que desde a Antiguidade clássica orientava o olhar do artista para o mundo, no processo de criação. Os novos artistas encontram na própria individualidade, traduzida pelas emoções que sentem, as referências para a interpretação da realidade.
     Ele escreve para uma sociedade que se formou sob a influência dos filósofos iluministas e que, por isso, valorizava os processos racionais e as posturas coletivas. É essa mentalidade que ele deseja mudar e contra a qual se manifesta. De certa forma, seu sentimento de desajustamento social é verdadeiro e nasce do confronto entre os valores que defende, centrados no subjetivismo e na emoção, e os que organizam a sociedade em que vive. O embate entre esses dois sistemas de valores ganha forma em um dos temas mais explorados pela literatura romântica: a fuga da realidade.
     Nesse contexto, a morte passa a ser vista como possibilidade de fuga do real e, por isso, é idealizada. Ela se manifesta como opção de alívio para os males do mundo ou para o encontro definitivo dos amantes, separados pelos obstáculos da realidade.
     Além da morte, o mundo dos sonhos torna-se também um espaço de fuga. Nele, o escritor projeta suas utopias (pessoais e sociais). O passado, apresentado de modo completamente idealizado, também desempenha a mesma função: acolhe o olhar subjetivo desse autor que se sente deslocado na sociedade em que vive.
     Os temas medievais ressurgem com força total. A Idade Média representa uma época em que a sociedade estava repleta de feitos heroicos, sentimentos nobres e harmonia. Recuperar o passado histórico significava, de certa forma, reconstruir os passos de um povo e reconhecer os símbolos de sua identidade, aquilo que o torna único e incomparável.
     A linguagem dos textos românticos é marcada pela liberdade formal. As fórmulas literárias, com rigorosos esquemas métricos e rimas, são abandonadas.
     Para expressar o arrebatamento que caracteriza o olhar romântico para a realidade, os escritores recorrem à adjetivação abundante. Outro recurso importante para traduzir os sentimentos é a pontuação. Nos poemas e romances românticos, o uso de exclamações, interrogações e reticências procura fazer com que o leitor reconheça as emoções, angústias e aflições que tomam conta de quem as expressa. Todas essas características apontam para a preocupação em traduzir a subjetividade, de modo a caracterizar o olhar específico de um autor par o mundo e assegurar que ele se manifeste de modo único, diferente de todos os outros escritores.

TENDÊNCIAS LITERÁRIAS E SEUS PRINCIPAIS TEMAS:

Nacionalismo, historicismo e medievalismo
     Exaltando os valores e os heróis nacionais, os autores ambientam suas obras no passado histórico, sobretudo no período medieval.
Valorização das fontes populares – o folclore
     Além da pesquisa e do trabalho de registro das narrativas orais e das canções populares, os autores buscam nessas fontes inspiração para suas próprias obras. Essa utilização literária de tradição popular também é uma das manifestações do nacionalismo romântico.
Confessionalismo
     As obras tornam-se, frequentemente, a expressão dos sentimentos pessoais do autor em dado momento de sua vida.
Pessimismo
     Nem sempre o Romantismo exprime atitudes positivas em relação à vida. O individualismo e o egocentrismo adquirem traços doentios de inadaptação. O spleen (melancolia) do poeta inglês lord Byron influenciou todas as produções. O tédio de viver, também chamado “mal do século”, conduz às diversas formas de escapismo:
- narrativas de aventuras ambientadas em lugares exóticos ou num passado misterioso;
- narrativas fantásticas, envolvendo o sobrenatural;
- culto da imaginação: o sonho, o delírio, os ambientes noturnos;
- a morte como última solução para o indivíduo.
Crítica social
     O Romantismo pode assumir também um caráter combativo de oposição e crítica social.

AS GERAÇÕES ROMÂNTICAS

     Todas essas características podem aparecer em qualquer momento no Romantismo. Há uma nítida evolução através de três gerações de autores, cada uma marcada pela predominância de certos temas.
Primeira geração
     Os primeiros autores românticos ainda conservam características clássicas. Os temas que marcam essa fase estão ligados ao nacionalismo:
Em Portugal – o romance histórico e o medievalismo;
No Brasil – o indianismo.
Segunda geração
     É o período Ultrarromântico. Caracteriza-se pelo exagero do subjetivismo e da emoção: o tédio, a melancolia, o sonho, o desejo da morte estão sempre presentes. Esse clima pessimista e o escapismo constituem o “mal do século” (Byron e Musset).
Terceira geração
     Essa última fase antecipa certas características da Escola Realista, que substituirá o Romantismo. O pessimismo e o escapismo cedem lugar a uma literatura de tom exaltado, engajada nos grandes debates sociais e políticos da época.



MOMENTO HISTÓRICO DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

     Portugal, historicamente aliado à Inglaterra, viu-se envolvido numa sucessão de guerras contra a França. Em 1807, Napoleão Bonaparte, aliado à Espanha, invadiu Portugal para garantir o Bloqueio Continental à Inglaterra. As consequências foram a fuga da família real para o Brasil, e uma longa guerra, só terminada em 1811. Após a retirada dos franceses, o país continuou sofrendo a intervenção inglesa em seu governo, o que provocou a revolução militar de 1818 e a revolta do Porto, em 1820. A partir de então e até os meados do século, Portugal seria constantemente abalado pelas lutas políticas e pela guerra civil entre conservadores (absolutistas) e liberais (favoráveis a uma monarquia constitucional)
     A constituição de 1822, elaborada a partir da vitoriosa revolução liberal do Porto, instituiu a liberdade de imprensa, a separação dos poderes.
     Em 7 de setembro de 1822, o Brasil tornava-se independente.
     Em 1828, D. Miguel, irmão de D. Pedro, liderou a revolta de Vila Franca (Vilafrancada), que restabeleceu o absolutismo.
     Entre 1828 e 1834 ocorria a guerra civil opondo os absolutistas, liderados por D. Miguel, e os liberais, liderados por D. Pedro (I do Brasil e IV de Portugal), com a vitória final dos liberais. Segue-se ainda, entretanto, um longo período de agitações políticas, alternando-se a vigência da constituição liberal de 1822 e a da carta constitucional de D. Pedro, de 824. A conciliação política só se estabelece a partir de 1851, no período chamado de Regeneração.

O ROMANTISMO EM PORTUGAL

     Portugal participou intensamente das grandes transformações políticas europeias do início do século XIX. A implantação do liberalismo foi difícil e custou alguns anos de guerra.
     Nesse período acontecem as primeiras manifestações pré-românticas, como a poesia de Bocage. O Romantismo só tem início no final dos anos 20.
     Almeida Garrett é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal, pela publicação dos poemas narrativos Camões, em 1825 e Dona Branca, em 1826.  Apesar das características neoclássicas ainda presentes nos dois poemas, o tom emocional e melancólico faz deles as primeiras obras intencionalmente românticas da literatura portuguesa.
     A nova escola dominará a literatura até a década de 60. Em 1865 uma polêmica denominada Questão Coimbrã marcará o término do Romantismo e o início do Realismo.
     Durante essas quatro décadas o Romantismo evolui em três momentos, conforme se sucederam as gerações dos autores.

PRIMEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA PORTUGUESA

     A primeira geração é ainda marcada pelas contradições próprias dos momentos iniciais de uma nova estética: os autores ainda não se libertaram totalmente das tradições do Classicismo. Por outro lado, o envolvimento nas lutas pela implantação do liberalismo em Portugal acentua as características ideológicas de suas obras. Tais características traduzem-se sobretudo no nacionalismo e no historicismo medievalista.
     Os principais autores foram Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Antônio Feliciano de Castilho.

     JOÃO BATISTA DA SILVA LEITÃO DE ALMEIDA GARRETT (1799 – 1854)

     A poesia de Garrett está presa, em sua primeira fase, à estética neoclássica. Folhas caídas, obra da maturidade poética do autor, reúne sua melhor produção lírica e a melhor poesia romântica portuguesa. Os poemas foram inspirados na paixão do autor por Rosa de Montúfar, a Viscondessa da Luz. “Este inferno de amar” e “Não te amo” mostram o tom apaixonado e confessional – expressão dos conflitos sentimentais do autor.
     Na prosa, escreveu Viagens na minha terra. Obra de difícil classificação, mistura características do relato de viagens, do diário íntimo, do ensaio, da reportagem jornalística e do romance. O núcleo da narrativa é o relato de uma viagem de Lisboa a Santarém (baseado numa experiência real do autor). Mas o narrador faz, ao longo dos quarenta e nove capítulos, digressões de todo tipo e a qualquer propósito: comentários sobre política e administração pública, sobre o clero, sobre o amor, sobre arte, literatura, mantendo sempre um tom leve, jornalístico e irônico. No capítulo X, estando já o narrador no vale de Santarém, toma conhecimento da história amorosa de Joaninha, a menina dos rouxinóis, e seu primo Carlos. Desse ponto em diante, o autor entremeia na narrativa os lances dessa novela sentimental, que possui todos os ingredientes românticos: paixão e ciúme, mistérios e um final trágico, com o distanciamento do herói e a morte da heroína.
     No teatro, escreveu Frei Luís de Sousa.  Garrett aproveitou um fato histórico – a vida de Frei Luís de Sousa, nome religioso do escritor quinhentista Manuel de Sousa Coutinho – para criar essa obra do teatro romântico português. A ação, situada no final do século XVI, possui dois eixos dramáticos: a história familiar de Manuel de Sousa Coutinho e a resistência dessa personagem ao domínio espanhol.


Este Inferno de Amar

Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei... 
1 – A que episódio da biografia de Garrett parece estar associado o poema?
2 – A qual característica romântica corresponde a associação entre biografia e obra?
3 – O poema exprime a confusão dos sentimentos do amante.
a)     Comente, a este respeito, o título do poema.
b)     Localize na primeira estrofe dois paradoxos que exprimem a confusão dos sentimentos.
4 – O tom emotivo – como se o sujeito lírico não se contivesse e explodisse em confidências confusas, ou como se falasse sozinho, procurando entender seus sentimentos – motivou a pontuação excessiva do texto. Localize e copie:
a)     Uma frase exclamativa que exprima constatação perplexa de um sentimento.
b)     Uma frase interrogativa que exprima essa mesma perplexidade.
c)      Uma frase que exprima dúvida.
5 – O sujeito lírico evoca o tempo em que o amor era apenas um sonho. Os olhos de uma mulher despertaram-no, tornando o sonho realidade.
a)     Qual a diferença entre o sonho e a realidade do amor?
b)     Apesar dessa diferença, o poema termina com uma defesa do amor. Explique.

Não te Amo

Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma. 
      E eu n’alma - tenho a calma,
      A calma - do jazigo.
      Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
      E a vida - nem sentida
      A trago eu já comigo.
      Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
      De um querer bruto e fero
      Que o sangue me devora,
      Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
      Quem ama a aziaga estrela
      Que lhe luz na má hora
      Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
      De mau, feitiço azado
      Este indigno furor.
      Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
      Que de mim tenho espanto,
      De ti medo e terror...
      Mas amar!... não te amo, não. 

1 – Quais são os dois sentimentos que, segundo o sujeito lírico, se contradizem e se excluem?
2 – Qual é a natureza de cada um desses sentimentos?
3 – Se o sujeito lírico considera um “indigno furor” o que sente em relação à mulher, a frase “não te amo, não” da última estrofe é uma negação ou uma autocensura? Explique.

ALEXANDRE HERCULANO DE CARVALHO E ARAÚJO (1810 – 1877)

     Teve uma participação tão intensa nas lutas políticas de sua época quanto Almeida Garrett. Exilou-se na Inglaterra e na França e, retornando a Portugal em 1832, participou da guerra civil, incorporado ao exército de D. Pedro. Tornou-se um liberal conservador e lutou sempre contra os democratas. A partir de seu tardio casamento em 1866, retirou-se ao silêncio de sua quinta em Val-de-Lobos.
     Herculano é mais importante como prosador que como poeta. Sua obra de ficção reflete sua vocação de historiador medievalista, que ocupou grande parte de sua vida: os três romances e o livro de contos que escreveu ambientam-se todos na Idade Média:
a)     Eurico, o presbítero: focaliza a Espanha do século VIII, no final do período visigótico e início da invasão árabe. Este romance funde a temática histórica e nacionalista com o tema do celibato clerical.
b)     O monge de Cister, ou a época de D. João I: esse romance ambienta-se na época da Revolução de Avis (1383 – 85) e junto com Eurico, o presbítero forma o volume chamado Monasticon.
c)      O bobo: focaliza a época de D. Afonso Henriques, ou seja, da formação do Estado de Portugal (século XII).
d)     Lendas e narrativas: livro de contos em que predominam os temas medievais (apenas duas narrativas ambientam-se no século XIX).

Fragmento de Eurico, o presbítero
Alexandre Herculando

     Levado à existência tranquila do sacerdócio pela desesperança, Eurico sentira a princípio uma suave melancolia refrigerar‑lhe a alma requeimada ao fogo da desdita. A espécie de torpor moral em que uma rápida transição de hábitos e pensamentos o lançara pa­receu‑lhe paz e repouso. A ferida afizera‑se ao ferro que estava dentro dela, e Eurico supunha‑a sarada. Quando um novo afeto veio espremê‑la é que sentiu que não se havia cerrado, e que o sangue manava ainda, porventura, com mais força. Um amor de mulher mal correspondido a tinha aberto: o amor da pátria, despertado pelos acontecimentos que rapidamente sucediam uns aos outros na Es­panha despedaçada pelos bandos civis, foi a mão que de novo abriu essa chaga. As dores recentes, avivando as antigas, começaram a converter pouco a pouco os severos princípios do cristianismo em flagelo e martírio daquela alma que, a um tempo, o mundo repelia e chamava e que nos seus transes de angústia sentia escrita na consciência com a pena do destino esta sentença cruel: ‑ nem a todos dá o túmulo a bonança das tempestades do espírito.
     As cenas de dissolução social que naquele tempo se representa­vam na Península eram capazes de despertar a indignação mais veemente em todos os ânimos que ainda conservavam um diminuto vestígio do antigo caráter godo. Desde que Eurico trocara o gardin­gato pelo sacerdócio, os ódios civis, as ambições, a ousadia dos bandos e a corrupção dos costumes haviam feito incríveis progressos. Nas solidões do Calpe tinha reboado a desastrada morte de Vítiza, a entronização violenta de Roderico e as conspirações que ameaçavam rebentar por toda a parte e que a muito custo o novo monarca ia afogando em sangue. Ebas e Sisebuto, filhos de Vítiza, Opas, seu tio, sucessor de Siseberto na sé de Híspalis, e Juliano, conde dos domínios espanhóis nas costas de África, do outro lado do Estreito, eram os cabeças dos conspiradores. Unicamente o povo conservava ainda alguma virtude, a qual, semelhante ao líquido transvazado por cendal delgado e gasto, escoara inteiramente através das classes superiores. Oprimido, todavia, por muitos gêneros de violências, esmagado debaixo dos pés dos grandes que lutavam, descrera por fim da pátria, tornando‑se indiferente e covarde, prestes a sacrificar a sua existência coletiva à paz individual e doméstica. A força moral da nação tinha, portanto, desaparecido, e a força material era ape­nas um fantasma; porque, debaixo das lorigas dos cavaleiros e dos saios dos peões das hostes não havia senão ânimos gelados, que não podiam aquecer‑se ao fogo do santo amor da terra natal.
     Com a profunda inteligência de poeta o presbítero contemplava este horrível espetáculo de uma nação cadáver e longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes daquela geração dege­nerada, ou derramava sobre o pergaminho em torrentes de fel, de ironia e de cólera a amargura que lhe trasbordava do coração ou, recordando‑se dos tempos em que era feliz porque tinha esperança, escrevia com lágrimas os hinos de amor e de saudade.

1 – Quais as duas feridas abertas no coração de Eurico?
2 – A nação visigótica punha em risco sua existência coletiva. Em que camada social estava a sua última reserva de virtude nessa fase de decadência? Essa reserva moral foi preservada? Explique.
3 – As atitudes das personagens românticas diante das adversidades são sempre extremas: ou se entregam a um desespero escapista, ou enfrentam os problemas heroicamente, com uma ousadia cega. Em Eurico vemos conjugadas essas duas atitudes. Explique-as, tendo em vista o enredo do romance.

ANTÔNIO FELICIANO DE CASTILHO (1800 – 1875)

     Praticamente cego desde os seis anos, conseguiu formar-se em humanidades. Ficou famoso pelo seu espírito de pesquisador. Traduziu clássicos gregos e fez poesia e prosa. No seu tempo era considerado o “papa do romantismo”. Em 1865, ao prefaciar a obra Poemas da Mocidade de Pinheiro Chagas, provocou uma polêmica com Antero de Quental, originando-se daí a Questão Coimbrã ou o Bom Senso e Bom Gosto. Sua vida literária no início é de influência arcádica (Cartas de Eco a Narciso, A Primavera, Amor e Melancolia). Como romântico publica A Noite do Castelo e Os Ciúmes do Bardo.

SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA PORTUGUESA

     Na segunda geração os autores, livres da influência neoclássica, puderam realizar plenamente os ideais estéticos românticos: liberdade de criação, entrega total ao subjetivismo e à imaginação. Ultrapassam todos os limites e as obras passaram a transbordar uma emoção quase irracional: o tédio, a melancolia (o spleen de Byron), o desespero. O egocentrismo chegava aos extremos da morbidez e da inadaptação social: o escapismo, a fantasia, o sonho... a morte. O Ultrarromantismo é referência para essa geração afligida pelo chamado “mal do século”.

CAMILO CASTELO BRANCO (1825 – 1890)

     A vida de Camilo parece o enredo folhetinesco de suas novelas passionais: vida de órfão em casa de parentes, casamento aos 16 anos com uma aldeã (Joaquina Pereira); estudos interrompidos de medicina; um rapto (Patrícia Emília); várias amantes, solteiras ou casadas, entre as quais uma freira (Isabel Cândida); crise religiosa e temporada de seminário, um duelo, prisão, processo, morte de filhos, loucura de um deles... Seu grande amor foi Ana Augusta Plácido, com quem passou a viver em Seide a partir de 1864. Apesar do reconhecimento público, o final de sua vida foi de grandes sofrimentos físicos e morais, acentuados pelas dificuldades financeiras. A cegueira progressiva levou-o ao suicídio.
     Camilo escreveu durante quarenta anos, ininterruptamente, uma das mais vastas obras individuais da literatura portuguesa. De todo o conjunto, o mais importante são os romances e novelas, entre as quais:
a)     Obras ultrarromânticas (romances passionais): Amor de perdição; Amor de salvação; Carlota Ângela; O romance de um homem rico; A doida do Candal etc.
b)     Obras satíricas: A queda dum anjo; Coração, cabeça e estômago; Eusébio Macário; A corja.
     Apesar de suas críticas ao Realismo, Camilo escreveu algumas novelas realistas: A brasileira de Prazins; Vulcões de lama; Novelas do Minho.
Amor de perdição é considerado o romance passional modelar do Ultrarromantismo. Camilo escreveu-o em apenas quinze dias, quando estava preso na cadeia da Relação do Porto devido ao complicado caso amoroso com Ana Plácido. Baseado num caso verídico – a vida de um tio que estivera preso na mesma cadeia -, o livro reflete o estado de espírito do autor e possui evidentes elementos autobiográficos.

Fragmento de Amor de perdição
Camilo Castelo Branco

     Tereza viu-o...,adivinhou-o, primeira de todas,e exclamou:
     - Simão!
     O filho do corregedor não se moveu.
     Baltasar, espavorido do encontro, fitando os olhos nele, duvidava ainda.
     -É crível que este infame aqui viesse! - exclamou o de castro Daire.
     Simão deu alguns passos, e disse placidamente:
     -Infame... eu! e por que?
     -Infame, e infame assassino! -replicou Baltasar. -Já fora da minha presença!
     -É parvo este homem! disse o acadêmico. - Eu não discuto com sua senhoria... Minha senhora - disse ele a Tereza coma voz comovida e o semblante alterado unicamente pelos afetos do coração. -Sofra com resignação, da qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a violência, e bem pode ser que a meio caminho do seu calvário a misericórdia divina lhe redobre as forças.
     -Que diz este patife?! -exclamou Tadeu.
     -Vem aqui insultá-lo, meu tio! - respondeu Baltasar. - Tem a petulância de se apresentar a sua filha a confortá-la na sua malvadez! Isto é demais! Olhe que eu esmago-o aqui, seu vilão.
     -Vilão é o desgraçado que me ameaça, sem ousar avançar para mim um passo- redarguiu o filho do corregedor.
     Eu não o tenho feito - exclamou enfurecido Baltasar - por entender que me avilto, castigando-o na presença de criados do meu tio, que tu podes supor meus defensores, canalha!
     -Se assim é - tornou Simão, sorrindo - espero nunca me encontrar de rosto com sua senhoria. Reputo-o tão cobarde, tão sem dignidade, que o hei de mandar azorragar pelo primeiro mariola das esquinas.
     Baltasar Coutinho lançou-se de ímpeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as damas chegaram a interpor-se entre os dois , Baltasar tinha o alto do crânio aberto por uma bala, que lhe entrara na fronte. Vacilou um segundo, e caiu desemparado aos pés de Tereza.
     Tadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteiros e criados rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola. Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara, correu da rua fronteira, e se colocou, de bacamarte aperrado, á beira de Simão. Estacaram os homens.
     -Fuja, que a égua está ao cabo da rua - disse o ferrador ao hóspede.
     -Não fujo... Salve-se, e depressa - respondeu Simão.

1 -  Com base no diálogo entre Simão e Baltasar, defina os sentimentos que os levaram às atitudes impulsivas de tão trágica consequência.

2 – Embora temesse o adversário, foi Baltasar quem tomou a iniciativa da agressão física. Explique sua atitude.

3 – Esta passagem é o ponto culminante da obra, pois é ela que determina o desenlace trágico do romance. Podemos dizer, no entanto, que o futuro de Simão não foi obra do destino e que sua morte não foi uma consequência inevitável de seu crime. Explique esta afirmação com base no texto lido.

4 “- Está perdido! – tornou João da Cruz.
   - Já o estava.”
     Comente a réplica de Simão a João da Cruz, levando em consideração o título do livro.

TERCEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA PORTUGUESA

     Na década de sessenta os exageros ultrarromânticos sobrevivem apenas em autores menores. Os melhores depuraram o romantismo, fugindo à pieguice e retornando a um lirismo simples e sincero. Mantendo ainda o subjetivismo romântico, os autores da terceira geração já são pré-realistas.

JOÃO DE DEUS (1830 – 1896)

     A extrema sensibilidade desse poeta retoma a tradição lírica portuguesa: o idealismo amoroso e a visão espiritualizada da mulher recobrindo um erotismo tenso e sublimado.
     Foi tomado como mestre por muitos realistas. Coube a Teófilo Braga, um dos líderes do Realismo, reunir e publicar a obra desse último poeta romântico, sob o título de Campo de flores, em 1893.

JÚLIO DINIS (pseudônimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho – 1839 – 1871)

     Apesar de uma vida tão curta (trinta e dois anos, interrompidos pela tuberculose), Júlio Dinis deixou uma obra considerável tanto pela extensão como por suas qualidades literárias.
     Sua ficção, contrastando com o pessimismo ultrarromântico, resulta de uma visão otimista da vida e do ser humano: para ele a natureza humana é essencialmente boa. Excetuando Uma família inglesa, que constitui um grande painel da vida burguesa da cidade do Porto, todos os seus romances ambientam-se no campo. No ambiente bucólico desenvolve-se o namoro, cheio de pequenas crises e desencontros, até o final feliz com o casamento. O pano de fundo é a vida simples, a felicidade doméstica, os costumes sadios da burguesia e do campesinato. Apesar de toda essa idealização, Júlio Dinis revela algumas características pré-realistas: a lentidão da narrativa, criando a atmosfera em que se desenvolve a ação; a aguda e detalhada observação dos ambientes e da realidade exterior; o delineamento dos tipos humanos.


As pupilas do senhor reitor

     Este é o romance mais popular do autor, tendo sido adaptado em telenovelas. Júlio Dinis idealiza a vida de uma aldeia portuguesa, onde a felicidade se realiza na harmonia e na tranquilidade dos pequenos acontecimentos cotidianos.

Fragmento de As pupilas do senhor reitor
Júlio Dinis

     - Pois não vê que a única maneira, Margarida, é... Eu sei que sou indigno de aspirar a tanto, mas perdoe-me, a única maneira é não me recusar a reparação que lhe devo: permita-me que reuna ao seu o meu destino, já que a Providência...
     - Bravo! atalhou o Padre, batendo com a bengala no chão - Isso mesmo é que eu tinha aqui dentro a pesar-me; até que enfim respiro.
     Margarida estremeceu ao ouvir Daniel, e instintivamente levou as mãos ao coração como se fora ferida aí. Em poucos instantes, as faces, de ordinário pálidas, passaram-lhe por cambiantes rápidas de cor. Trêmula de ansiedade, sentiu vergarem-lhe os joelhos e enevoar-lhe a vista. Valeu-lhe o apoio de um móvel próximo para não cair. Por algum tempo tentou em vão responder; a voz não lhe saía da garganta.
     Daniel olhava-a ansioso. O padre esfregava as mãos exultando de júbilo.
     Afinal, vencendo esta violenta comoção, e assumindo outra vez a placidez habitual, respondeu com uma voz, onde sem dificuldade se podia descobrir ainda um indiscreto tremor:
    - Obrigada. É generoso o oferecimento... mas não posso aceitá-lo.
     - Que diz? exclamou Daniel.
     O padre passou do júbilo à estupefação.
     - Pois queria que aceitasse? Aceitá-lo-ia se estivesse no meu lugar? Diga? Qual será o maior martírio; sofrer as murmurações, as injúrias, os desprezos até, de milhares de pessoas, que afinal de contas, nos são indiferentes, ou aceitar a compaixão de quem nos é... de quem nos devia ser tudo no mundo? Daquele, a quem teremos de dar todos os afetos, todos os cuidados, todos os pensamentos. Imagina bem essa tortura?
     - Mas, Margarida, quem lhe disse que é por compaixão que eu lhe faço o oferecimento? Se o aceitar, creia que o agradecido serei eu.
     - Se essas palavras fossem sinceras, Senhor Daniel, era bem certo então que possuía um desgraçado caráter! Receie sempre de si, desses primeiros movimentos, a que obedece tão depressa. Já que é tão fácil em mudar, ao menos faça por ser mais forte contra si mesmo. Vença-se. Não está ainda vendo o mal que pode fazer assim?
     - Tem razão em duvidar de mim. O meu passado condena-me, porém talvez seja injusta demais para comigo. Julga-me capaz de...
     - Perdão; não julgo, não tenho o direito de julgar, bem sei. Em todo caso, não posso aceitar.
     - Margarida! - disseram-lhe a um tempo o padre e Daniel.
     - Não, não posso aceitar - repetiu Margarida, já com maior veemência. - Nunca me julgaria mais desonrada e perdida, do que quando aceitasse uma proposta como essa, feita por outro qualquer motivo, que não fosse a força do coração.
     - Mas se eu lhe juro que o meu coração...
     - Oh, não diga mais! - disse Margarida, interrompendo-o. - Até me faz mal ouvir-lhe esses juramentos; lembra-me os que ainda ontem fazia a Clara. Repare no que ia a dizer; assim abre o coração, a quem, momentos antes, nem conhecia sequer?
     - Não há tal; - disse o reitor - diz tu que, desde criança, já te conhece ele, e até...
     - Oh! por quem é - atalhou Margarida, que previu logo onde o reitor queria chegar. -Por quem é! O que ia dizer!
     - Margarida - continuou Daniel - perdoe, se a consciência das minhas culpas... e acredite que a estou sentindo bem amarga, mas perdoe-me, se ela me não constrange ainda ao silêncio. Eu vejo que tem razão para duvidar de mim; mas será só isso? Por que não me confessa também que recusa porque sentindo insensível o coração, desconfia dele igualmente?
     - Desconfiar do meu coração! - disse Margarida, com uma leve inflexão de ironia na voz, a qual os dois não perceberam, e continuou: - Mas... é que não desconfio.
     - Então?
     - Conheço-o; e o que sei dele, como o que aprendi do seu, Senhor Daniel, levam-me a recusar.
     - Quer dizer que me não pode amar?
     - Sim... julgo que sim. Eu desconfio que nem tenho coração! Eu sei lá! Não o sinto bater, pelo menos. Bem vê que não devo aceitar. Adeus.
     E com um singular sorriso nos lábios saiu da sala, onde ficaram os dois, atônitos e silenciosos.
     Quem, naquele momento, pousasse a mão no coração de Margarida, como veria desmentidas as suas últimas palavras!

1 – Daniel refere-se à necessidade de uma “reparação”; Margarida, a murmurações e a injúrias. Que acontecimento recente tornava Daniel culpado perante Margarida?

2 – Margarida recusou a proposta de Daniel. Por que, então, sentiu uma emoção tão violenta, que quase chegou a desmaiar?

3 – Por que Margarida recusou a proposta de Daniel?

4 – Como Margarida julga o caráter de Daniel?

5 – Apesar do julgamento de Margarida, sabemos que Daniel mudou e que é sincero. Qual a causa de seu amadurecimento e de sua redenção nos capítulos finais do romance?