sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Substantivos

     Substantivos são palavras que dão nomes a seres reais ou imaginários, lugares, qualidades, ações e sentimentos, ou seja, a tudo o que tem existência concreta ou abstrata.

CLASSIFICAÇÃO DOS SUBSTANTIVOS

Substantivos simples – apresentam um só radical em sua estrutura: cidade, presos, ave, água, olhos.

Substantivos compostos – são formados por mais de um radical em sua estrutura: pombo-correio, planalto, cana-de-açúcar.

Substantivos primitivos – são aqueles que dão origem a outras palavras, ou seja, não provêm de nenhum outro radical da língua: livro, cachorro, corpo.

Substantivos derivados – são formados de outros radicais da língua: chaleira (de chá), cantiga (de canto).

Substantivos comuns – referem-se, de modo geral, a qualquer ser de uma mesma espécie: pessoa, empresário, trabalho.

Substantivos próprios – designam determinado ser entre outros da mesma espécie, de maneira individual ou particular. São escritos com inicial maiúscula: Sorocaba, Brasil, José.

Substantivos concretos – nomeiam seres com existência própria, ou seja, que não dependem de outros para existir. Esses seres podem ser animados ou inanimados, reais ou imaginários, tais como criaturas fantásticas ou divindades: ave, fada, estrelas.

Substantivos abstratos – nomeiam ações, estados, qualidades e sentimentos que não têm existência própria, isto é, só existem em função de outro ser: bondade, confiança, lembrança.

Substantivos coletivos – referem-se a um conjunto de seres da mesma espécie: elenco (atores), acervo (obras artísticas), fauna (animais de uma região), enxoval (roupas), molho (chaves), antologia (textos selecionados).

FLEXÃO DOS SUBSTANTIVOS

Flexão de gênero

     Em geral, a flexão de gênero em português é feita com a troca de o por a, ou com o acréscimo da vogal a no final da palavra: cozinheiro – cozinheira, doutor – doutora.

     Consideram-se masculinos os substantivos aos quais é possível antepor os artigos o ou um e as formas pronominais meu, teu, seu: o teatro, um cafezinho, meu pé.

     São femininos os substantivos diante dos quais é possível empregar os artigos a ou uma e as formas pronominais minha, tua, sua: a camisa, uma geladeira, sua freguesa.

     Nem sempre a terminação o ou a indica gênero masculino ou feminino: o grama, o telefonema.

     Não se deve confundir o gênero da palavra com o sexo do ser, porque todos os substantivos possuem gênero, quer se refiram a seres, objetos ou coisas: o indivíduo, o remédio, a pessoa, a música.

Substantivos biformes

     Chamam-se biformes os substantivos que apresentam uma forma para o masculino e outra para o feminino.
ator – atriz
maestro – maestrina
genro – nora

Substantivos uniformes

     São os que apresentam uma única forma para os dois gêneros.
a criança
o cônjuge
o/a gerente

     Os substantivos uniformes classificam-se em:

Epicenos

     Designam alguns animais e plantas, e são invariáveis. Diferenciam-se o sexo pelo emprego da palavra macho ou fêmea.
A borboleta macho/ a borboleta fêmea

Sobrecomuns

     Referem-se a seres humanos. É pelo contexto em que o substantivo aparece que se sabe qual o gênero do indivíduo. Caso o contexto não permita isso, pode-se determinar a variação de gênero usando-se as expressões do sexo masculino ou do sexo feminino.
a criança
o indivíduo

Comuns de dois gêneros

     Admitem a mesma forma para o masculino e para o feminino. Para diferenciar seu gênero, colocamos antes ou depois deles um artigo, pronome adjetivo ou adjetivo: o/a jornalista, um/uma paciente.

MUDANÇA DE GÊNERO E DE SIGNIFICADO

     Há substantivos que mudam de sentido quando se troca o gênero. São chamados de substantivos de gênero aparente.
o cisma (separação)      a cisma (suspeita)
o grama (unidade de medida)    a grama (relva)

SUBSTANTIVOS DE GÊNERO VACILANTE

     Certos substantivos oferecem dúvida quanto ao gênero.
     São masculinos: o aneurisma, o apêndice, o eclipse, o dó.
     São femininos: a derme, a cal, a alface, a dinamite.
     São masculinos e femininos: o/a diabetes, o/a sabiá, o/a suéter, o/a personagem.

Flexão de número

Plural dos substantivos simples

 A - Acrescenta-se –s aos substantivos terminados em vogal e ditongos crescentes ou decrescentes: maçã – maçãs, prédio – prédios.

     B - Acrescenta-se –s aos substantivos terminados em –n: líquen – liquens, pólen – polens. 

     C - Aos substantivos terminados em –r, -s ou –z, acrescenta-se –es: açúcar – açúcares, radar – radares. Alguns substantivos terminados em –r mudam sua sílaba tônica no plural: júnior – juniores. Os substantivos terminados em –s só recebem –es se forem oxítonos ou monossílabos tônicos: gás – gases, freguês – fregueses. Se forem paroxítonos ou proparoxítonos, permanecem invariáveis: o lápis – os lápis, o ônibus – os ônibus.

   D -  Nos substantivos terminados em –l e precedidos de –a, -e, -o ou –u substitui-se o –l por –is: pardal – pardais, anel – anéis. Exceções: mal – males, cônsul – cônsules. Nos substantivos oxítonos terminados em –il, troca-se o –l por –is: fuzil – fuzis, canil – canis, barril – barris.

Observações:

     Quando são paroxítonos, muda-se o –il para –eis: réptil – répteis, fóssil – fósseis, projétil – projéteis.

     Em alguns substantivos terminados em –ão, acrescenta-se –s: cidadão – cidadãos, cristão – cristãos.

     Em outros substantivos, troca-se –ão por  -ães: charlatão – charlatães, sacristão – sacristães.

     Em outros, ainda troca-se –ão por –ões: verão – verões, vilão – vilões.

     Alguns substantivos terminados em  -ão apresentam mais de uma forma no plural. Nesses casos, a forma terminada em –ões é a mais usada: sultão – sultões, sultãos, sultães/ ancião – anciões, anciãos, anciães.

     E - Nos substantivos terminados em –zito ou –zinho, pluraliza-se o substantivo primitivo, elimina-se o –s e coloca-se o sufixo no plural: balãozinho – balõe(s) + zinhos = balõezinhos.

     F - Os substantivos terminados em –x são invariáveis: o clímax – os clímax, o tórax – os tórax. Exceções: o cálix ou cálice – os cálices.

     G - Nos substantivos terminados em –m, troca-se o –m por –ns: jardim – jardins, atum – atuns.

     H - Há substantivos que se empregam apenas no plural: arredores, bodas, condolências, fezes, núpcias.

     I - Os nomes de letras, de certos números ou nomes próprios de pessoas flexionam-se normalmente.
Eliminaram os quatros da cartela. / Nunca colocava os pingos nos is.
Apreciamos os Andrades pelo talento. 

     J – Há substantivos que mudam o timbre da vogal tônica no plural. Esse fenômeno se chama metafonia. Podem apresentar o tônico fechado no singular e aberto no plural.
caroço (ô) – caroços (ó) / imposto (ô) – impostos (ó) / forno (ô) – fornos (ó)

     K – Há substantivos cuja vogal o tônica se mantém fechada no singular e no plural: rosto – rostos (ô) / gosto – gostos (ô) / sogro – sogros (ô)

     L - Existem substantivos que mudam de sentido quando usados no plural:
féria (remuneração) – férias (período de descanso)

Plural dos substantivos compostos:

     A - Se não houver hífen, os substantivos compostos flexionam-se como substantivos simples: girassol – girassóis, malmequer – malmequeres.

     B – Pluralizam-se as partes dos substantivos compostos formadas por palavras variáveis (substantivos, adjetivos e numerais ordinais), e não se flexionam as partes formadas por palavras invariáveis (verbos e advérbios), nem os prefixos que formam o substantivo composto ligado por hífen.
couves-flores (substantivo – substantivo)
quintas-feiras (numeral ordinal – substantivo)
guardas-civis (substantivo – adjetivo)
guarda-costas (verbo – substantivo)
sempre-vivas (advérbio – adjetivo)
ex-alunos (prefixo – substantivo)

     C – Quando as palavras que compõem o substantivo composto vierem ligadas por preposição (de, do, sem etc.), pluraliza-se somente a primeira palavra:
canas-de-açúcar
águas-de-colônia
pés-de-meia

     D – Quando o substantivo composto é formado por palavras repetidas ou por onomatopeias, pluraliza-se somente a segunda palavra: reco-recos, tique-taques, bem-te-vis.

Observações:

     Há substantivos compostos que já têm a segunda palavra no plural: o saca-rolhas – os saca-rolhas.

     Nos substantivos compostos de verbos com sentidos contrários, nenhuma palavra se flexiona: os perde-ganha.

     Certos substantivos compostos apresentam mais de uma forma no plural: guardas-marinha ou guardas-marinhas ou guarda-marinhas / padre-nossos ou padres-nossos / salários-família ou salários-famílias.

     Há substantivos compostos que não variam no plural: os arco-íris, os louva-a-deus. 
  
     Flexiona-se só o primeiro elemento do substantivo composto, mas admite-se pluralizar ambos, quando o segundo expressa semelhança, finalidade ou limita o primeiro. Nesse caso, o substantivo composto é formado por dois substantivos: peixes-espada ou peixes-espadas / papéis-moeda ou papéis-moedas

     FLEXÃO DE GRAU

     Os substantivos podem ser flexionados quanto ao grau, expressando aumento ou diminuição.
     
     A ideia de aumento ou diminuição pode ser expressa de uma forma sintética ou de uma forma analítica.

     Para a forma sintética, basta acrescentar um sufixo aumentativo ou diminutivo ao substantivo: mãozona – mãozinha / homenzarrão – homenzinho.

     Para a forma analítica, emprega-se uma palavra (adjetivo) que dá a ideia de aumento ou de diminuição junto ao substantivo: mesa grande – mesa enorme / quarto pequeno – quarto minúsculo.

Observações:

     Em geral, faz-se o aumentativo sintético com os sufixos –ão ou –zão: dentão, pezão.

     E o diminutivo sintético, com os sufixos –inho ou –zinho: dentinho, pezinho.

     Há outros sufixos usados na formação do aumentativo (copázio, balaço, festança, cabeçorra) e do diminutivo (ruela, vilarejo, riacho).

     Certos sufixos indicativos de aumentativo ou diminutivo expressam, às vezes, um sentido depreciativo ou pejorativo, de grosseria ou de zombaria: beiçorra, orelhudo, jornaleco, gentinha.
     
     Há alguns sufixos indicativos de diminutivo que podem acrescentar ao substantivo uma ideia de carinho, de ternura: filhinho, docinho, coraçãozinho.

     Há substantivos que perderam o sentido gradativo de aumento ou de diminuição: cartão, portão, folhinha (calendário).
     

     

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Crônicas

A ÚLTIMA CRÔNICA
Fernando Sabino

     A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.
     A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
     Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
     Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
     A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
     São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
     Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Texto extraído do livro
 "A Companheira de Viagem", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.

1 – Considere a situação narrada em “A última crônica”.
a)      Qual é o cenário onde se passa a crônica?
b)      Qual é o período de tempo em que se passa a ação narrativa?
c)       Qual é a situação que dá origem à crônica?

2 – Observe a voz narrativa da crônica.
a)      O texto é narrado em primeira ou em terceira pessoa?
b)      Quem é o narrador do texto?

3 – No segundo parágrafo, o texto define o fazer do cronista.
a)      Escreva com suas palavras como deve ser uma crônica, segundo “A última crônica”.
b)      Por que o narrador não conseguia encontrar um assunto para a crônica?

4 – Leia o texto.

Os homenzinhos de Grork

A ficção científica parte de alguns pressupostos, ou preconceitos, que nunca foram devidamente discutidos. Por exemplo: sempre que uma nave espacial chega à Terra vinda de outro planeta, é um planeta mais adiantado do que o nosso. Os extraterrenos nos intimidam com suas armas fantásticas ou com sua sabedoria exemplar. Pior do que o raio da morte é o seu ar de superioridade moral. A civilização deles é invariavelmente mais organizada e virtuosa do que a da Terra e eles não perdem a oportunidade de nos lembrar disto. Cansado de tanta humilhação, imaginei uma história de ficção diferente. Para começar, o Objeto Voador Não Identificado que chega à Terra, descendo numa planície do Meio-Oeste dos Estados Unidos, chama a atenção por um estranho detalhe: a chaminé.
— Vi com estes olhos, xerife. Ele veio numa trajetória irregular, deu alguns pinotes, tentou subir e depois caiu como uma pedra.
— Deixando um facho de luz atrás?
— Não, um facho de fumaça. Da chaminé.
— Chaminé? Impossível. Vai ver o alambique do velho Sam explodiu outra vez e a sua cabana voou.
— Não, tinha o formato de um disco voador. Mas com uma chaminé em cima.
O xerife chama as autoridades estaduais, que cercam o aparelho. Ninguém ousa se aproximar até que cheguem as tropas federais. Um dos policiais comenta para o outro:
— Você notou? A vegetação em volta...
— Dizimada. Provavelmente um campo magnético destrutivo que cerca o disco e...
— Não. Parece cortada a machadinha. Se não fosse um absurdo eu até diria que eles estão colhendo lenha.
Nesse instante, um segmento de um dos painéis do disco, que é todo feito de madeira compensada, é chutado para fora e aparecem três homenzinhos com machadinhas sobre os ombros. Os três saem à procura de árvores para cortar. Estão examinando as pernas de um dos policiais, quando este resolve se identificar e aponta um revólver para os homenzinhos.
— Não se mexam ou eu atiro.
Os homenzinhos recuam, apavorados, e perguntam:
— Atira o quê?
— Atiro com este revólver.
O policial dá um tiro para o chão como demonstração. Os homenzinhos, depois de refeitos do susto, aproximam-se e passam a examinar a arma do policial, maravilhados. Os outros policiais saem de seus esconderijos e cercam os homenzinhos rapidamente. Mas não há perigo. Eles querem conversa. Para facilitar o desenvolvimento da história, todos falam inglês.
— Vocês não conhecem armas, certo? - quer saber um policial. - Estão num estágio avançado de civilização em que as armas são desnecessárias. Ninguém mais mata ninguém.
— Você está brincado? - responde um dos homenzinhos. - Usamos machadinhas, tacapes, estilingue, catapulta, flecha, qualquer coisa para matar. Uma arma como essa seria um progresso incrível no nosso planeta. Precisamos copiá-la!
Chegam as tropas federais e diversos cientistas que examinaram os extraterrenos e seu artefato voador. Começam as perguntas. De que planeta eles são? De Grork. Como é que se escreve? Um dos homenzinhos risca no chão: GRRK.
— Deve faltar uma letra - observa um dos cientistas. - O "O".
— O "O"?
— Assim - diz o cientista da Terra, fazendo uma roda no chão. O homenzinho examina o "O". As possibilidades da forma são evidentes. A roda! Por que não tinham pensado nisso antes? Voltarão para o Grork com três ideias revolucionárias: o revólver, a roda e a vogal. (...)

                                                                       Luís Fernando Veríssimo - O Nariz e Outras Crónicas

a)      Assim como “A última crônica”, “Os homenzinhos de Grork” também tem referências metalinguísticas. Como elas se apresentam no texto de Luís Fernando Veríssimo?
b)      Com relação ao uso da metalinguagem, qual é a maior semelhança e a maior diferença entre as duas crônicas?
c)       O cotidiano está presente em “Os homenzinhos de Grork”? De que forma?
d)      A crônica de Veríssimo também expõe uma reflexão crítica sobre a realidade. Explique como esse aspecto está presente no texto.
e)      O texto de Veríssimo cria um contraste entre o que costuma acontecer em histórias de ficção científica e os fatos narrados no texto. Que efeito esse contraste produz?
f)       “A última crônica” desperta a emoção do leitor, revelando um tom poético. Em “Os homenzinhos de Grork”, que característica se destaca? Justifique sua resposta.

O padeiro
 Rubem Braga

    Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lockout, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.
     Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:
      - Não é ninguém, é o padeiro!
      Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?
      "Então você não é ninguém?"
      Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...
     Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.
     Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o padeiro!"
      E assobiava pelas escadas.

 Texto extraído do livro: Para gostar de ler, Vol I -Crônicas . Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. 12ª Edição. Editora Ática . São Paulo.1989. p.63 - 64.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

CLASSES DE PALAVRAS

     Na língua portuguesa, existem milhares de palavras. Por isso existe a necessidade de classificar, fazer agrupamentos de palavras que apresentam algo em comum entre si.

    Conforme a função que exercem, podemos agrupar todas as palavras em dez classes:

Substantivo – nomeia os seres em geral;

Adjetivo – caracteriza o substantivo, indicando um atributo, estado ou modo de ser;

Artigo – precede o substantivo, determinando-o de modo vago ou preciso;

Pronome – substitui ou acompanha o substantivo, relacionando-o a uma das pessoas do discurso;

Numeral – indica a quantidade exata de seres, ou a posição que o ser ocupa numa série;

Verbo – exprime um processo situado no tempo. Esse processo pode ser uma ação, um estado, um fenômeno;

Advérbio – modifica o verbo, adjetivo ou advérbio, exprimindo uma circunstância;

Preposição – relaciona dois termos de uma oração, subordinando um ao outro;

Conjunção – liga duas orações ou dois termos da oração que exercem a mesma função;

Interjeição – exprime sentimento e emoções instantâneos.



     A classificação das palavras deverá sempre levar em conta o contexto em que elas aparecem.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

EXERCÍCIOS

Fragmento do Prefácio de Cromwell – Vítor Hugo

     “Digamo-lo, pois, ousadamente. Chegou o tempo disso, e seria estranho que, nesta época, a liberdade, como a luz, penetrasse por toda a parte, exceto no que há de mais nativamente livre no mundo, nas coisas do pensamento. Destruamos as teorias, as poéticas e os sistemas. Derrubemos este velho gesso que mascara a fachada da arte! Não há regras nem modelos; ou antes, não há outras regras senão as leis gerais da natureza que plainam sobre toda a arte, e as leis especiais que, para cada composição, resultam das condições de existência próprias para cada assunto. Umas são eternas, interiores, e permanecem; as outras, variáveis, exteriores, e não servem senão uma vez. As primeiras são o madeiramento que sustenta a casa; as segundas, os andaimes que servem para construí-la e que se refazem para cada edifício. [...] O gênio, que adivinha antes de aprender, extrai, para cada obra, as primeiras da ordem geral das coisas, as segundas do conjunto isolado do assunto que trata. [...]
     O poeta, insistamos neste ponto, não deve, pois, pedir conselhos senão à natureza, à verdade, e à inspiração, que é também uma verdade e uma natureza.”

1 – Segundo Vítor Hugo, qual é o grande ideal de sua época que deve estar presente também na literatura?

2 – Quais são as duas características do Classicismo contra as quais um autor romântico deve se insurgir?


3 – Mesmo assim, Vítor Hugo reconhece dois tipos de leis que devem presidir a criação artística. Quais são?


MEU SONHO
Álvares de Azevedo

Eu
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sanguenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? O remorso?
Do corcel te debruças no dorso...
E galopas do vale através...
Oh! Da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?
Tu escutas... Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? – que mistério,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!...

O fantasma
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!...

1 – Frequentemente, o individualismo romântico torna-se um egocentrismo doentio, que provoca a recusa e a fuga da realidade. Em que dimensão da vivência do sujeito lírico ocorre o diálogo com o misterioso cavaleiro?

2 – O que a figura do cavaleiro representa?

3 – No Romantismo, a descrição da natureza tem função expressiva, ecoando os estados de espírito do sujeito: a noite, os ventos, a tempestade refletem as angústias, o desespero, o medo, o terror; o luar emoldura a melancolia, a saudade, os suspiros amorosos; os lugares ermos, as montanhas, os vales, os desertos são os ambientes da solidão e da desesperança.

A - Faça uma lista das expressões que descrevem o ambiente fantasmagórico do poema:

B - Que sentimentos esse ambiente reflete?

4 – O Classicismo, como sabemos, utilizava de preferência o soneto em versos decassílabos – que os renascentistas chamam medida nova – ou, quando não, a medida velha da tradição medieval – os versos redondilhos. Rompendo como o rigor clássico, os românticos inauguraram uma grande liberdade em relação à forma poética, que devia atender às exigências expressivas do poema e não a regras preestabelecidas.

A - Faça a escansão dos dois primeiros versos do poema.

B - Faça o esquema de rimas, utilizando letras.

C - Qual é o esquema estrófico do poema?

5 – A que geração romântica pertence o poema? Justifique sua resposta.

A ESTÉTICA ROMÂNTICA


     O Romantismo definiu-se como escola literária na Europa a partir dos últimos vinte e cinco anos do século XVIII. O romance Werther, de Goethe, publicado na Alemanha em 1774, lança as bases definitivas do sentimentalismo romântico e do escapismo pelo suicídio. Na Inglaterra, o Romantismo se manifesta nos primeiros anos do século XIX, com destaque para a poesia ultrarromântica de lord Byron e para o romance histórico Ivanhoé, de Walter Scott.

CONTEXTO HISTÓRICO

     A Revolução Francesa dá destaque a uma nova personagem na cena europeia, o povo que pegou em armas e à força, transformou em realidade os ideais defendidos pelos filósofos iluministas.
     Após séculos de segregação, exploração e sofrimento nas mãos da monarquia, o homem comum tem sua liberdade e igualdade afirmadas e, mais importante, transforma-se em cidadão.
     A queda da monarquia, na França, abalou as monarquias absolutistas europeias e desencadeou uma série de transformações políticas em outros países.
     Na Inglaterra, onde a monarquia era mais estável, as mudanças aconteceram no terreno econômico. O país começou a acompanhar a passagem do modo de produção artesanal para a fabril. A máquina a vapor, os motores movidos a carvão e os teares mecânicos multiplicaram o rendimento do trabalho e aumentaram o ganho do burguês dono do capital.
     Com isso, alteram-se as relações sociais. De um lado, os empresários (capitalistas), detentores do capital, dos imóveis, das máquinas e dos bens produzidos pelo trabalho, e, de outro, o proletariado, que vende sua força de trabalho e produz mercadorias em troca de salários.
     A instalação de fábricas próximo aos centros urbanos atraiu um significativo número de camponeses, que abandonaram o campo em busca da promessa de prosperidade associada ao crescimento do comércio na zona urbana.
     A onda do progresso tecnológico se expande da Inglaterra para outros países da Europa e consolida as chamadas revoluções burguesas do século XVIII. A Independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial determinam a queda do Antigo Regime e consolidaram o capitalismo como novo sistema econômico.  
 
O ROMANTISMO

     Até o século XVIII, a arte sempre esteve voltada para os nobres e seus valores. Quando o burguês conquista poder político, precisa criar as suas referências artísticas, definir padrões estéticos nos quais se reconheça e que o diferenciem da nobreza deposta. É nesse contexto que o movimento romântico surge, provocando verdadeira revolução na produção artística.
     Para romper com a postura racional da estética árcade, o movimento romântico interpreta a realidade pelo filtro da emoção. Combinada à originalidade e ao subjetivismo, a expressão das emoções definirá os princípios da nova produção artística.
     A estética romântica substitui a exaltação na nobreza pela valorização do indivíduo e de seu caráter. Em lugar de louvar a beleza clássica, o novo artista elogia o esforço individual, a sinceridade, o trabalho. Pouco a pouco, os valores burgueses vão sendo apresentados como modelos de comportamento social nas obras de arte que começam a ser produzidas.
     O filósofo que inspirou boa parte dos princípios românticos foi Jean-Jacques Rousseau. Quando ele afirma que deseja mostrar a seus semelhantes “um homem em toda a verdade de sua natureza”, ilumina o grande projeto literário a ser cumprido pelo Romantismo: criar uma identidade estética para o burguês. Assim, o Romantismo pode ser definido como uma arte da burguesia.
     O primeiro passo para alcançar esse objetivo é valorizar, na obra literária, o indivíduo e toda a sua complexidade emocional, abolindo o controle racional. Os textos literários traçarão o perfil de heróis que precisam agir, sofrer, superar obstáculos de toda natureza para se qualificarem como exemplares. Na sociedade capitalista que remunera o trabalho, sacrifício e esforço passam a valer mais que a nobreza que se recebe de herança.
     O contexto de produção modifica-se bastante durante o movimento romântico. O desaparecimento da figura do mecenas contribui para a profissionalização dos artistas. Os escritores românticos, pela primeira vez na história, escrevem para sobreviver. Procuram, então, conciliar dois objetivos: divulgar os valores da burguesia e ao mesmo tempo divertir os leitores.
     Nos séculos XVII e XVIII, o número de leitores era bastante limitado e muitas vezes os textos eram lidos somente pelos nobres e por outros escritores. Com a possibilidade de publicação em veículos de grande circulação, como jornais e revistas, o alcance da literatura se amplia bastante.
     O público que lê os textos românticos tem um perfil bem mais heterogêneo do que o público de séculos anteriores, que vivia nos salões da Corte e no ambiente restrito das academias e das arcádias.
     Os burgueses que leem jornais e folhetins não contam com a mesma formação dos nobres. Não conhecem os autores clássicos, têm dificuldade em decifrar as referências à mitologia greco-latina. Por isso, preferem uma linguagem mais direta, passional, que não se ligue necessariamente aos padrões da herança literária.

     CARACTERÍSTICAS

     O romântico considera a imaginação superior à razão e à beleza, porque ela não conhece limites. Por esse motivo, a originalidade substitui a imitação, que desde a Antiguidade clássica orientava o olhar do artista para o mundo, no processo de criação. Os novos artistas encontram na própria individualidade, traduzida pelas emoções que sentem, as referências para a interpretação da realidade.
     Ele escreve para uma sociedade que se formou sob a influência dos filósofos iluministas e que, por isso, valorizava os processos racionais e as posturas coletivas. É essa mentalidade que ele deseja mudar e contra a qual se manifesta. De certa forma, seu sentimento de desajustamento social é verdadeiro e nasce do confronto entre os valores que defende, centrados no subjetivismo e na emoção, e os que organizam a sociedade em que vive. O embate entre esses dois sistemas de valores ganha forma em um dos temas mais explorados pela literatura romântica: a fuga da realidade.
     Nesse contexto, a morte passa a ser vista como possibilidade de fuga do real e, por isso, é idealizada. Ela se manifesta como opção de alívio para os males do mundo ou para o encontro definitivo dos amantes, separados pelos obstáculos da realidade.
     Além da morte, o mundo dos sonhos torna-se também um espaço de fuga. Nele, o escritor projeta suas utopias (pessoais e sociais). O passado, apresentado de modo completamente idealizado, também desempenha a mesma função: acolhe o olhar subjetivo desse autor que se sente deslocado na sociedade em que vive.
     Os temas medievais ressurgem com força total. A Idade Média representa uma época em que a sociedade estava repleta de feitos heroicos, sentimentos nobres e harmonia. Recuperar o passado histórico significava, de certa forma, reconstruir os passos de um povo e reconhecer os símbolos de sua identidade, aquilo que o torna único e incomparável.
     A linguagem dos textos românticos é marcada pela liberdade formal. As fórmulas literárias, com rigorosos esquemas métricos e rimas, são abandonadas.
     Para expressar o arrebatamento que caracteriza o olhar romântico para a realidade, os escritores recorrem à adjetivação abundante. Outro recurso importante para traduzir os sentimentos é a pontuação. Nos poemas e romances românticos, o uso de exclamações, interrogações e reticências procura fazer com que o leitor reconheça as emoções, angústias e aflições que tomam conta de quem as expressa. Todas essas características apontam para a preocupação em traduzir a subjetividade, de modo a caracterizar o olhar específico de um autor par o mundo e assegurar que ele se manifeste de modo único, diferente de todos os outros escritores.

TENDÊNCIAS LITERÁRIAS E SEUS PRINCIPAIS TEMAS:

Nacionalismo, historicismo e medievalismo
     Exaltando os valores e os heróis nacionais, os autores ambientam suas obras no passado histórico, sobretudo no período medieval.

Valorização das fontes populares – o folclore
     Além da pesquisa e do trabalho de registro das narrativas orais e das canções populares, os autores buscam nessas fontes inspiração para suas próprias obras. Essa utilização literária de tradição popular também é uma das manifestações do nacionalismo romântico.

Confessionalismo
     As obras tornam-se, frequentemente, a expressão dos sentimentos pessoais do autor em dado momento de sua vida.

Pessimismo
     Nem sempre o Romantismo exprime atitudes positivas em relação à vida. O individualismo e o egocentrismo adquirem traços doentios de inadaptação. O spleen (melancolia) do poeta inglês lord Byron influenciou todas as produções. O tédio de viver, também chamado “mal do século”, conduz às diversas formas de escapismo:
- narrativas de aventuras ambientadas em lugares exóticos ou num passado misterioso;
- narrativas fantásticas, envolvendo o sobrenatural;
- culto da imaginação: o sonho, o delírio, os ambientes noturnos;
- a morte como última solução para o indivíduo.

Crítica social
     O Romantismo pode assumir também um caráter combativo de oposição e crítica social.

AS GERAÇÕES ROMÂNTICAS

     Todas essas características podem aparecer em qualquer momento no Romantismo. Há uma nítida evolução através de três gerações de autores, cada uma marcada pela predominância de certos temas.

Primeira geração
     Os primeiros autores românticos ainda conservam características clássicas. Os temas que marcam essa fase estão ligados ao nacionalismo:
Em Portugal – o romance histórico e o medievalismo;
No Brasil – o indianismo.

Segunda geração
     É o período Ultrarromântico. Caracteriza-se pelo exagero do subjetivismo e da emoção: o tédio, a melancolia, o sonho, o desejo da morte estão sempre presentes. Esse clima pessimista e o escapismo constituem o “mal do século” (Byron e Musset).

Terceira geração
     Essa última fase antecipa certas características da Escola Realista, que substituirá o Romantismo. O pessimismo e o escapismo cedem lugar a uma literatura de tom exaltado, engajada nos grandes debates sociais e políticos da época.