sábado, 25 de março de 2017

ROMANTISMO NO BRASIL

MOMENTO HISTÓRICO DO ROMANTISMO NO BRASIL

     Grandes transformações políticas marcam a história brasileira na primeira metade do século XIX. A transferência da família real para o Rio de Janeiro (1808), a elevação do Brasil à categoria de reino (1816), a independência (1822), um primeiro reinado (D. Pedro I, 1822 – 1831), um período de regência (durante a menoridade de D. Pedro II, 1831 – 1840) e o início de um longo segundo reinado, que se estenderia até 1889.
      A insatisfação com o alcance das reformas introduzidas por D. João VI; o orgulho nacional despertado pela independência; os projetos de construção do novo país; a luta pela manutenção da unidade nacional; os conflitos entre liberais e conservadores na busca do modelo político; o conjunto de embates e sentimentos de luta nacional pela consolidação da autonomia.
     Na segunda metade do século, já consolidada a independência e a unidade nacional, o país conheceu um surto de desenvolvimento com a ampliação do comércio exterior e da imigração europeia; o aumento da exportação de café e o início da industrialização.
     Tudo isso não sem sérias crises de toda ordem: as econômicas, as de política interna, bem como crises internacionais (Guerra contra Rosas -1850 – 52; questão com o Uruguai – 1863 – 64; Guerra do Paraguai – 1865 – 70). Duas grandes campanhas envolveram os autores da última fase do Romantismo: a campanha republicana (o Partido Republicano foi fundado em 1870) e a campanha abolicionista.
Em 1836 Sales Torres Homem, Araújo Porto Alegre, Pereira da Silva e Gonçalves de Magalhães, sob a liderança deste último – lançou em Paris a Niterói, revista brasiliense. Os dois números dessa publicação pregavam a renovação da literatura brasileira pela adoção dos ideais românticos – sobretudo o nacionalismo e a religiosidade – e abandono dos padrões neoclássicos. No mesmo ano, Gonçalves de Magalhães publicou seu livro de poesias Suspiros poéticos e saudades, considerado a primeira obra intencionalmente romântica de nossa literatura.
     O ano de 1881, com a publicação das Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e de O Mulato, de Aluísio Azevedo, é considerado o marco inicial do Realismo-Naturalismo.

A PROSA ROMÂNTICA BRASILEIRA

     A década de 1830 trouxe para os moradores da capital do Império uma nova forma de entretenimento: a leitura de romances estrangeiros, principalmente franceses, traduzidos e publicados em jornais brasileiros na forma de folhetins.
     Os romances, marcados por lances melodramáticos e finais felizes, faziam o gosto dos jovens da corte. Escritores brasileiros, entusiasmados pelo sucesso dos folhetins franceses, aventuraram-se na criação de romances e, em 1843, surge o primeiro romance brasileiro, O filho do pescador, de Teixeira e Sousa. A crítica tende a considerar A Moreninha (1844) de Joaquim Manuel de Macedo como o primeiro romance brasileiro.  
     Nas décadas de 50 e 60 verifica-se o florescimento da prosa de ficção que se torna uma verdadeira mania. Autores como Teixeira e Sousa, Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida, Bernardo Guimarães e, principalmente, José de Alencar povoaram a imaginação e os sonhos dos brasileiros, sobretudo dos jovens da corte.
     Quanto aos temas, além das histórias de amor, os prosadores românticos, engajados desde o princípio no projeto de criar uma literatura nacional, procuraram cobrir diversos aspectos da vida brasileira, idealizando-os quase sempre: a vida da corte, os ambientes típicos regionais, o índio, o escravo, a natureza tropical...

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO (1820 – 1882)

     O Macedinho, apelido familiar com que era carinhosamente chamado pelos contemporâneos, formou-se em medicina, mas nunca exerceu a profissão. Foi professor (Colégio Pedro II), jornalista e político, tendo exercido vários mandatos de deputado pelo partido liberal. Como escritor, foi romancista, poeta, dramaturgo e historiógrafo.  Sua produção romanesca estendeu-se por três décadas e gozou de grande popularidade. Não obstante, morreu pobre e esquecido.
     Apesar da grande aceitação que teve entre os leitores, a obra de Macedo foi, posteriormente, alvo de crítica severa por causa de seu condicionamento ao gosto popular, ao sentimentalismo das personagens e das histórias, e, sobretudo, por não ter evoluído tecnicamente, repetindo sempre os mesmos esquemas que lhe garantiram o sucesso dos capítulos iniciais.
     Parte da crítica, entretanto, aponta Macedo como um bom cronista do Rio de Janeiro do Segundo Reinado, capaz de descrever a vida social e familiar com fino senso de observação. Seu estilo despretensioso e ligeiro é impregnado de um humor leve e sutil. Há também quem considere sua obra teatral mais importante que a romanesca.

Fragmento de A Moreninha – Joaquim Manuel de Macedo

     Um sarau é o bocado mais delicioso que temos, de telhado abaixo. Em um sarau todo o mundo tem que fazer. O diplomata ajusta, com um copo de champagna na mão, os mais intrincados negócios; todos murmuram, e não há quem deixe de ser murmurado. O velho lembra-se dos minuetes e das cantigas do seu tempo, e o moço goza todos os regalos da sua época; as moças são no sarau como as estrelas no céu; estão no seu elemento: aqui uma, cantando suave cavatina, eleva-se vaidosa nas asas dos aplausos, por entre os quais surde, às vezes, um bravíssimo inopinado, que solta de lá da sala do jogo o parceiro que acaba de ganhar sua partida no écarté, mesmo na ocasião em que a moça se espicha completamente, desafinando um sustenido; daí a pouco vão outras, pelos braços de seus pares, se deslizando pela sala e marchando em seu passeio, mais a compasso que qualquer de nossos batalhões da Guarda Nacional, ao mesmo tempo que conversam sempre sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas apreciáveis. Outras criticam de uma gorducha vovó, que ensaca nos bolsos meia bandeja de doces que veio para o chá, e que ela leva aos pequenos que, diz, lhe ficaram em casa. Ali vê-se um ataviado dandy que dirige mil finezas a uma senhora idosa, tendo os olhos pregados na sinhá, que senta-se ao lado. Finalmente, no sarau não é essencial ter cabeça nem boca, porque, para alguns é regra, durante ele, pensar pelos pés e falar pelos olhos.
      E o mais é que nós estamos num sarau. Inúmeros batéis conduziram da corte para a ilha de... senhoras e senhores, recomendáveis por caráter e qualidades; alegre, numerosa e escolhida sociedade enche a grande casa, que brilha e mostra em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto.
     Entre todas essas elegantes e agradáveis moças, que com aturado empenho se esforçam para ver qual delas vence em graças, encantos e donaires, certo sobrepuja a travessa Moreninha, princesa daquela festa

 1 – Segundo o narrador, o sarau era “o bocado mais delicioso” dos lares cariocas. Que importância tinha para a vida social de então?
2 – A que classe social pertencem os frequentadores de sarau? Justifique sua resposta com expressões do texto.
3 – Explique e comente a seguinte frase do texto: “Finalmente, no sarau não é essencial ter cabeça nem boca, porque, para alguns é regra, durante ele, pensar pelos pés e falar pelos olhos”.

JOSÉ DE ALENCAR (1829 – 1877)

     Nasceu em Mecejana, no Ceará, tinha o mesmo nome do pai, importante figura política do Império. Formado em Direito em São Paulo, Alencar dividiu suas atividades entre a advocacia, o jornalismo e a política, tendo sido deputado pela Província do Ceará e ministro da Justiça. Candidato ao cargo de senador, foi o primeiro colocado numa lista sêxtupla, da qual o Imperador deveria escolher dois nomes. Não sendo escolhido, desgostou-se da política e retirou-se da vida pública. Como escritor foi o principal prosador do Romantismo brasileiro, destacando-se sobretudo pela fecundidade de sua imaginação. Sua obra completa reúne vinte romances de desigual qualidade, seis peças de teatro, crônicas e artigos de jornal, polêmicas literárias e políticas, discursos, pareceres jurídicos, uma pequena autobiografia (Como e por que sou romancista), além de um poema épico inacabado (Os filhos de Tupã). 
     Foi José de Alencar quem fixou e ampliou os modelos do romance romântico brasileiro, diversificando seus temas e dando-lhe uma qualidade literária superior.
     Observando o conjunto de sua produção literária, temos a impressão de que Alencar obedece a um sentimento de dever patriótico, como se cumprisse a missão cívica de compor, num grande painel romanesco, o retrato da nova nação.
     Apresenta as seguintes fases:
a)      Fase primitiva ou aborígine (“lendas e mitos da terra selvagem e conquistada”): Iracema, Ubirajara;
b)      Fase histórica (“consórcio do povo invasor com a terra americana”): O guarani, As minas de prata;
c)       Fase da “infância da nossa literatura, começada com a independência política”: O tronco do ipê, Til, O gaúcho, Lucíola, Diva, A pata da gazela, Sonhos d’ ouro.
     Tradicionalmente, a crítica estabelece a seguinte classificação dos romances de José de Alencar:
1 – Romances indianistas – Dão continuidade à idealização do índio, iniciada na poesia de Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias. O homem americano tanto é caracterizado como um ser em perfeita comunhão com a natureza, bem como com os valores dos cavaleiros medievais:
a)      O guarani (1857) – Primeiro grande sucesso de Alencar entre os leitores, mostra o início da colonização do Sudeste (Vale do Paraíba, séc. XVI) e da aculturação do índio. Peri e Ceci (Cecília), heróis do romance, integram-se no imaginário brasileiro como verdadeiros mitos.
b)      Iracema (1865) – Obra-prima em que José de Alencar, com uma linguagem de grande teor poético e um tom lendário para a narrativa, cria um mito das origens de um povo.
c)       Ubirajara (1874) – Focaliza o índio na fase anterior ao contato com os colonizadores.
2 – Romances regionalistas – Procuram apresentar as características mais típicas das diversas regiões culturais do país:
a)      O gaúcho (1870) – Focaliza o homem dos pampas idealizado na personagem Manuel Canho como um centauro.
b)      O sertanejo (1875) – A personagem Arnaldo encarna o sertanejo cearense, seus costumes, suas tradições e, sobretudo, seu caráter.
c)       O tronco do ipê (1871) e Til (1872) – Constituem o “romance fazendeiro”, por descreverem a vida rural já marcada pelas influências urbanas, no interior de São Paulo.
3 – Romances históricos:
a)      As minas de prata (1862 – 1865) – Tem como tema a saga dos bandeirantes desbravando os sertões brasileiros em busca de tesouros.
b)      A Guerra dos Mascates (1873 – 1874) – Neste romance o autor aproveita um tem a histórico – o conflito entre Olinda e Recife ocorrido no século XVIII – para fazer alusões críticas à política de D. Pedro II.
c)       Alfarrábios (1873) – Compõem-se de três narrativas menores: O garatuja, O ermitão da Glória e Alma de Lázaro.
4 – Romances urbanos – Ambientam-se na época do autor e retratam os costumes da sociedade carioca do Segundo Reinado. Às complicadas histórias de amor e aos perfis femininos idealizados mesclam-se o estudo psicológico, muitas vezes de surpreendente complexidade, e a crítica à superficialidade e à duplicidade dos valores morais burgueses.
     Além das obras menores – Cinco minutos (1865); A viuvinha (1860); Diva (1864); A pata da gazela (1870); Sonhos d´ouro (1872) e Encarnação (póstuma, 1877) – duas se destacam, consideradas por alguns críticos como pré-realistas:
a)      Lucíola (1862) – Tem como tem a prostituição determinada por fatores familiares e sociais. Lúcia torna-se a prostituta mais cara e disputada do Rio de Janeiro, mas conserva uma pureza essencial que será resgatada pelo amor de Paulo.
b)      Senhora (1875) – Tem como tema o casamento por interesse.

Senhora                        José de Alencar
Fragmento I

     Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.
     Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões.
    Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade.
    Era rica e formosa.
    Duas opulências, que se realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante.
    Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da Corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira o seu fulgor?
     Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia.
     Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros.
    Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade.
    Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina.
    Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse.

Fragmento II

    Seixas ajoelhou aos pés da noiva, tomou-lhe as mãos que ela não retirava; e modulou o seu canto de amor, essa ode sublime do coração que só as mulheres entendem, como somente as mães percebem o balbuciar do filho.
   A moça com o talhe languidamente recostado no espaldar da cadeira, a fronte reclinada, os olhos coalhados em uma ternura maviosa, escutava as falas de seu marido; toda ela se embebia dos efluídos de amor, de que ele a repassava com a palavra ardente, o olhar rendido, e o gesto apaixonado.
    — É então verdade que me ama?
    — Pois duvida, Aurélia?
   — E amou-me sempre, desde o primeiro dia que nos vimos?
   — Não lho disse já?
   — Então nunca amou a outra?
  — Eu lhe juro Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra mulher, que não fosse a minha mãe. O meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti...
   Soerguendo-se para alcançar-lhe a face, não viu Seixas a súbita mutação que se havia operado na fisionomia de sua noiva.
   Aurélia estava lívida, e a sua beleza, radiante há pouco, se marmorizara.
   — Ou para outra mais rica!... disse ela retraindo-se para fugir ao beijo do marido, e afastando-o com a ponta dos dedos.
   A voz da moça tomara o timbre cristalino, eco da rispidez e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio, e que parecia ringir-lhe nos lábios como aço.
  — Aurélia! Que significa isto?
  — Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade pôr mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.
   — Vendido! exclamou Seixas ferido dentro d'alma.
   — Vendido sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica, sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza pôr este momento.
   Aurélia proferiu estas palavras desdobrando um papel, no qual Seixas reconheceu a obrigação pôr ele passada ao Lemos.
   Não se pode exprimir o sarcasmo que salpicava dos lábios da moça; nem a indignação que vazava dessa alma profundamente revolta, no olhar implacável com que ela flagelava o semblante do marido.
   Seixas, trespassado pelo cruel insulto, arremessado do êxtase da felicidade a esse abismo de humilhação, a princípio ficara atônito. Depois quando os assomos da irritação vinham sublevando-lhe a alma, recalcou-os esse poderoso sentimento do respeito à mulher, que raro abandona o homem de fina educação.
   Penetrado da impossibilidade de retribuir o ultraje à senhora a quem havia amado, escutava imóvel, cogitando no que lhe cumpria fazer; se matá-la a ela, e matar-se a si, ou matar a ambos.

1 – Aurélia é apresentada por metáforas que intensificam e idealizam seu brilho social, sua beleza ímpar e seu poder de sedução.
a)      Identifique algumas dessas metáforas.
b)      “Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela” – encontre no texto a frase que traduz o sentido metafórico dessa frase.
2 – A beleza era atrativo suficiente para que uma mulher brilhasse na sociedade e fosse cortejada e disputada pelos rapazes solteiros? Justifique sua resposta.
3 – Explique, com base no enredo de Senhora, o duplo comportamento de Aurélia na noite de núpcias.
4 – A fala áspera e sarcástica de Aurélia expõe cruamente o tema do romance. Copie do texto as expressões do jargão comercial com que ela define seu casamento como um simples contrato de compra e venda.
5 – No fragmento I, o narrador refere-se aos “comentos malévolos” sobre Aurélia, cujas atitudes independentes escandalizam uma sociedade que não aceita a emancipação feminina.
a)      De que modo, no fragmento I, Aurélia contorna esses escrúpulos da sociedade?
b)      Com qual expressão do fragmento II Aurélia se refere ironicamente ao casamento como uma exigência dos escrúpulos da sociedade?


     O trecho abaixo foi extraído do capítulo XXXIII de Iracema e mostra o batismo de Poti, amigo de Martim.


  Poti levantava a taba de seus guerreiros na margem do rio e esperava o irmão que lhe prometera voltar. Todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia os olhos ao mar, para ver se branqueava ao longe a vela amiga.

   Afinal volta Martim de novo às terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias, em seu coração derramou-se um fogo que o requeimou: era o fogo das recordações que ardiam como a centelha sob as cinzas.
[...]
  Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com ele a mairi dos cristãos. Veio também um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem.
   Poti foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho; não sofria ele que nada mais o separasse de seu irmão branco. Deviam ter ambos um só deus, como tinham um só coração.
  Ele recebeu com o batismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e sobre os dous o seu, na língua dos novos irmãos. Sua fama cresceu e ainda hoje é o orgulho da terra, onde ele primeiro viu a luz.
  A mairi que Martim erguera à - margem do rio, nas praias do Ceará, medrou. Germinou a palavra do Deus verdadeiro na terra selvagem; e o bronze sagrado ressoou nos vales onde rugia o maracá. [...]

1 – Qual é a missão de Martim ao voltar?
a)      Transcreva o trecho em que essa missão fica evidente.
b)      Nesse trecho, Alencar consegue esquecer suas “ideias de homem civilizado”? Explique.

2 – Martim e Poti representam, respectivamente, a cultura europeia e a indígena. Como se comporta Poti diante da possibilidade de converter-se à religião de Martim?
a)      O que simboliza, do ponto de vista cultural, a conversão de Poti?

MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA  (1831 – 1861)

     Considerado uma “voz de exceção” em nosso Romantismo, pela originalidade da obra que criou, Manuel Antônio de Almeida publicou Memórias de um sargento de milícias entre 1852 e 1853, em forma de folhetim, no suplemento “A Pacotilha”, do Jornal do Comércio, sob o pseudônimo de “Um Brasileiro”.
     Esta obra contrasta com os romances românticos de sua época e possui traços que anunciam a literatura modernista do século XX, por várias razões. Primeiro, por ter como protagonista um herói malandro, ou um “anti-herói”, na opinião de alguns críticos. Segundo, pelo tipo especial de nacionalismo que a caracteriza, ao documentar traços específicos da sociedade brasileira do tempo do rei D. João VI, com os costumes, os comportamentos e os tipos sociais de um estrato médio da sociedade, até então ignorado pela literatura. Terceiro, pelo tom de crônica que dá leveza e aproxima da fala a sua linguagem direta, coloquial, irônica e próxima do estilo jornalístico.

Fragmento de Memórias de um sargento de milícias                 
Manuel Antônio de Almeida

Origem, nascimento e batizado

   Era no tempo do rei.
   Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo-O canto dos meirinhos-; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo.
   Daí sua influência moral.
  Mas tinham ainda outra influência, que é justamente a que falta aos de hoje: era a influência que derivava de suas condições físicas. Os meirinhos de hoje são homens como quaisquer outros; nada têm de imponentes, nem no seu semblante nem no seu trajar, confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou contínuo de repartição. Os meirinhos desse belo tempo não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos, nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, seus olhares calculados e sagazes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco, cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu armado.         Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava de sua posição. Era terrível quando, ao voltar uma esquina ou ao sair de manhã de sua casa, o cidadão esbarrava com uma daquelas solenes figuras que, desdobrando junto dele uma folha de papel, começava a lê-la em tom confidencial! Por mais que se fizesse não havia remédio em tais circunstâncias senão deixar escapar dos lábios o terrível-Dou-me por citado.-Ninguém sabe que significação fatalíssima e cruel tinham estas poucas palavras! eram uma sentença de peregrinação eterna que se pronunciava contra si mesmo; queriam dizer que se começava uma longa e afadigosa viagem, cujo termo bem distante era a caixa da Relação, e durante a qual se tinha de pagar importe de passagem em um sem-número de pontos; o advogado, o procurador, o inquiridor, o escrivão, o juiz, inexoráveis Carontes, estavam à porta de mão estendida, e ninguém passava sem que lhes tivesse deixado, não um óbolo, porém todo o conteúdo de suas algibeiras, e até a última parcela de sua paciência,
   Mas voltemos à esquina. Quem passasse por aí em qualquer dia útil dessa abençoada época veria sentado em assentos baixos, então usados, de couro, e que se denominavam-cadeiras de campanha-um grupo mais ou menos numeroso dessa nobre gente conversando pacificamente em tudo sobre que era lícito conversar: na vida dos fidalgos, nas notícias do Reino e nas astúcias policiais do Vidigal.

1 – Os romances de alguns escritores românticos apresentam algumas características da vida da elite brasileira urbana no início do século XIX.
a)      “Era no tempo do rei.” Qual é a intenção do narrador ao oferecer a seus leitores essa informação?
b)      A que momento da história do Brasil o texto faz referência?

2 – Para caracterizar a vida no tempo do rei, o narrador escolhe personagens que desempenham uma função específica na sociedade. Que função é essa?
a)      A importância dada a essa função contribui para sugerir que a sociedade brasileira da época começava a ter a organização própria dos grandes centros urbanos. Explique por quê.
3 – Releia o último parágrafo.  As conversas dos meirinhos sugerem que a vida na cidade era tranquila ou agitada? Por quê?
a)      O narrador escolheu os meirinhos para começar a contar sua história, que falará sobre o “tempo do rei”. De que modo essas personagens podem ajudá-lo a realizar esse objetivo?

TAUNAY (1843 – 1899)

     Alfredo d´Escragnolle Taunay era neto do pintor Nicolas-Antoine Taunay, um dos paisagistas integrantes da missão francesa trazida ao Brasil por D. João VI. Para evitar a associação com o avô famoso, publicou o romance Inocência sob o pseudônimo de Sylvio Dinarte. Após o êxito de seu romance, Taunay não teve mais como esconder sua origem nobre. Embora tenha escrito mais de cinquenta livros, apenas dois deles alcançaram sucesso: Inocência (1872) e A retirada da Laguna (1872).
     Em Inocência, o espaço regional destacado é o do interior do Mato Grosso e sua apresentação sugere uma retomada romântica do locus amoenus da tradição clássica: local harmonioso, pacífico, ideal.
    Além de realizar verdadeiras “pinturas” do espaço em que se passa a ação, as personagens do livro são muito bem construídas.
    A estrutura da obra é outro aspecto cuidado pelo autor. Taunay domina com excelência a técnica do corte, o que estimula a curiosidade do leitor e faz com que permaneça preso ao livro, desejando saber como se resolvem as situações de suspense apresentadas nos finais de capítulos.
    
FRANKLIN TÁVORA

     Era cearense e atuou como advogado, historiador, crítico, teatrólogo, contista e romancista. Ganhou notoriedade quando promoveu uma campanha contra José de Alencar.
     Argumentava que os romances de Alencar não eram capazes de imprimir caráter verdadeiramente nacional à literatura brasileira.
     Nas obras que escreveu, procurou exemplificar o que seria uma abordagem digna de se qualificar como nacional. Lançou a teoria de uma “literatura do norte”, defendendo o argumento de que os elementos brasileiros somente poderiam ser encontrados naquela região.
     Adotou uma visão separatista na literatura. Segundo ele, como Norte e Sul são duas regiões com formação histórica, mentalidade e paisagem completamente distintas, nada seria mais natural do que reconhecer tais diferenças e explorá-las nos textos literários.
     É considerado o “fundador” do regionalismo do Nordeste.
     No romance O Cabeleira, sua obra mais conhecida, conta a história de José Gomes, o bandido “Cabeleira”. O texto procura levar o leitor a compreender que circunstâncias ambientais contribuem para tornar José Gomes um bandido e a concluir que, caso tivesse educação e cultura, o destino dele poderia ter sido diferente. A regeneração do Cabeleira se dá por meio do amor, inverossímil, por Luisinha, uma amiga de infância que ele encontra quando está fugindo. A morte da amada faz com que ele se deixe capturar pela polícia no fim da história.

BERNARDO GUIMARÃES

     Bernardo Joaquim da Silva Guimarães nasceu e faleceu em Ouro Preto. Advogado, jornalista, crítico literário, juiz e professor, foi o autor do primeiro romance regionalista brasileiro, O ermitão de Muquém, publicado em 1864.
     Em suas obras, repete-se a fórmula simples do romance de folhetim: o herói nobre, o patife e a heroína apaixonada enfrentam diversos conflitos até alcançar o final feliz.
     Assim acontece em A escrava Isaura, história de uma escrava branca que sofre as perseguições de Leôncio, seu senhor. Publicada em 1875, em plena campanha pela libertação dos escravos.

O TEATRO ROMÂNTICO

     Para completar o projeto romântico de formação de uma literatura brasileira, os escritores da época precisaram também se dedicar à criação de peças teatrais. O primeiro foi Gonçalves de Magalhães, que, em 1837, entregou a tragédia Antônio José ou O poeta e a inquisição para ser encenada pelo ator João Caetano.
     João Caetano será, ao lado de Martins Pena, responsável pelo grande sucesso do teatro romântico nacional. O ator formou, em 1833, uma companhia brasileira com o objetivo declarado de acabar com “a dependência artística de atores estrangeiros para o nosso teatro”.

MARTINS PENA

     É reconhecido como o primeiro autor teatral a desenvolver temas nacionais, sempre apresentando observações satíricas sobre algum aspecto da realidade brasileira.
     Suas peças têm estrutura simples, muitas vezes um único ato, e apresentam caracteres e situações que não chegam a ser aprofundados. A encenação leve provocava o riso da plateia ao mesmo tempo que apontava aspectos reprováveis em diferentes setores da sociedade brasileira.
     Destaca-se em sua obra o enfoque sobre as diferenças entre os tipos sertanejos e os metropolitanos, o confronto entre as realidades e os valores da capital e da província.
     O intuito do autor é ridicularizar, por meio da apresentação caricata, os tipos roceiros e provincianos, que se transformavam em fonte de riso fácil para o público fluminense.














domingo, 5 de março de 2017

Romantismo em Portugal

MOMENTO HISTÓRICO DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

     Portugal, historicamente aliado à Inglaterra, viu-se envolvido numa sucessão de guerras contra a França. Em 1807, Napoleão Bonaparte, aliado à Espanha, invadiu Portugal para garantir o Bloqueio Continental à Inglaterra. As consequências foram a fuga da família real para o Brasil, e uma longa guerra, só terminada em 1811. Após a retirada dos franceses, o país continuou sofrendo a intervenção inglesa em seu governo, o que provocou a revolução militar de 1818 e a revolta do Porto, em 1820. A partir de então e até os meados do século, Portugal seria constantemente abalado pelas lutas políticas e pela guerra civil entre conservadores (absolutistas) e liberais (favoráveis a uma monarquia constitucional)
     A constituição de 1822, elaborada a partir da vitoriosa revolução liberal do Porto, instituiu a liberdade de imprensa, a separação dos poderes.
     Em 7 de setembro de 1822, o Brasil tornava-se independente.
     Em 1828, D. Miguel, irmão de D. Pedro, liderou a revolta de Vila Franca (Vilafrancada), que restabeleceu o absolutismo.
     Entre 1828 e 1834 ocorria a guerra civil opondo os absolutistas, liderados por D. Miguel, e os liberais, liderados por D. Pedro (I do Brasil e IV de Portugal), com a vitória final dos liberais. Segue-se ainda, entretanto, um longo período de agitações políticas, alternando-se a vigência da constituição liberal de 1822 e a da carta constitucional de D. Pedro, de 824. A conciliação política só se estabelece a partir de 1851, no período chamado de Regeneração.

O ROMANTISMO EM PORTUGAL

     Portugal participou intensamente das grandes transformações políticas europeias do início do século XIX. A implantação do liberalismo foi difícil e custou alguns anos de guerra.
     Nesse período acontecem as primeiras manifestações pré-românticas, como a poesia de Bocage. O Romantismo só tem início no final dos anos 20.
     Almeida Garrett é considerado o introdutor do Romantismo em Portugal, pela publicação dos poemas narrativos Camões, em 1825 e Dona Branca, em 1826.  Apesar das características neoclássicas ainda presentes nos dois poemas, o tom emocional e melancólico faz deles as primeiras obras intencionalmente românticas da literatura portuguesa.
     A nova escola dominará a literatura até a década de 60. Em 1865 uma polêmica denominada Questão Coimbrã marcará o término do Romantismo e o início do Realismo.
     Durante essas quatro décadas o Romantismo evolui em três momentos, conforme se sucederam as gerações dos autores.

PRIMEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA PORTUGUESA

     A primeira geração é ainda marcada pelas contradições próprias dos momentos iniciais de uma nova estética: os autores ainda não se libertaram totalmente das tradições do Classicismo. Por outro lado, o envolvimento nas lutas pela implantação do liberalismo em Portugal acentua as características ideológicas de suas obras. Tais características traduzem-se sobretudo no nacionalismo e no historicismo medievalista.
     Os principais autores foram Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Antônio Feliciano de Castilho.

     JOÃO BATISTA DA SILVA LEITÃO DE ALMEIDA GARRETT (1799 – 1854)

     A poesia de Garrett está presa, em sua primeira fase, à estética neoclássica. Folhas caídas, obra da maturidade poética do autor, reúne sua melhor produção lírica e a melhor poesia romântica portuguesa. Os poemas foram inspirados na paixão do autor por Rosa de Montúfar, a Viscondessa da Luz. “Este inferno de amar” e “Não te amo” mostram o tom apaixonado e confessional – expressão dos conflitos sentimentais do autor.
     Na prosa, escreveu Viagens na minha terra. Obra de difícil classificação, mistura características do relato de viagens, do diário íntimo, do ensaio, da reportagem jornalística e do romance. O núcleo da narrativa é o relato de uma viagem de Lisboa a Santarém (baseado numa experiência real do autor). Mas o narrador faz, ao longo dos quarenta e nove capítulos, digressões de todo tipo e a qualquer propósito: comentários sobre política e administração pública, sobre o clero, sobre o amor, sobre arte, literatura, mantendo sempre um tom leve, jornalístico e irônico. No capítulo X, estando já o narrador no vale de Santarém, toma conhecimento da história amorosa de Joaninha, a menina dos rouxinóis, e seu primo Carlos. Desse ponto em diante, o autor entremeia na narrativa os lances dessa novela sentimental, que possui todos os ingredientes românticos: paixão e ciúme, mistérios e um final trágico, com o distanciamento do herói e a morte da heroína.
     No teatro, escreveu Frei Luís de Sousa.  Garrett aproveitou um fato histórico – a vida de Frei Luís de Sousa, nome religioso do escritor quinhentista Manuel de Sousa Coutinho – para criar essa obra do teatro romântico português. A ação, situada no final do século XVI, possui dois eixos dramáticos: a história familiar de Manuel de Sousa Coutinho e a resistência dessa personagem ao domínio espanhol.

Este Inferno de Amar
Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei... 

1 – A que episódio da biografia de Garrett parece estar associado o poema?
2 – A qual característica romântica corresponde a associação entre biografia e obra?
3 – O poema exprime a confusão dos sentimentos do amante.
a)     Comente, a este respeito, o título do poema.
b)     Localize na primeira estrofe dois paradoxos que exprimem a confusão dos sentimentos.
4 – O tom emotivo – como se o sujeito lírico não se contivesse e explodisse em confidências confusas, ou como se falasse sozinho, procurando entender seus sentimentos – motivou a pontuação excessiva do texto. Localize e copie:
a)     Uma frase exclamativa que exprima constatação perplexa de um sentimento.
b)     Uma frase interrogativa que exprima essa mesma perplexidade.
c)      Uma frase que exprima dúvida.
5 – O sujeito lírico evoca o tempo em que o amor era apenas um sonho. Os olhos de uma mulher despertaram-no, tornando o sonho realidade.
a)     Qual a diferença entre o sonho e a realidade do amor?
b)     Apesar dessa diferença, o poema termina com uma defesa do amor. Explique.

Não te Amo

Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
      E eu n’alma - tenho a calma,
      A calma - do jazigo.
      Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
      E a vida - nem sentida
      A trago eu já comigo.
      Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
      De um querer bruto e fero
      Que o sangue me devora,
      Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
      Quem ama a aziaga estrela
      Que lhe luz na má hora
      Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
      De mau, feitiço azado
      Este indigno furor.
      Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
      Que de mim tenho espanto,
      De ti medo e terror...
      Mas amar!... não te amo, não. 

1 – Quais são os dois sentimentos que, segundo o sujeito lírico, se contradizem e se excluem?
2 – Qual é a natureza de cada um desses sentimentos?
3 – Se o sujeito lírico considera um “indigno furor” o que sente em relação à mulher, a frase “não te amo, não” da última estrofe é uma negação ou uma autocensura? Explique.

ALEXANDRE HERCULANO DE CARVALHO E ARAÚJO (1810 – 1877)

     Teve uma participação tão intensa nas lutas políticas de sua época quanto Almeida Garrett. Exilou-se na Inglaterra e na França e, retornando a Portugal em 1832, participou da guerra civil, incorporado ao exército de D. Pedro. Tornou-se um liberal conservador e lutou sempre contra os democratas. A partir de seu tardio casamento em 1866, retirou-se ao silêncio de sua quinta em Val-de-Lobos.
     Herculano é mais importante como prosador que como poeta. Sua obra de ficção reflete sua vocação de historiador medievalista, que ocupou grande parte de sua vida: os três romances e o livro de contos que escreveu ambientam-se todos na Idade Média:
a)     Eurico, o presbítero: focaliza a Espanha do século VIII, no final do período visigótico e início da invasão árabe. Este romance funde a temática histórica e nacionalista com o tema do celibato clerical.
b)     O monge de Cister, ou a época de D. João I: esse romance ambienta-se na época da Revolução de Avis (1383 – 85) e junto com Eurico, o presbítero forma o volume chamado Monasticon.
c)      O bobo: focaliza a época de D. Afonso Henriques, ou seja, da formação do Estado de Portugal (século XII).
d)     Lendas e narrativas: livro de contos em que predominam os temas medievais (apenas duas narrativas ambientam-se no século XIX).

Fragmento de Eurico, o presbítero
Alexandre Herculando

     Levado à existência tranquila do sacerdócio pela desesperança, Eurico sentira a princípio uma suave melancolia refrigerar‑lhe a alma requeimada ao fogo da desdita. A espécie de torpor moral em que uma rápida transição de hábitos e pensamentos o lançara pa­receu‑lhe paz e repouso. A ferida afizera‑se ao ferro que estava dentro dela, e Eurico supunha‑a sarada. Quando um novo afeto veio espremê‑la é que sentiu que não se havia cerrado, e que o sangue manava ainda, porventura, com mais força. Um amor de mulher mal correspondido a tinha aberto: o amor da pátria, despertado pelos acontecimentos que rapidamente sucediam uns aos outros na Es­panha despedaçada pelos bandos civis, foi a mão que de novo abriu essa chaga. As dores recentes, avivando as antigas, começaram a converter pouco a pouco os severos princípios do cristianismo em flagelo e martírio daquela alma que, a um tempo, o mundo repelia e chamava e que nos seus transes de angústia sentia escrita na consciência com a pena do destino esta sentença cruel: ‑ nem a todos dá o túmulo a bonança das tempestades do espírito.
     As cenas de dissolução social que naquele tempo se representa­vam na Península eram capazes de despertar a indignação mais veemente em todos os ânimos que ainda conservavam um diminuto vestígio do antigo caráter godo. Desde que Eurico trocara o gardin­gato pelo sacerdócio, os ódios civis, as ambições, a ousadia dos bandos e a corrupção dos costumes haviam feito incríveis progressos. Nas solidões do Calpe tinha reboado a desastrada morte de Vítiza, a entronização violenta de Roderico e as conspirações que ameaçavam rebentar por toda a parte e que a muito custo o novo monarca ia afogando em sangue. Ebas e Sisebuto, filhos de Vítiza, Opas, seu tio, sucessor de Siseberto na sé de Híspalis, e Juliano, conde dos domínios espanhóis nas costas de África, do outro lado do Estreito, eram os cabeças dos conspiradores. Unicamente o povo conservava ainda alguma virtude, a qual, semelhante ao líquido transvazado por cendal delgado e gasto, escoara inteiramente através das classes superiores. Oprimido, todavia, por muitos gêneros de violências, esmagado debaixo dos pés dos grandes que lutavam, descrera por fim da pátria, tornando‑se indiferente e covarde, prestes a sacrificar a sua existência coletiva à paz individual e doméstica. A força moral da nação tinha, portanto, desaparecido, e a força material era ape­nas um fantasma; porque, debaixo das lorigas dos cavaleiros e dos saios dos peões das hostes não havia senão ânimos gelados, que não podiam aquecer‑se ao fogo do santo amor da terra natal.
     Com a profunda inteligência de poeta o presbítero contemplava este horrível espetáculo de uma nação cadáver e longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes daquela geração dege­nerada, ou derramava sobre o pergaminho em torrentes de fel, de ironia e de cólera a amargura que lhe trasbordava do coração ou, recordando‑se dos tempos em que era feliz porque tinha esperança, escrevia com lágrimas os hinos de amor e de saudade.

1 – Quais as duas feridas abertas no coração de Eurico?
2 – A nação visigótica punha em risco sua existência coletiva. Em que camada social estava a sua última reserva de virtude nessa fase de decadência? Essa reserva moral foi preservada? Explique.
3 – As atitudes das personagens românticas diante das adversidades são sempre extremas: ou se entregam a um desespero escapista, ou enfrentam os problemas heroicamente, com uma ousadia cega. Em Eurico vemos conjugadas essas duas atitudes. Explique-as, tendo em vista o enredo do romance.

ANTÔNIO FELICIANO DE CASTILHO (1800 – 1875)

     Praticamente cego desde os seis anos, conseguiu formar-se em humanidades. Ficou famoso pelo seu espírito de pesquisador. Traduziu clássicos gregos e fez poesia e prosa. No seu tempo era considerado o “papa do romantismo”. Em 1865, ao prefaciar a obra Poemas da Mocidade de Pinheiro Chagas, provocou uma polêmica com Antero de Quental, originando-se daí a Questão Coimbrã ou o Bom Senso e Bom Gosto. Sua vida literária no início é de influência arcádica (Cartas de Eco a Narciso, A Primavera, Amor e Melancolia). Como romântico publica A Noite do Castelo e Os Ciúmes do Bardo.

SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA PORTUGUESA

     Na segunda geração os autores, livres da influência neoclássica, puderam realizar plenamente os ideais estéticos românticos: liberdade de criação, entrega total ao subjetivismo e à imaginação. Ultrapassam todos os limites e as obras passaram a transbordar uma emoção quase irracional: o tédio, a melancolia (o spleen de Byron), o desespero. O egocentrismo chegava aos extremos da morbidez e da inadaptação social: o escapismo, a fantasia, o sonho... a morte. O Ultrarromantismo é referência para essa geração afligida pelo chamado “mal do século”.

CAMILO CASTELO BRANCO (1825 – 1890)

     A vida de Camilo parece o enredo folhetinesco de suas novelas passionais: vida de órfão em casa de parentes, casamento aos 16 anos com uma aldeã (Joaquina Pereira); estudos interrompidos de medicina; um rapto (Patrícia Emília); várias amantes, solteiras ou casadas, entre as quais uma freira (Isabel Cândida); crise religiosa e temporada de seminário, um duelo, prisão, processo, morte de filhos, loucura de um deles... Seu grande amor foi Ana Augusta Plácido, com quem passou a viver em Seide a partir de 1864. Apesar do reconhecimento público, o final de sua vida foi de grandes sofrimentos físicos e morais, acentuados pelas dificuldades financeiras. A cegueira progressiva levou-o ao suicídio.
     Camilo escreveu durante quarenta anos, ininterruptamente, uma das mais vastas obras individuais da literatura portuguesa. De todo o conjunto, o mais importante são os romances e novelas, entre as quais:
a)     Obras ultrarromânticas (romances passionais): Amor de perdição; Amor de salvação; Carlota Ângela; O romance de um homem rico; A doida do Candal etc.
b)     Obras satíricas: A queda dum anjo; Coração, cabeça e estômago; Eusébio Macário; A corja.
     Apesar de suas críticas ao Realismo, Camilo escreveu algumas novelas realistas: A brasileira de Prazins; Vulcões de lama; Novelas do Minho.
Amor de perdição é considerado o romance passional modelar do Ultrarromantismo. Camilo escreveu-o em apenas quinze dias, quando estava preso na cadeia da Relação do Porto devido ao complicado caso amoroso com Ana Plácido. Baseado num caso verídico – a vida de um tio que estivera preso na mesma cadeia -, o livro reflete o estado de espírito do autor e possui evidentes elementos autobiográficos.

Fragmento de Amor de perdição
Camilo Castelo Branco

     Tereza viu-o...,adivinhou-o, primeira de todas,e exclamou:
     - Simão!
     O filho do corregedor não se moveu.
     Baltasar, espavorido do encontro, fitando os olhos nele, duvidava ainda.
     -É crível que este infame aqui viesse! - exclamou o de castro Daire.
     Simão deu alguns passos, e disse placidamente:
     -Infame... eu! e por que?
     -Infame, e infame assassino! -replicou Baltasar. -Já fora da minha presença!
     -É parvo este homem! disse o acadêmico. - Eu não discuto com sua senhoria... Minha senhora - disse ele a Tereza coma voz comovida e o semblante alterado unicamente pelos afetos do coração. -Sofra com resignação, da qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a violência, e bem pode ser que a meio caminho do seu calvário a misericórdia divina lhe redobre as forças.
     -Que diz este patife?! -exclamou Tadeu.
     -Vem aqui insultá-lo, meu tio! - respondeu Baltasar. - Tem a petulância de se apresentar a sua filha a confortá-la na sua malvadez! Isto é demais! Olhe que eu esmago-o aqui, seu vilão.
     -Vilão é o desgraçado que me ameaça, sem ousar avançar para mim um passo- redarguiu o filho do corregedor.
     Eu não o tenho feito - exclamou enfurecido Baltasar - por entender que me avilto, castigando-o na presença de criados do meu tio, que tu podes supor meus defensores, canalha!
     -Se assim é - tornou Simão, sorrindo - espero nunca me encontrar de rosto com sua senhoria. Reputo-o tão cobarde, tão sem dignidade, que o hei de mandar azorragar pelo primeiro mariola das esquinas.
     Baltasar Coutinho lançou-se de ímpeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as damas chegaram a interpor-se entre os dois , Baltasar tinha o alto do crânio aberto por uma bala, que lhe entrara na fronte. Vacilou um segundo, e caiu desemparado aos pés de Tereza.
     Tadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteiros e criados rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola. Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara, correu da rua fronteira, e se colocou, de bacamarte aperrado, á beira de Simão. Estacaram os homens.
     -Fuja, que a égua está ao cabo da rua - disse o ferrador ao hóspede.
     -Não fujo... Salve-se, e depressa - respondeu Simão.

1 -  Com base no diálogo entre Simão e Baltasar, defina os sentimentos que os levaram às atitudes impulsivas de tão trágica consequência.

2 – Embora temesse o adversário, foi Baltasar quem tomou a iniciativa da agressão física. Explique sua atitude.

3 – Esta passagem é o ponto culminante da obra, pois é ela que determina o desenlace trágico do romance. Podemos dizer, no entanto, que o futuro de Simão não foi obra do destino e que sua morte não foi uma consequência inevitável de seu crime. Explique esta afirmação com base no texto lido.

4 “- Está perdido! – tornou João da Cruz.
   - Já o estava.”
     Comente a réplica de Simão a João da Cruz, levando em consideração o título do livro.

TERCEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA PORTUGUESA

     Na década de sessenta os exageros ultrarromânticos sobrevivem apenas em autores menores. Os melhores depuraram o romantismo, fugindo à pieguice e retornando a um lirismo simples e sincero. Mantendo ainda o subjetivismo romântico, os autores da terceira geração já são pré-realistas.

JOÃO DE DEUS (1830 – 1896)

     A extrema sensibilidade desse poeta retoma a tradição lírica portuguesa: o idealismo amoroso e a visão espiritualizada da mulher recobrindo um erotismo tenso e sublimado.
     Foi tomado como mestre por muitos realistas. Coube a Teófilo Braga, um dos líderes do Realismo, reunir e publicar a obra desse último poeta romântico, sob o título de Campo de flores, em 1893.

JÚLIO DINIS (pseudônimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho – 1839 – 1871)

     Apesar de uma vida tão curta (trinta e dois anos, interrompidos pela tuberculose), Júlio Dinis deixou uma obra considerável tanto pela extensão como por suas qualidades literárias.
     Sua ficção, contrastando com o pessimismo ultrarromântico, resulta de uma visão otimista da vida e do ser humano: para ele a natureza humana é essencialmente boa. Excetuando Uma família inglesa, que constitui um grande painel da vida burguesa da cidade do Porto, todos os seus romances ambientam-se no campo. No ambiente bucólico desenvolve-se o namoro, cheio de pequenas crises e desencontros, até o final feliz com o casamento. O pano de fundo é a vida simples, a felicidade doméstica, os costumes sadios da burguesia e do campesinato. Apesar de toda essa idealização, Júlio Dinis revela algumas características pré-realistas: a lentidão da narrativa, criando a atmosfera em que se desenvolve a ação; a aguda e detalhada observação dos ambientes e da realidade exterior; o delineamento dos tipos humanos.

 As pupilas do senhor reitor

     Este é o romance mais popular do autor, tendo sido adaptado em telenovelas. Júlio Dinis idealiza a vida de uma aldeia portuguesa, onde a felicidade se realiza na harmonia e na tranquilidade dos pequenos acontecimentos cotidianos.

Fragmento de As pupilas do senhor reitor
Júlio Dinis

     - Pois não vê que a única maneira, Margarida, é... Eu sei que sou indigno de aspirar a tanto, mas perdoe-me, a única maneira é não me recusar a reparação que lhe devo: permita-me que reuna ao seu o meu destino, já que a Providência...
     - Bravo! atalhou o Padre, batendo com a bengala no chão - Isso mesmo é que eu tinha aqui dentro a pesar-me; até que enfim respiro.
     Margarida estremeceu ao ouvir Daniel, e instintivamente levou as mãos ao coração como se fora ferida aí. Em poucos instantes, as faces, de ordinário pálidas, passaram-lhe por cambiantes rápidas de cor. Trêmula de ansiedade, sentiu vergarem-lhe os joelhos e enevoar-lhe a vista. Valeu-lhe o apoio de um móvel próximo para não cair. Por algum tempo tentou em vão responder; a voz não lhe saía da garganta.
     Daniel olhava-a ansioso. O padre esfregava as mãos exultando de júbilo.
     Afinal, vencendo esta violenta comoção, e assumindo outra vez a placidez habitual, respondeu com uma voz, onde sem dificuldade se podia descobrir ainda um indiscreto tremor:
    - Obrigada. É generoso o oferecimento... mas não posso aceitá-lo.
     - Que diz? exclamou Daniel.
     O padre passou do júbilo à estupefação.
     - Pois queria que aceitasse? Aceitá-lo-ia se estivesse no meu lugar? Diga? Qual será o maior martírio; sofrer as murmurações, as injúrias, os desprezos até, de milhares de pessoas, que afinal de contas, nos são indiferentes, ou aceitar a compaixão de quem nos é... de quem nos devia ser tudo no mundo? Daquele, a quem teremos de dar todos os afetos, todos os cuidados, todos os pensamentos. Imagina bem essa tortura?
     - Mas, Margarida, quem lhe disse que é por compaixão que eu lhe faço o oferecimento? Se o aceitar, creia que o agradecido serei eu.
     - Se essas palavras fossem sinceras, Senhor Daniel, era bem certo então que possuía um desgraçado caráter! Receie sempre de si, desses primeiros movimentos, a que obedece tão depressa. Já que é tão fácil em mudar, ao menos faça por ser mais forte contra si mesmo. Vença-se. Não está ainda vendo o mal que pode fazer assim?
     - Tem razão em duvidar de mim. O meu passado condena-me, porém talvez seja injusta demais para comigo. Julga-me capaz de...
     - Perdão; não julgo, não tenho o direito de julgar, bem sei. Em todo caso, não posso aceitar.
     - Margarida! - disseram-lhe a um tempo o padre e Daniel.
     - Não, não posso aceitar - repetiu Margarida, já com maior veemência. - Nunca me julgaria mais desonrada e perdida, do que quando aceitasse uma proposta como essa, feita por outro qualquer motivo, que não fosse a força do coração.
     - Mas se eu lhe juro que o meu coração...
     - Oh, não diga mais! - disse Margarida, interrompendo-o. - Até me faz mal ouvir-lhe esses juramentos; lembra-me os que ainda ontem fazia a Clara. Repare no que ia a dizer; assim abre o coração, a quem, momentos antes, nem conhecia sequer?
     - Não há tal; - disse o reitor - diz tu que, desde criança, já te conhece ele, e até...
     - Oh! por quem é - atalhou Margarida, que previu logo onde o reitor queria chegar. -Por quem é! O que ia dizer!
     - Margarida - continuou Daniel - perdoe, se a consciência das minhas culpas... e acredite que a estou sentindo bem amarga, mas perdoe-me, se ela me não constrange ainda ao silêncio. Eu vejo que tem razão para duvidar de mim; mas será só isso? Por que não me confessa também que recusa porque sentindo insensível o coração, desconfia dele igualmente?
     - Desconfiar do meu coração! - disse Margarida, com uma leve inflexão de ironia na voz, a qual os dois não perceberam, e continuou: - Mas... é que não desconfio.
     - Então?
     - Conheço-o; e o que sei dele, como o que aprendi do seu, Senhor Daniel, levam-me a recusar.
     - Quer dizer que me não pode amar?
     - Sim... julgo que sim. Eu desconfio que nem tenho coração! Eu sei lá! Não o sinto bater, pelo menos. Bem vê que não devo aceitar. Adeus.
     E com um singular sorriso nos lábios saiu da sala, onde ficaram os dois, atônitos e silenciosos.
     Quem, naquele momento, pousasse a mão no coração de Margarida, como veria desmentidas as suas últimas palavras!

1 – Daniel refere-se à necessidade de uma “reparação”; Margarida, a murmurações e a injúrias. Que acontecimento recente tornava Daniel culpado perante Margarida?

2 – Margarida recusou a proposta de Daniel. Por que, então, sentiu uma emoção tão violenta, que quase chegou a desmaiar?

3 – Por que Margarida recusou a proposta de Daniel?

4 – Como Margarida julga o caráter de Daniel?

5 – Apesar do julgamento de Margarida, sabemos que Daniel mudou e que é sincero. Qual a causa de seu amadurecimento e de sua redenção nos capítulos finais do romance?




sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A ESTÉTICA ROMÂNTICA


     O Romantismo definiu-se como escola literária na Europa a partir dos últimos vinte e cinco anos do século XVIII. O romance Werther, de Goethe, publicado na Alemanha em 1774, lança as bases definitivas do sentimentalismo romântico e do escapismo pelo suicídio. Na Inglaterra, o Romantismo se manifesta nos primeiros anos do século XIX, com destaque para a poesia ultrarromântica de lord Byron e para o romance histórico Ivanhoé, de Walter Scott.

CONTEXTO HISTÓRICO

     A Revolução Francesa dá destaque a uma nova personagem na cena europeia, o povo que pegou em armas e à força, transformou em realidade os ideais defendidos pelos filósofos iluministas.
     Após séculos de segregação, exploração e sofrimento nas mãos da monarquia, o homem comum tem sua liberdade e igualdade afirmadas e, mais importante, transforma-se em cidadão.
     A queda da monarquia, na França, abalou as monarquias absolutistas europeias e desencadeou uma série de transformações políticas em outros países.
     Na Inglaterra, onde a monarquia era mais estável, as mudanças aconteceram no terreno econômico. O país começou a acompanhar a passagem do modo de produção artesanal para a fabril. A máquina a vapor, os motores movidos a carvão e os teares mecânicos multiplicaram o rendimento do trabalho e aumentaram o ganho do burguês dono do capital.
     Com isso, alteram-se as relações sociais. De um lado, os empresários (capitalistas), detentores do capital, dos imóveis, das máquinas e dos bens produzidos pelo trabalho, e, de outro, o proletariado, que vende sua força de trabalho e produz mercadorias em troca de salários.
     A instalação de fábricas próximo aos centros urbanos atraiu um significativo número de camponeses, que abandonaram o campo em busca da promessa de prosperidade associada ao crescimento do comércio na zona urbana.
     A onda do progresso tecnológico se expande da Inglaterra para outros países da Europa e consolida as chamadas revoluções burguesas do século XVIII. A Independência dos Estados Unidos, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial determinam a queda do Antigo Regime e consolidaram o capitalismo como novo sistema econômico.  
 
O ROMANTISMO

     Até o século XVIII, a arte sempre esteve voltada para os nobres e seus valores. Quando o burguês conquista poder político, precisa criar as suas referências artísticas, definir padrões estéticos nos quais se reconheça e que o diferenciem da nobreza deposta. É nesse contexto que o movimento romântico surge, provocando verdadeira revolução na produção artística.
     Para romper com a postura racional da estética árcade, o movimento romântico interpreta a realidade pelo filtro da emoção. Combinada à originalidade e ao subjetivismo, a expressão das emoções definirá os princípios da nova produção artística.
     A estética romântica substitui a exaltação na nobreza pela valorização do indivíduo e de seu caráter. Em lugar de louvar a beleza clássica, o novo artista elogia o esforço individual, a sinceridade, o trabalho. Pouco a pouco, os valores burgueses vão sendo apresentados como modelos de comportamento social nas obras de arte que começam a ser produzidas.
     O filósofo que inspirou boa parte dos princípios românticos foi Jean-Jacques Rousseau. Quando ele afirma que deseja mostrar a seus semelhantes “um homem em toda a verdade de sua natureza”, ilumina o grande projeto literário a ser cumprido pelo Romantismo: criar uma identidade estética para o burguês. Assim, o Romantismo pode ser definido como uma arte da burguesia.
     O primeiro passo para alcançar esse objetivo é valorizar, na obra literária, o indivíduo e toda a sua complexidade emocional, abolindo o controle racional. Os textos literários traçarão o perfil de heróis que precisam agir, sofrer, superar obstáculos de toda natureza para se qualificarem como exemplares. Na sociedade capitalista que remunera o trabalho, sacrifício e esforço passam a valer mais que a nobreza que se recebe de herança.
     O contexto de produção modifica-se bastante durante o movimento romântico. O desaparecimento da figura do mecenas contribui para a profissionalização dos artistas. Os escritores românticos, pela primeira vez na história, escrevem para sobreviver. Procuram, então, conciliar dois objetivos: divulgar os valores da burguesia e ao mesmo tempo divertir os leitores.
     Nos séculos XVII e XVIII, o número de leitores era bastante limitado e muitas vezes os textos eram lidos somente pelos nobres e por outros escritores. Com a possibilidade de publicação em veículos de grande circulação, como jornais e revistas, o alcance da literatura se amplia bastante.
     O público que lê os textos românticos tem um perfil bem mais heterogêneo do que o público de séculos anteriores, que vivia nos salões da Corte e no ambiente restrito das academias e das arcádias.
     Os burgueses que leem jornais e folhetins não contam com a mesma formação dos nobres. Não conhecem os autores clássicos, têm dificuldade em decifrar as referências à mitologia greco-latina. Por isso, preferem uma linguagem mais direta, passional, que não se ligue necessariamente aos padrões da herança literária.

     CARACTERÍSTICAS

     O romântico considera a imaginação superior à razão e à beleza, porque ela não conhece limites. Por esse motivo, a originalidade substitui a imitação, que desde a Antiguidade clássica orientava o olhar do artista para o mundo, no processo de criação. Os novos artistas encontram na própria individualidade, traduzida pelas emoções que sentem, as referências para a interpretação da realidade.
     Ele escreve para uma sociedade que se formou sob a influência dos filósofos iluministas e que, por isso, valorizava os processos racionais e as posturas coletivas. É essa mentalidade que ele deseja mudar e contra a qual se manifesta. De certa forma, seu sentimento de desajustamento social é verdadeiro e nasce do confronto entre os valores que defende, centrados no subjetivismo e na emoção, e os que organizam a sociedade em que vive. O embate entre esses dois sistemas de valores ganha forma em um dos temas mais explorados pela literatura romântica: a fuga da realidade.
     Nesse contexto, a morte passa a ser vista como possibilidade de fuga do real e, por isso, é idealizada. Ela se manifesta como opção de alívio para os males do mundo ou para o encontro definitivo dos amantes, separados pelos obstáculos da realidade.
     Além da morte, o mundo dos sonhos torna-se também um espaço de fuga. Nele, o escritor projeta suas utopias (pessoais e sociais). O passado, apresentado de modo completamente idealizado, também desempenha a mesma função: acolhe o olhar subjetivo desse autor que se sente deslocado na sociedade em que vive.
     Os temas medievais ressurgem com força total. A Idade Média representa uma época em que a sociedade estava repleta de feitos heroicos, sentimentos nobres e harmonia. Recuperar o passado histórico significava, de certa forma, reconstruir os passos de um povo e reconhecer os símbolos de sua identidade, aquilo que o torna único e incomparável.
     A linguagem dos textos românticos é marcada pela liberdade formal. As fórmulas literárias, com rigorosos esquemas métricos e rimas, são abandonadas.
     Para expressar o arrebatamento que caracteriza o olhar romântico para a realidade, os escritores recorrem à adjetivação abundante. Outro recurso importante para traduzir os sentimentos é a pontuação. Nos poemas e romances românticos, o uso de exclamações, interrogações e reticências procura fazer com que o leitor reconheça as emoções, angústias e aflições que tomam conta de quem as expressa. Todas essas características apontam para a preocupação em traduzir a subjetividade, de modo a caracterizar o olhar específico de um autor para o mundo e assegurar que ele se manifeste de modo único, diferente de todos os outros escritores.

TENDÊNCIAS LITERÁRIAS E SEUS PRINCIPAIS TEMAS:

Nacionalismo, historicismo e medievalismo
     Exaltando os valores e os heróis nacionais, os autores ambientam suas obras no passado histórico, sobretudo no período medieval.

Valorização das fontes populares – o folclore
     Além da pesquisa e do trabalho de registro das narrativas orais e das canções populares, os autores buscam nessas fontes inspiração para suas próprias obras. Essa utilização literária de tradição popular também é uma das manifestações do nacionalismo romântico.

Confessionalismo
     As obras tornam-se, frequentemente, a expressão dos sentimentos pessoais do autor em dado momento de sua vida.

Pessimismo
     Nem sempre o Romantismo exprime atitudes positivas em relação à vida. O individualismo e o egocentrismo adquirem traços doentios de inadaptação. O spleen (melancolia) do poeta inglês lord Byron influenciou todas as produções. O tédio de viver, também chamado “mal do século”, conduz às diversas formas de escapismo:
- narrativas de aventuras ambientadas em lugares exóticos ou num passado misterioso;
- narrativas fantásticas, envolvendo o sobrenatural;
- culto da imaginação: o sonho, o delírio, os ambientes noturnos;
- a morte como última solução para o indivíduo.

Crítica social
     O Romantismo pode assumir também um caráter combativo de oposição e crítica social.

AS GERAÇÕES ROMÂNTICAS

     Todas essas características podem aparecer em qualquer momento no Romantismo. Há uma nítida evolução através de três gerações de autores, cada uma marcada pela predominância de certos temas.

Primeira geração
     Os primeiros autores românticos ainda conservam características clássicas. Os temas que marcam essa fase estão ligados ao nacionalismo:
Em Portugal – o romance histórico e o medievalismo;
No Brasil – o indianismo.

Segunda geração
     É o período Ultrarromântico. Caracteriza-se pelo exagero do subjetivismo e da emoção: o tédio, a melancolia, o sonho, o desejo da morte estão sempre presentes. Esse clima pessimista e o escapismo constituem o “mal do século” (Byron e Musset).

Terceira geração
     Essa última fase antecipa certas características da Escola Realista, que substituirá o Romantismo. O pessimismo e o escapismo cedem lugar a uma literatura de tom exaltado, engajada nos grandes debates sociais e políticos da época.