domingo, 14 de maio de 2017

REALISMO-NATURALISMO


 Momento histórico do Realismo

     Na segunda metade do século XIX, a Europa caracteriza-se pela consolidação do poder da burguesia, com suas bases ideológicas (o liberalismo político) e materiais (o liberalismo econômico).
     Esse processo se traduz na implantação acelerada do sistema capitalista, cujo avanço industrial já esboça a mecanização do mundo e da vida que caracteriza a sociedade moderna. Entre os fatores de modernização, destaca-se a crescente velocidade das comunicações que importantes descobertas garantem: máquinas a vapor, novas técnicas de impressão e o uso da eletricidade.
     Por outro lado, esse mesmo processo intensifica contradições e tensões político-sociais pois marginaliza a maior parte da população e, em especial, o proletariado urbano, que não tem acesso aos benefícios do progresso e que luta contra a opressão da ideologia burguesa dominante.
     A “Comuna de Paris”, de 1871 (tentativa da classe proletária de tomar o poder político), constitui o ponto culminante de uma série de movimentos e crises que se alastram por toda a Europa desde 1860 e colocam em xeque o modelo burguês-capitalista nela predominante.
     Nesse contexto, o grande desenvolvimento científico e filosófico, de cunho fortemente racionalista, em parte provocado pela utilização da ciência como suporte do crescimento econômico-industrial, dá origem a conhecida “Geração Materialista”.
     Com sua poderosa influência, uma sucessão de ”ismos” passa a explicar a realidade e o comportamento humano, dentro dos parâmetros das chamadas leis naturais, fundamentadas nas ciências biológicas, físico-químicas, e também nas ciências sociais, como a sociologia, que assume uma posição de liderança no cenário das ideias.
     O positivismo de Augusto Comte, o determinismo histórico e geográfico de Taine, o evolucionismo de Darwin, o socialismo utópico de Proudhon e o socialismo científico de Marx e Engels, a negação do Cristianismo e da atitude religiosa em geral de Renan, entre outras correntes científicas e filosóficas, constituem os principais alicerces do período. Acreditava-se sobretudo na racionalidade e no cientificismo como forma de ser e de ver a existência, numa perspectiva fundamentalmente materialista.
     Palavras como evolução, processo, progresso e suas variantes predominavam em todos os setores do conhecimento, que elegiam a dimensão da existência visível, material, mensurável, traduzível em fórmulas acabadas, como seu valor absoluto e inquestionável.
     Em consonância com essas ideias surge no cenário artístico-literário o Realismo-Naturalismo e o Parnasianismo.
     O surgimento de tais estilos de fundo realista já se havia anunciado na fase final do Romantismo. As “narrações de costumes” burgueses exemplificam a passagem do Romantismo ao Realismo.
     Em 1857, a publicação de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, obra que tematiza o adultério feminino e questiona os males do casamento visto como instituição burguesa, provoca uma sucessão que culmina com um processo judicial contra o autor.
Essa data oficializa o início do Realismo literário francês, enquanto o Naturalismo, que decorre do exagero, da exacerbação dos pressupostos realistas, é oficializado com a publicação, em 1880, de O romance experimental, de Émile Zola. Nesta obra o autor defende a aproximação entre o método do escritor e o método do cientista. Traz o rigor e a experimentação da ciência positivista e determinista para o campo da literatura.
      O Realismo surgiu na segunda metade desse século, como oposição ao Romantismo. Baseia-se nas ideias de racionalidade, objetividade e impassibilidade, propondo retratar fielmente a vida contemporânea (a sociedade burguesa e seus valores) para desnudá-la, criticá-la, transformá-la.
     Podemos considerar o Naturalismo como um estilo que consiste fundamentalmente no exagero, na exacerbação da tendência racionalista do Realismo, em sua proposta básica de compromisso com a “verdade” objetiva das mazelas que denuncia.
     Como o escritor realista, o escritor naturalista pretende dissecar o real. No entanto, sua postura ao fazê-lo é a de um pesquisador que não se limita a observar reflexivamente a realidade; ele quer explica-la de acordo com os padrões da ciência positivista e determinista da época.

Características

Realismo:
a)      Investigação da sociedade e dos caracteres individuais feita “de dentro para fora”, isto é, por meio de uma análise psicológica capaz de abranger toda a sua complexidade, utilizando entre outros recursos a ironia, que sugere e aponta, em vez de afirmar;
b)      Ênfase nas relações entre o homem e a sociedade burguesa, atacando suas instituições e seus fundamentos ideológicos: o casamento, o clero, a escravização do homem ao trabalho como meio de “vencer na vida”; as contradições entre ricos e pobres, vistas da ótica dos “vencidos” (os marginais, os operários, as prostitutas etc.) e não dos “vencedores”;
c)      O tratamento imparcial e objetivo dos temas garante ao leitor um espaço de interpretação, de elaboração de suas próprias conclusões a respeito das obras.

Naturalismo:
a)      Investigação da sociedade e dos caracteres individuais ocorre “de fora para dentro”; as personagens tendem a se simplificar, pois são vistas como joguetes dos fatores biológicos e sociais que determinam suas ações, pensamentos e sentimentos;
b)      Ênfase na descrição das coletividades, dos tipos humanos que encarnam os vícios, as taras, as patologias e anormalidades reveladoras do parentesco entre o homem e o animal; no homem descendo à contradição animalesca em sua situação de mero produto das circunstâncias externas, como a hereditariedade e o meio ambiente;
c)      O tratamento dos temas a partir de uma visão determinista conduz e direciona as conclusões do leitor e empobrece literariamente os textos.

     Embora possuam tais diferenças. O Realismo e o Naturalismo se identificam em sua postura antimonárquica, anticlerical, antiburguesa e antirromântica. As duas escolas estão racionalmente engajadas em “fazer a anatomia do caráter” da sociedade burguesa.

O primo Basílio
Fragmento I

     Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Luísa vestia-se para ir à casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse não havia de gostar não. Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã ainda tinha os arranjos a costura, a toalete, algum romance... Mas de tarde!
     À hora em que Jorge costumava voltar do ministério, a solidão parecia alargar-se em torno dela. Fazia-lhe tanta falta o seu toque de campainha, os seus passos no corredor!...
     Ao crepúsculo, ao ver cair o dia, entristecia-se sem razão, caía numa vaga sentimentalidade; sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas apaixonadas gemiam instintivamente no teclado, sob os seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços moles. O que pensava em tolices então!

Fragmento II


     Servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de anos mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifros, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer os desejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltava a saúde!... Era demais! Tinha agora dias em que só de ver balde das águas sujas e o ferro de engomar se lhe embrulhava o estômago. Nunca se acostumara a servir. [...]

     As antipatias que a cercavam faziam-na assanhada, como um círculo de espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhes enodoar a pele; e se lhe ralhavam, a sua cólera rompia em rajadas.
     Começou a ser despedida. Num só ano esteve em três casas. Saía com escândalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas pálidas, todas nervosas...
[...]
     A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hábito de odiar; odiou sobretudo as patroas, com um ódio irracional e pueril.

1 – Considera o seguinte fragmento de uma das famosas Conferências do Cassino Lisbonense, em que Eça de Queirós teoriza sobre o novo estilo, comparando-o com o Romantismo:
     “[...] o Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; - o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mal na nossa sociedade”.

a)      O narrador caracteriza Luísa como uma personagem romântica. Que traços da personagem, presentes no fragmento I, nos permitem associá-la com o Romantismo?
b)      Luísa é caracterizada por meio de uma ótica realista, na medida em que o narrador critica-lhe o romantismo, em vez de aderir a ele. Que frase do fragmento I comprova essa afirmação?

2 – Além da postura racional e objetiva, necessária para a “anatomia do caráter” pretendida pelos escritores realistas, este estilo, em sua vertente naturalista, vê o comportamento humano como consequência de certos fatores que o determinam.
a)      No caso de Luísa, que no romance é casada com Jorge e tem uma vida ociosa, de classe média abastada, a que fatores presentes no texto podemos atribuir os seus traços românticos?
b)      E no caso de Juliana, a segunda personagem caracterizada no fragmento 2? Qual é o fator determinante de sua revolta e seu ódio?

3 – Para realizar sua “anatomia do caráter”, o Realismo-Naturalismo utiliza a comparação entre o comportamento humano e o dos animais, inclusive para realçar “o que houver de mal na sociedade” burguesa, cujas contradições critica implacavelmente.
a)      Transcreva o trecho do fragmento 2 que exemplifica essa característica:
b)      Mencione a contradição da sociedade burguesa a que o exemplo se refere.

O Realismo e o Naturalismo em Portugal

     A partir de 1865 Portugal vive um período de recuperação e expansão, com sua ideologia liberal, centrada na ideia de progresso. As instituições parlamentares funcionam regularmente e a comunicação com o exterior é intensa, em termos técnicos, econômicos e culturais. O país havia superado em grande parte o processo de substituição de sua cultura clérico-aristocrática por uma cultura laica, burguesa e dirigida a um público então massivamente alfabetizado.
     Essa expansão que havia se baseado na comercialização de riquezas já existentes ou advindas da produção agrícola, tem seu fluxo interrompido devido à fragilidade do processo de industrialização no país.
     Com uma produção industrial quase inexistente, em desequilíbrio com a produção agrícola, a partir de 1891 assiste-se à estagnação do país, do ponto de vista tecnológico, econômico e mesmo social. Tal atraso contrastava com a presença do estilo e do modelo europeus na política, nas instituições e nas ideias, conforme se davam conta certos setores mais avançados da sociedade, dentre os quais se destaca a juventude acadêmica de Coimbra, de cujos quadros surge a chamada “Geração de 70”, que deu origem ao Realismo português.
     A Questão Coimbrã, em 1865, e as Conferências do Cassino Lisbonense em 1871, são os principais eventos que desencadearam o Realismo-Naturalismo em Portugal.
     A Questão Coimbrã foi uma polêmica que se estabeleceu entre os românticos, defensores da produção literária romântica, e os jovens revolucionários de Coimbra, dentre os quais se destacam Antero de Quental, Teófilo Braga e Eça de Queirós.
     Antônio Feliciano de Castilho, em posfácio ao livro de poesia romântica Poemas da mocidade, de Pinheiros Chagas, critica os moços de Coimbra, afirmando faltarem-lhes “bom senso e bom gosto”. Antero de Quental responde à crítica num folhetim que intitula “Bom Senso e Bom Gosto”, colocando os pressupostos estéticos do Realismo e sua missão de “reformar a sociedade portuguesa”.
     A partir daí, desenvolve-se a polêmica, da qual saem vitoriosos os jovens realistas, que a partir de 1868 se reúnem em Lisboa, criando um espaço de debates que ficou conhecido como “Cenáculo”.
     Em 1871, consolidam o grande projeto literário, filosófico e político proposto por sua geração com as Conferências do Cassino Lisbonense, que tematizam o Realismo-Naturalismo, impregnado das ideias revolucionárias de Proudhon, Taine, Comte, Hegel, Darwin etc.
     Realizadas num momento histórico-social dos mais tensos (anos da Comuna de Paris e ano em que a Associação Internacional dos Trabalhadores aprofunda sua presença em Portugal), as Conferências foram consideradas subversivas, sofrendo ataques de jornais conservadores e sendo encerradas devido à intervenção do ministro do reino, Antônio José de Ávila.
     O Realismo-Naturalismo português, deflagrado e amadurecido por meio desses eventos, inicia-se oficialmente no país apenas em 1875, ano da publicação de O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós. Em 1890, quando é publicado Oaristos, livro de poemas simbolistas de Eugênio de Castro, o movimento se encerra e dá espaço à nova tendência estética – o Simbolismo – que se mantém até o surgimento do Modernismo, em 1915.

A poesia realista

     A poesia realista foi entendida como arma de combate e de ação, como forma de realização do compromisso do poeta de engajar-se na luta social de seu tempo, de colocar sua obra a serviço da causa comum: a reforma da mentalidade portuguesa, atrasada e provinciana em relação às ideias que fervilhavam na Europa e cujo ritmo o país precisava acompanhar.
     Antero de Quental, Teófilo Braga, Gomes Leal e Guerra Junqueiro constituem as vozes mais representativas dessa vertente poética.
     Além da poesia realista, há outras experiências poéticas pós e antirromânticas desenvolvidas no período: a poesia metafísica, de Antero de Quental; a “poesia simbolista”, de Gomes Leal; a “poesia do cotidiano”, de Cesário Verde, são as mais significativas.

Antero Tarquínio de Quental (1842 – 1891)

     Nasceu nos Açores. Estudou Direito em Coimbra, onde cedo se tornou o líder dos estudantes que constituiriam a chamada “Geração Materialista”, que implantou o Realismo em Portugal.
     Em 1865, com Teófilo Braga e outros escritores, deflagrou a Questão Coimbrã e publicou Odes modernas. Em seguida viajou para Paris, a fim de trabalhar como tipógrafo, pondo em prática as ideias socialistas. Desiludiu-se com o projeto. Após estada em Nova Iorque, voltou a Lisboa, tornando-se figura central do grupo “O Cenáculo” e posteriormente das Conferências do Cassino Lisbonense.
     Sempre inquieto, inconformista, Antero ligou-se a membros avançados do Movimento Proletário Internacional e procurou incansavelmente instaurar o pensamento socialista em seu país, decepcionando-se, entretanto, a cada tentativa. A última foi em 1890, quando filiou-se à Liga Patriótica do Norte, na ocasião do ”Ultimatum inglês”.
     Com mais esse malogro, e já doente, entregou-se a um pessimismo doentio que o levou ao suicídio em 1891, com dois tiros na boca.
     Manifesta em sua obra a angústia de uma vida torturada, dividida entre posturas opostas. De um lado, a combatividade, o ativismo político, o compromisso revolucionário de transformar a sociedade. De outro, a educação tradicionalista, a formação religiosa, a tendência à contemplação, à especulação metafísica.
     Segundo os críticos, desse combate interior de Antero entre a emoção lírica, a verdade umbilical do sentimento e da religiosidade, que ele negava compulsivamente, e o pensamento materialista, o ceticismo filosófico, a obsessão reflexiva proveniente das verdades adquiridas é responsável por um drama humano e por uma riqueza artística sem paralelo nas letras portuguesas.
     A obra de Antero de Quental pode ser dividida em duas fases. A 1ª, que podemos chamar de romântico-realista, compõe-se de um Romantismo social libertário que evolui para um Realismo engajado, militante, compromissado com reforma social.
     Na 2ª fase, o caráter panfletário e entusiasmado da 1ª dá lugar a outros elementos, que colocarão as contradições existenciais do poeta em primeiro plano: a interiorização, a introspecção, a solidão dilacerada, a exteriorização de inquietações que o compromisso materialista e racionalista abafara.

Mais luz!
Antero de Quental

Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis,
À borda dos abismos silenciosos...

Tu, Lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro Sol, amigo dos heróis!

1 – Que expressões presentes na 1ª estrofe evocam os poetas românticos?
2 – Por que os adjetivos “mudos e impassíveis”, utilizados para evocar os poetas românticos do spleen, podem ser considerados depreciativos perante a concepção da literatura como meio de transformação da sociedade, que caracteriza o Realismo?
3 – Na 2ª estrofe, que pedido o sujeito lírico faz à Lua, musa inspiradora do Romantismo?
4 – Na segunda parte do soneto, que se compõe dos tercetos, predomina a defesa explícita de valores que denominaremos diurnos. Transcreva o verso dessa parte que faz a apologia desses valores.
5 – As duas imagens presentes no poema – a Lua e o Sol – constituem metáforas das posturas romântica e realista, que denominamos noturna e diurna. Em sua opinião, que traços fundamentais de ambos os estilos podemos identificar com as imagens da Lua e do Sol, da noite e do dia?
6 – Considerando que o soneto defende as ideias realistas em detrimento das românticas, interprete o título “Mais luz!”

Soneto 1

Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espetáculo divino.

Mas o homem, na Terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante...
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá na Terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
´té que a revolta o remoinhar da luta,
´té que a fecunde o sangue dos heróis!

Soneto 2

Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;

É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.
O que há-de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida;
Se procura, só acha... o destino?

Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a Terra degredo, o Céu destino.

1 – No soneto , da 1ª fase de Antero, o primeiro quarteto se refere ao Céu, e o segundo à Terra. Releia-os e responda:
a)      O verso que indica o distanciamento e a dúvida do sujeito lírico quanto à existência de Deus:
b)      O verso que se refere à liberdade de escolha do homem, quanto às suas ações na Terra:
2 – Depois de reler os tercetos do soneto 1, explique:
a)      No primeiro terceto, o sujeito lírico vê a Ideia como uma força que se encarna no peito humano para fazê-lo pulsar. Há uma metáfora e uma comparação presentes no terceto que comprovam essa afirmação. Identifique-as e em seguida responda: por que se trata de uma visão romântica a respeito da Ideia?
b)      No segundo terceto, o sujeito lírico defende para o homem, inspirado na força da Ideia, um destino de luta, de combate. Como esse destino se relaciona com o projeto de poesia realista?
3 – No primeiro quarteto do soneto 2 defrontamo-nos com a perda de certeza do sujeito lírico em relação à soberania da Ideia. Cite duas expressões desse quarteto que comprovam tal afirmação e aponte a imagem nelas presente que se opõe à comparação da Ideia com o Sol, do soneto 1.
4 – Em que sentido o segundo quarteto do soneto 2 aproxima-se da fase realista de Antero, na qual há a idealização do pensamento, da racionalidade?
5 – Quais os significados da Terra e do Céu, do Homem e de Deus, nos sonetos 1 e 2?

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850 – 1923)

     Guerra Junqueiro viveu dividido internamente entre o sentimento, exaltadamente romântico e religioso, e o pensamento revolucionário. Daí ter evoluído de suas obras panfletárias como A morte de D. João, A musa em férias e A velhice do Padre Eterno – em que escreve versos próximos do discurso e da polêmica, condenando a fraqueza moral da Pátria e toda a sorte de hipocrisias e corrupções do clero – para uma fase de elogio dos simples, dos humildes, dos camponeses, vistos como puros, contemplativos, sonhadores, de acordo com uma perspectiva cristã.

Falam condenados
Guerra Junqueiro

Faminto, nu, sem mãe, sem leito,
Roubei um pão.
Quem vai além da farda e de grã-cruz no peito?
- Um ladrão!
Todos os crimes da Desgraça
Em mim reúno.
Quem vai além tirado a parelhas de raça?
- Um gatuno

Pela miséria crapulosa,
Eu fui traído.
Que esplêndido palácio em festa! Quem o goza?
- Um bandido!

Viola, seduz, furta, assassina,
Que prostituta está cantando àquela esquina?
- A lei!

1 – Nesse poema de Guerra Junqueiro percebe-se o tom panfletário e declamatório, que predomina em sua fase poética realista. Qual é o tema do poema?

Antônio Duarte Gomes Leal (1848 – 1921)

     Gomes Leal foi um poeta que oscilou entre a loucura e a genialidade. Do conjunto de sua obra, de grande sensibilidade simbolista e surpreendente riqueza na produção de imagens poéticas, dois títulos podem ser destacados: Claridades do Sul e O Anticristo, este último manifestando a adesão do autor ao Realismo, do qual acaba no entanto se afastando por causa do excessivo rigor racionalista desse estilo.

José Joaquim Cesário Verde (1855 – 1886)

     Foi um criador solitário, que não se interessou pela função política da poesia. Na verdade, descobriu uma vertente poética anunciadora do Modernismo. Trata-se de uma poesia “antipoética”, de um lirismo “antilírico”, da “despoetização” do ato poético.
     A poesia de Cesário Verde funde objetividade e subjetividade.

Fragmento de “O sentimento dum ocidental”
Cesário Verde

I
Ave-Marias

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
  
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina
  
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países;
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

 Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga os mestres carpinteiros.

 Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

1 – No 1º quarteto, que paisagem deflagra o “desejo absurdo de sofrer” a que se refere o sujeito lírico?
2 – Em sua opinião, por que ele considera absurdo esse desejo?
3 - A segunda estrofe intensifica certa negatividade presente na paisagem enfocada no poema. De que aspectos, particularmente, ela trata e por que podemos considerá-los negativos?
4 – Na terceira estrofe, percebemos que o sujeito lírico tem momentaneamente sua tristeza aplacada. O que desperta o entusiasmo do sujeito lírico?
5 – Identifique duas figuras de linguagem presentes na quarta estrofe.
6 – Qual das imagens identificadas na questão anterior parece “antipoética”, segundo as convenções literárias tradicionais? Por quê?
7 – Embrenhando-se pelos becos, errando pelo cais, o sujeito lírico novamente parece entusiasmar-se, embora esse entusiasmo não lhe diminua a tristeza, a melancolia.
a)      O que de novo provoca o entusiasmo do sujeito lírico?
b)      Copie o verso da última estrofe em que o sujeito lírico demonstra ter consciência de ser ilusório o entusiasmo que o distancia do tédio cotidiano.

A prosa do Realismo-Naturalismo português

     A prosa da Geração de 70 ocupou-se fundamentalmente com a reforma da sociedade portuguesa. Para realizar a emocionada proposta de reforma social, os escritores adeptos do Realismo-Naturalismo transformavam a literatura em “espelho” que devia refletir as contradições sociais, retratando-as por meio da análise e da crítica de suas principais instituições.
     Assim, o casamento e o adultério tornam-se temas preferenciais de romances. Associar à figura feminina uma fragilidade decorrente da própria natureza e das condições ambientais revela alguns elementos típicos do determinismo naturalista: a “fraqueza” humana, particularmente da “fêmea”, perante os instintos, a submissão à tirania da carne, que animaliza as personagens, empobrecendo-as enquanto seres humanos.
     Além da família em decomposição, outros pilares da ordem social então vigente, tais como o clero e a aristocracia, são escolhidos como alvos e dissecados em seus vícios e hipocrisias.
     Os escritores realistas tinham grande rigor quanto à arquitetura de suas obras. Muitas delas apresentavam uma precisão de montagem quase matemática, uma vez que funcionam como demonstrações de “teses” antimonárquicas, antiburguesas e anticlericais. O mais importante representante da prosa realista-naturalista em Portugal é Eça de Queirós.

José Maria de Eça de Queirós (1845 – 1900)

     Considerado um dos maiores prosadores em língua portuguesa, é o criador de uma vasta obra que pode ser dividida em três fases.
     À primeira pertencem O mistério da estrada de Sintra, As farpas e Prosas bárbaras.
     A partir de O crime do padre Amaro, inicia-se sua segunda fase, que conta com O primo Basílio e Os maias, os três “romances de tese” do escritor, isto é, romances que se propõem a realizar um “inquérito da vida portuguesa”, combatendo três de suas principais instituições – a Igreja, a burguesia e a monarquia.
     A terceira fase abrange romances como A ilustre casa de Ramires, A cidade e as serras e A correspondência de Fradique Mendes. Aqui, a crítica cáustica do Realismo-Naturalismo deixa espaço para a meditação filosófica e esperançosa em valores humanos e espirituais. É nessa fase que alcança a plena maturidade artística, coma superação do esquematismo cientificista e da ironia.

Fragmento de O crime do padre Amaro
Eça de Queirós

     Ela concordou logo - como em tudo que saía dos seus lábios. Desde a primeira manhã, na casa do tio Esguelhas, ela abandonara-se-lhe absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento: não havia na sua pele um cabelinho, não corria no seu cérebro uma ideia a mais pequenina, que não pertencesse ao senhor pároco. Aquela possessão de todo o seu ser não a invadira gradualmente; fora completa, no momento que os seus fortes braços se tinham fechado sobre ela. Parecia que os beijos dele lhe tinham sorvido, esgotado a alma: agora era como uma dependência inerte da sua pessoa. E não lho ocultava; gozava em se humilhar, oferecer-se sempre, sentir-se toda dele, toda escrava; queria que ele pensasse por ela e vivesse por ela; descarregara-se nele, com satisfação, daquele fardo da responsabilidade que sempre lhe pesara na vida; os seus juízos agora vinham-lhe formados do cérebro do pároco, tão naturalmente como se saísse do coração dele o sangue que lhe corria nas veias. "O senhor pároco queria ou o senhor pároco dizia" era para ela uma razão toda suficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos nele, numa obediência animal: tinha só a curvar- se quando ele falava, e quando vinha o momento a desapertar o vestido.
     Amaro gozava prodigiosamente esta dominação; ela desforrava-o de todo um passado de dependências - a casa do tio, o seminário, a sala branca do Sr. conde de Ribamar... A sua existência de padre era uma curvatura humilde que lhe fatigava a alma; vivia da obediência ao senhor bispo, à câmara eclesiástica, aos cânones, à Regra que nem lhe permitia ter uma vontade própria nas suas relações com o sacristão. E agora, enfim, tinha ali aos seus pés aquele corpo, aquela alma, aquele ser vivo sobre quem reinava com despotismo. Se passava os seus dias, por profissão, louvando, adorando e incensando Deus, - era ele também agora o Deus duma criatura que o temia e lhe dava uma devoção pontual. Para ela ao menos, era belo, superior aos condes e aos duques, tão digno da mitra como os mais sábios.

1 – No fragmento de O crime do padre Amaro, que traços do comportamento de Amélia podem ser relacionados com o Naturalismo? Por quê?
2 – Quanto ao padre Amaro, o protagonista do romance:
a)      Utilizando-se de elementos do fragmento, escreva sobre a função de Amélia na sua vida, como homem e como religioso.
b)      Que tese Eça de Queirós pretende defender por meio da personagem do padre, em sua opinião?



Interpretação

Zé Peixe

Ele passou a vida dentro d’água, buscando navios a nado. Conheça a incrível história desse velho do mar


Do alto do barco, dá para ouvir a imensidade de mar chamando. Uma voz macia, sussurrada. Ele apruma os pés na beirada, estende os braços para trás, estufa o peito e salta num vôo ligeiro. A água suaviza a queda, envolve-o com um abraço de boas-vindas. Está em casa. Logo os botos vêm chegando, como de costume, para fazer companhia na travessia.

Esta é a história de um peixe chamado José. Há mais de seis décadas ele passa a maior parte do tempo na água. Nada quase diariamente cerca de 10 quilômetros, está habituado a saltar de navios de mais de 40 metros de altura e é capaz de façanhas homéricas no mar – mesmo com seus 80 anos. Zé Peixe, como é conhecido em Aracaju, é reverenciado por marinheiros dos sete cantos por sua humildade, bravura e profundo conhecimento das coisas do mar.

Uma lenda viva.

E, como toda lenda, tem suas particularidades. Desde que começou a trabalhar no porto de Aracaju, Zé Peixe nunca mais tomou um bom banho de chuveiro. Para quê, se está sempre na água? Também quase não bebe água doce. Gosta mesmo é de dar uns golinhos de água salgada nos trajetos que nada. “Faz um bem danado à saúde”, diz ele.

Conhece como ninguém os segredos da Boca da Barra, onde o rio Sergipe se abre para o mar e bancos de areia se formam de uma hora para outra, colocando em risco as embarcações. Sabe a profundidade das águas pela cor e as correntezas pela variação de temperatura e direção do vento.

Zé Peixe é o prático mais conhecido do planeta. Prático é o sujeito que ajuda os comandantes a conduzir os barcos na entrada e saída do porto, orientando-os a manobrar com segurança. Sua presença é obrigatória em qualquer cais do mundo no momento de atracagem e saída dos navios. O que faz de Zé Peixe uma espécie rara é a maneira como trabalha: ele vai buscar o navio a nado, enquanto seus colegas recorrem a um barco de apoio. E, quando tira o navio do porto, em vez de voltar de barco ele zapt!, salta no mar. Faz assim: enrola a camisa, coloca junto com os documentos e os trocados em um saco plástico e amarra firme no calção; mergulha e volta para casa com braçadas elegantes, ritmadas, sem movimentar as pernas para não atiçar os tubarões. “Se for uma distância mais ou menos, o importante é não se afobar. O jeito é não brigar com as ondas nem ir contra a correnteza”, ele fala, sempre gesticulando suas nadadeiras.

Quando Zé Peixe chega ao porto é uma alegria só. Ele curva seu corpo para cumprimentar funcionários, marujos e capitães, como se os estivesse reverenciando. “Não existe ninguém como ele”, diz um. “Uma figura lendária de Aracaju”, afirma outro. “Peixinho é um ídolo”, conta outro homem do mar.

É certo que o porto de Aracaju não é lá muito movimentado. Mas, por causa de Zé Peixe, ganhou fama internacional, espalhada por navegantes de fora que lá atracaram. “Os gringos me chamam de Joe Fish”, diz. Certa vez, um capitão russo de um cargueiro chegou a pedir que o detivessem quando estava para se lançar ao mar – achou que ele estava se suicidando.

Zé é peixe miudinho. Tem apenas 1,60 metro de altura e 53 quilos. Mesmo franzino, já realizou muitas grandezas. A maior proeza foi quando socorreu o navio Mercury, que ardia em chamas em alto-mar, vindo das plataformas da Petrobrás e com funcionários a bordo. Zé pegou carona num rebocador, ligeiro chegou ao navio e conduziu a embarcação até um ponto onde todos pudessem saltar e nadar para terra firme. “Eu só fiz o que tinha de fazer, compreende?” Ele não gosta de falar muito de si mesmo. “Por causa de sua condição física exemplar, ele conseguiu salvar inúmeras vidas”, conta Brabo, o chefe dos práticos, que há 26 anos convive com Peixinho. Em 1941, ele e toda a população de Aracaju viram na praia os corpos de náufragos de três navios bombardeados por embarcações alemãs na Segunda Guerra Mundial. A partir daí, ninguém nunca mais se afogou perto dele.

Maré cheia

Desde menino novo, Zé dá suas pernadas no rio Sergipe. Os pais, dona Vectúria e seu Nicanor, que ensinaram. De sua casa, era só cruzar a rua de terra para dar no rio. Em tempo de maré cheia, a água vinha bater na porta. Moleque arretado, José Martins Ribeiro Nunes aprendeu a atravessar o rio para chupar caju na outra margem do rio. Aos 12 anos já nadava muito bem. Sua casa era vizinha à Capitania dos Portos e logo foi reparado pelos marinheiros. De observar a destreza do menino, um almirante o batizou novamente – virou Zé Peixe. Quando chegou o tempo certo, com 17 anos, formou-se prático. Dos cinco irmãos, Rita era a única que acompanhava as peripécias a nado. Naquela época, meninas não se banhavam no rio nem podiam sair andando com trajes de banho – só ela, no meio da molecada. Zé lhe ensinou tudo sobre o mar. “Ensinou também meus filhos e netos. Ele amarrava nos braços bóias de coco seco, que não afunda”, diz Rita, uma década mais nova, que de tanto nadar com o irmão levou o sobrenome Peixe.

Zé nunca saiu da casa onde nasceu, umas das mais antigas de Aracaju. Nem mesmo quando se casou, há mais de 40 anos (está viúvo há 20 e não teve filhos). Ajeitou uma casa para a mulher, mas não arredou o pé de lá – sempre estava cuidando de alguém da família, ora a mãe, ora um irmão enfermo. “Vou morrer aqui”, diz. “Mas só quando o capitão lá de cima desejar.”

Hoje uma avenida asfaltada o separa do rio. Quando não está no porto, Zé vai até lá para cuidar de seus três barquinhos de madeira ancorados. “Se não tiver um barquinho pra brincar fico doidim.” O casebre por fora é pintado de branco, mas dentro é todo azul. Está entulhado de cacarecos que juntou pela vida, entre eles títulos e medalhas. Não joga nada fora e não gosta que arrumem sua bagunça. Tudo remete ao mar: miniaturas de barcos espalhados pelos cômodos e desenhos de lápis de cor grudados nas paredes. E muitas imagens de santos católicos. Quem chega da família já vai pedindo a bênção. E tem também quem chega para pedir uns trocados. É que Zé costuma distribuir seu salário aos pedintes. Velhos pescadores que não podem mais trabalhar, desempregados e inválidos conhecem de perto sua bondade.

Espécie rara

Mesmo aposentado há mais de 20 anos, Zé Peixe continua trabalhando – por gosto. Acorda cedo, com o escuro. Não tem hora certa para trabalhar. Depende do fluxo de navios no porto. E das marés. Acostumou seu corpo a comer pouquinho, porque barriga cheia não se dá com o mar. Dá gastura. De manhã, basta um pão com café preto. E, depois, só fruta. Quando passa o dia inteiro no porto, faz jejum. O doutor já confirmou: Zé tem coração de menino. Nunca fumou nem bebeu. Seu vício mesmo é o mar.

Se não está a pé, está com sua bicicleta. Sempre descalço. Só usa sapatos aos domingos, para entrar na missa, ou em ocasiões especiais. “Teve uma época que, para não fazer feio, o danado andava com um sapato. Um dia descobri que o sapato não tinha sola”, confessa o amigo Zé Galera. “Ele é o único que tem autorização para andar maltrapilho no terminal marítimo, sempre de bermuda acima da cintura e pés no chão. Por ser uma raridade, um cidadão totalmente fora do padrão, ele virou uma exceção às regras”, conclui Galera, que aprendeu a nadar com ele aos 6 anos e hoje é seu companheiro na praticagem.

“Ele é meu herói”, diz o deputado Fernando Gabeira. Quando estava exilado na Alemanha, o deputado viu uma reportagem sobre Zé Peixe. A história do bravo nadador chamou sua atenção. Quando retornou ao Brasil, foi conhecer de perto o tal sergipano. “É uma figura extraordinária. Tentei fazer um filme sobre a vida dele, mas ele não quis”, conta.

Zé viveu numa época em que não havia carro nem televisão. Viu o manguezal sendo aterrado e os navios minguando com o impulso rodoviário da década de 50. Enquanto Aracaju é tomada por edifícios e shopping centers que vão transformando os horizontes da cidade, Zé Peixe ainda ensina aos sobrinhos e aos filhos destes os mistérios do rio e do mar. Dizem que o mar não estará para peixe em algumas décadas. Enquanto isso não acontecer, Zé Peixe continuará nadando por lá. E como sempre, ao emergir do mar, fará um pequeno sinal na testa, agradecendo por mais um dia na água.

por Marcia Bindo
Vida Simples - Abril de 1997

1 – Leia o lide. Em sua opinião, a história de Zé Peixe é mesmo incrível? Por quê?
2 – Releia os dois primeiros parágrafos e observe como eles formam uma introdução ao perfil biográfico.
a)      Localize no primeiro parágrafo duas expressões que se aproximam da linguagem da poesia. Copie-as e explique o efeito de sentido que produzem no leitor.
b)      Localize no segundo parágrafo as informações principais sobre Zé Peixe e responda: o que justifica a escolha dessa pessoa para construir matéria de um perfil biográfico?
3 – Releia: “E, como toda lenda, tem suas particularidades”. Quais são as particularidades de Zé Peixe?
4 – O que diferencia Zé Peixe dos outros práticos?
5 – Faça um pequeno resumo da trajetória biográfica de Zé Peixe, enumerando os fatos e ordem cronológica.
6 – Leia o texto.
a)      Quantos depoimentos há no texto?
b)      O que eles informam sobre Zé Peixe?
7 – Há também no perfil biográfico o depoimento de uma celebridade.
a)      Quem é? Escreva o que você sabe sobre ela.
b)      O que ela diz sobre Zé Peixe?
8 – No perfil, há uma grande quantidade de detalhes que revelam a personalidade de Zé Peixe. Faça uma lista para cada item abaixo:
a)      Detalhes físicos;
b)      Detalhes psicológicos;
c)       Detalhes do ambiente em que vive e dos seus objetos.
9 – Localize no texto os momentos em que quem fala é o próprio Zé Peixe.
a)      Copie essas falas no caderno.
b)      Que impressão elas causam no leitor?



sábado, 22 de abril de 2017

A poesia romântica brasileira

PRIMEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA

     Domingos José Gonçalves de Magalhães e Manuel Araújo de Porto Alegre, formados no período clássico, não conseguiram realizar o maior ideal do Romantismo – a liberdade expressiva. Apesar disso, foram responsáveis por um “programa” de renovação da literatura nos termos da proposta nacionalista.
    O nacionalismo é o traço que caracteriza a literatura que essa primeira geração romântica realiza, sobretudo com o indianismo e a descrição da natureza.
     Apenas da década de 40 surgiria o primeiro grande poeta do nosso Romantismo: Antônio Gonçalves Dias.

ANTÔNIO GONÇALVES DIAS  (1823 – 1864)

     Primeiro grande poeta de nosso Romantismo, não foi superado pelas gerações seguintes. Seu primeiro livro (Primeiros cantos, 1846) eleva a um nível superior as propostas temáticas do grupo de Magalhães: o nacionalismo, o indianismo, a cor local. O poeta é lembrado sobretudo como indianista, mas sua lírica amorosa não é menos importante. Apresenta poemas que estão entre as mais belas realizações do Romantismo em língua portuguesa.
     O indianismo de Gonçalves Dias tanto possui as características básicas dessa tendência literária como redimensiona a imagem do índio. O índio é imaginado a partir do ideal cavalheiresco do Romantismo medievalista europeu. Espírito nobre, seus valores são sobretudo a honra, a honestidade, a franqueza, a lealdade. Às forças morais da coragem e do senso do dever alia-se uma força física imbatível, oriunda da perfeita harmonia entre o homem e a natureza. Enfim, um homem perfeito e essencialmente puro – o “bom selvagem” de Rousseau, adaptado ao paraíso terrestre da exuberante natureza tropical.
     Os mais importantes poemas são: “O canto do Piaga”, “I – Juca Pirama”, “Marabá”, “Leito de folhas verdes” e “Canção do tamoio”.

I – Juca Pirama        Gonçalves Dias

VIII

"Tu choraste em presença da morte?
 Na presença de estranhos choraste?
 Não descende o cobarde do forte;
 Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
 De uma tribo de nobres guerreiros,
 Implorando cruéis forasteiros,
 Seres presa de via Aimorés.

 "Possas tu, isolado na terra,
 Sem arrimo e sem pátria vagando,
 Rejeitado da morte na guerra,
 Rejeitado dos homens na paz,
 Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
 Tenham alma inconstante e falaz!

 "Não encontres doçura no dia,
 Nem as cores da aurora te ameiguem,
 E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
 Não encontres um tronco, uma pedra,
 Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
 Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.

"Que a teus passos a relva se torre;
 Murchem prados, a flor desfaleça,
 E o regato que límpido corre,
 Mais te acenda o vesano furor;
 Suas águas depressa se tornem,
 Ao contato dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
 Donde fujas com asco e terror!

 "Sempre o céu, como um teto incendido,
 Creste e punja teus membros malditos
 E oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
 Manitôs lhe não falem nos sonhos,
 E do horror os espectros medonhos
 Traga sempre o cobarde após si.

 "Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
 Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e flecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."

1 – O indianismo atribuía a seus heróis os mesmos valores dos cavaleiros medievais. Qual das virtudes cavalheirescas faltava ao jovem tupi, segundo o entendimento de seu pai? Explique.

2 – Qual foi o argumento do velho tupi para renegar sua paternidade?

3 – O velho pai condenou o filho à mais absoluta solidão. Quais seres e entidades deveriam rejeitá-lo, para que se cumprisse as terríveis maldições?

Canção do exílio           Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

1 – Qual das estrofes da canção é lembrada no Hino Nacional Brasileiro por uma citação parcial?

2 – A distância e a saudade provocam a distorção da imagem da terra natal, cuja natureza é minuciosamente comparada com a da terra do exílio.

a)      A oposição e a distância são marcadas por dois advérbios, insistentemente repetidos ao longo do poema. Quais são eles e o que cada um representa?

b)      Entre os diversos elementos da natureza, dois se destacam e se tornam símbolos da pátria distante. Quais são eles?

3 -  Os críticos literários atribuem a extraordinária beleza da canção à simplicidade dos recursos expressivos utilizados. Analisemos alguns deles:

a)      Métrica: versos redondilhos, que dão ao poema um ritmo bem marcado e de gosto popular. Faça a escansão dos dois primeiros versos.

b)      Rimas: alternância de versos rimados com versos brancos. Quais são as três palavras que se repetem em posição de rima, ao longo de quase todo o poema?

c)       Paralelismo: um terço da canção compõe-se de versos repetidos. Dois desses versos funcionam como refrão. Quais são eles?

SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA

     A segunda geração dos poetas românticos brasileiros é acometida pela mesma crise existencial da geração ultrarromântica portuguesa. Um emocionalismo excessivo e derramado, o tédio, a melancolia (o spleen), o desespero são as marcas da poesia dos meados do século. A inadaptação à vida e à sociedade conduz a todas as formas de escapismo, às fantasias, ao sonho e ao culto da morte.
     Os principais autores dessa escola forma três jovens poetas que morreram prematuramente:

LUÍS JOSÉ JUNQUEIRA FREIRE (1832 – 1855)

     É o autor mais angustiado do Ultrarromantismo. Aos dezoito anos, na tentativa de solucionar uma crise moral, tornou-se monge beneditino, mas, inadaptado à vida religiosa, abandonou o convento em 1854. Morreu do coração aos vinte e três anos. Sua obra poética, composta de dois livros, reflete as contradições e atribulações de sua vida: Inspirações do claustro e Contradições poéticas.

JOSÉ MARQUES CASIMIRO DE ABREU (1839 – 1860)

´    É um dos tantos poetas vitimados pela vida boêmia e pela tuberculose no século XIX. Produziu a poesia mais ingênua – às vezes quase infantil – do Ultrarromantismo, seus temas mais frequentes são a saudade, a infância, a família, o amor platônico – e o medo do amor. Sempre muito sentimental, é dominado pelo pessimismo nos dois últimos anos de sua vida. Sua obra lírica está reunida no volume As primaveras, publicado em 1859.

MANUEL ANTÔNIO ÁLVARES DE AZEVEDO (1831- 1852)

     Produziu a literatura mais consistente do Ultrarromantismo, embora tenha tido, como seus colegas de geração, uma vida muito curta (foi vitimado pela tuberculose e por um tumor na fossa ilíaca, causado por uma queda de cavalo). Toda sua obra, escrita entre 1848 e 1852, período em que estudou na Faculdade de Direito de São Paulo, foi publicada postumamente e deu mostras da evolução artística do poeta.
     Sua criação poética foi reunida nos livros: Lira dos vinte anos, Poema do frade; Conde Lopo; Livro de Fra Gonticário. Os contos, em Noite na taverna. Escreveu também uma peça de teatro, Macário.

     Lira dos vinte anos

     A principal obra de Álvares de Azevedo reflete em seu título uma característica comum a toda a geração ultrarromântica: a juventude e a imaturidade do autor. Ele mesmo afirma no prefácio: “São os primeiros cantos de um pobre poeta. As primeiras vozes do sabiá não têm a doçura dos seus cânticos de amor”.
     O livro divide-se em três partes. Na primeira e na terceira encontramos o sentimentalismo típico do Ultrarromantismo: misturam-se os temas do amor e da morte; a frustração amorosa é sublimada no sonho e na fantasia; o amor oscila entre a idealização de uma virgem pura, etérea, e uma ardente sensualidade. A segunda parte contrapõe-se às outras duas, substituindo o escapismo visionário pelo realismo irônico – “o poeta acorda na terra”, conforme suas próprias palavras no prefácio. A poesia ocupa-se agora das pequenas coisas da vida cotidiana: o quarto, o leito, o charuto..., exprimindo o tédio e a melancolia (spleen) tipicamente byroniana.

 Soneto
Álvares de Azevedo

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

 1 – Por ser um sonho, a mulher desse soneto possui imagens cambiantes, isto é, sua descrição muda ao longo do texto. Identifique algumas dessas imagens nas duas primeiras estrofes.

2 – Há alguma contradição entre essas imagens que caracterizam a mulher?

3 – Leia a seguinte afirmação de Mário de Andrade:
     “Álvares de Azevedo sofreu como nenhum, apavoradamente, o prestígio romântico da mulher. Pra ele a mulher é uma criação absolutamente sublime, divina e ... inconsútil. O amor sexual lhe repugnava, e pelas obras que deixou é difícil dizer que tivesse experiência dele”.

     Qual verso do soneto exprime a timidez do sujeito lírico diante da mulher, mesmo sendo ela apenas um sonho?

4 – O soneto exprime o sofrimento, a frustração amorosa e a atitude escapista ultrarromântica. Explique essa atitude, comentando os dois últimos versos do soneto.

5 – Leia o seguinte trecho do poema “É ela! É ela! É ela! É ela!”, pertencente à segunda parte da Lira dos vinte anos:

“É ela! É ela! – murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou – é ela!
Eu a vi ... minha fada aérea e pura –
A minha lavadeira na janela!

Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas,
Eu a vejo e suspiro enamorado!”

     Nessa paródia de poesia ultrarromântica, a ironia reside nos contrastes.

a)      Explique o contraste estabelecido na primeira estrofe.

b)       Explique o contraste da segunda estrofe.

TERCEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA

    Na terceira geração a poesia retorna à realidade, da qual se alienara na geração anterior. Além disso, os poetas das décadas de 60 e 70 envolvem-se nas questões sociais e políticas e engajam sua poesia nas campanhas republicanas e, sobretudo, a campanha abolicionista.
     O grande tema da última geração é a liberdade. O condor foi escolhido como símbolo de seus ideais – o alto voo da imaginação a serviço da liberdade. Por isso essa geração é chamada de “condoreira”. O tom exaltado e retórico de sua poesia é próprio para a leitura em público, para emocionar e convencer.
     Os principais autores são:

LUÍS NICOLAU FAGUNDES VARELA (1841 – 1875)

     Um dos seus sonetos termina com o seguinte verso: “Oh! mundo encantador, tu és medonho”
     Essa afirmação reflete as agitações e contradições da sua vida, bem como a bipolaridade fundamental de sua obra poética, que reúne interferências tanto da segunda como da terceira geração romântica. Ao mesmo tempo que procura escapar a esse “mundo medonho”, Fagundes Varela tenta transformá-lo pela pregação entusiástica de novas ideias.
     Seu poema mais famoso é o “Cântico do Calvário”, em homenagem ao seu primeiro filho, Emiliano, morto aos três meses de idade.

Fragmento do “Cântico do Calvário”
Fagundes Varela

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústia conduzia
O ramo da esperança. — Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho do pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,
O porvir de teu pai! — Ah! no entanto,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! — Crença, já não vives!

[...]

Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela,
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho! 

Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh'alma.

ANTÔNIO DE CASTRO ALVES (1847 – 1871)

     Autor de uma das obras mais importantes do nosso Romantismo, Castro Alves tornou-se também um dos mais populares e dos mais queridos poetas do Brasil.
     Sua vida foi tão efêmera quanto intensa e brilhante. Nasceu na Bahia e estudou em Recife e São Paulo. Já era famoso quando, aos vinte e dois anos, teve que amputar um pé em consequência de um acidente de caça. Em 1871 voltou à Bahia, onde morreu, vitimado pela tuberculose.
     Três temas básicos – a natureza, o amor e a problemática social – dominam o conjunto de sua obra.
     A participação na campanha abolicionista forneceu ao poeta o principal tema de sua obra e o transformou no “poeta dos escravos”. Seus poemas de temática social são caracterizados pela exaltação e pelo tom retórico, destinados à leitura em voz alta para emocionar e convencer as plateias.

Adormecida
Castro Alves

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças... 
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."

1 – A distância, o sujeito lírico contempla a moça adormecida e os movimentos dos galhos do jasmineiro, agitados pela brisa.
a)      Que características adquirem os galhos, na visão do sujeito lírico?
b)      O sujeito lírico projeta no jasmineiro os seus sentimentos em relação à moça adormecida. O que os movimentos dos galhos representam em sua fantasia?

Fragmento de “O navio negreiro”
Castro Alves


V
  
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?   Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!... 

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael. 

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!... 

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer. 

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

1 – A característica que mais chama atenção no poema é o tom de exaltada indignação. Tudo nele concorre para a obtenção desse efeito. A pontuação excessiva, por exemplo, reforça a dicção dramática. Alguns procedimentos retóricos típicos da poesia condoreira de Castro Alves podem ser observados no fragmento. Copie um exemplo de metáfora, comparação e antítese.

2 – Na segunda estrofe, a pergunta “Quem são estes desgraçados (...)?” introduz as informações sobre os escravos que virão nas estrofes seguintes.

a)      A quem é dirigida a pergunta? Que figura de linguagem é utilizada nessa passagem?

b)      Qual a acusação que a voz poética faz a esses interlocutores?


c)       Qual deve ser a função da poesia sugerida pela leitura do poema?