sábado, 2 de setembro de 2017

Resenha

Memórias quase póstumas
Chico Buarque segue os passos de Machado de Assis e retrata, com desgosto, a elite brasileira

Carlos Graieb

Parece ser uma sina inescapável para os escritores brasileiros fazer uma oferenda, cedo ou tarde, no altar de Machado de Assis. A oferenda de Chico Buarque acaba de ser entregue: é o seu quarto romance. Leite Derramado (Companhia das Letras: 1 96 páginas: 36 reais). O espírito do livro não poderia ser mais machadiano: com um misto de amargura pelos próprios fracassos e desdém senhorial pelas pessoas que o cercam, Eulálio Montenegro D'Assumpção, um filho da classe alta brasileira. Relembra a sua história de maneira não inteiramente honesta. Mas também nos detalhes as dívidas com Machado se revelam. De Dom Casmurro vem, por exemplo, o tema do ciúme doentio que acaba por destruir a vida de uma mulher. E. se as Memórias Póstumas de Brás Cubas são narradas, de maneira inusitada por um "defunto autor". Leite Derramado se esforça em busca de um efeito próximo: com mais de 100 anos, e meio embotado pela morfina, o anti-herói Eulálio agoniza no "ambiente pestilento" de um hospital público do subúrbio carioca, onde desfia seu monólogo para enfermeiras distraídas.

Leite Derramado pretende fazer um diagnóstico crítico da sociedade brasileira. Filho de senador da República. Neto de nobre do Império, bisneto de um figurão da corte de dom João VI – e assim por diante, até o tempo dos afonsinhos –, Eulálio é herdeiro de todos os vícios preconceitos de seus antepassados. Ele seria a prova viva de como males ancestrais ainda infectam o presente. O problema é que, nascido em 1907. Eulálio não é. verdadeiramente, um homem do tempo atual. Na verdade. Ele quase não é um homem do século XX. Tudo o que aconteceu no Brasil a partir dos anos 50 mal se reflete em sua narrativa. Novamente, a sombra de Machado de Assis se impõe. Machado apontou mazelas concretas de seu tempo. Chico Buarque, ao contrário, não fala de como o racismo. O sexismo. A corrupção ou o esbulho das coisas públicas se manifestam no Brasil contemporâneo – fala apenas das peculiaridades odiosas de um homem muito velho, criado 100 anos atrás. Sua pretensão sociológica naufraga nas águas rasas do esquerdismo. O que sobra é a denúncia, vazia e caricatural, de uma "elite podre".

Isso não significa que Leite Derramado seja uma má leitura. Desde o seu primeiro livro, Estorvo. Chico Buarque pratica um estilo em que o prosaico se mistura a efetivos achados poéticos. Esse estilo leve arrasta o leitor para dentro da história. A maneira fragmentária como Eulálio vai arrancando lembranças do 'pandemônio da memória" também cria lacunas e um certo suspense. O maior enigma é a natureza do sumiço de Matilde, a amada esposa de Eulálio. Ela fugiu com outro homem? Foi acometida por uma doença terrível? Ou recebeu um castigo imerecido? Longe de ser um fracasso como narrativa. O novo livro de Chico Buarque apenas deixa de realizar todas as suas ambições – e mostra que nunca é seguro para um escritor seguir as pegadas de Machado de Assis.

1 – Qual foi o acontecimento que deu origem à resenha crítica “Memórias quase póstumas”?
2 – Quem é o autor da resenha?
3 –Com base na leitura da resenha, o leitor é incentivado a ler o livro de Chico Buarque? Justifique.
4 – Com base nas informações da resenha, escreva um pequeno resumo do livro Leite derramado.
5 – Observe como é desenvolvida a tese da resenha crítica lida.
a)      Releia o primeiro parágrafo e procure explicar, com base nele, quais os pontos em comum entre os livros Leite derramado, de Chico Buarque, e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
b)      Releia o segundo parágrafo e explique as diferenças entre os dois livros.
c)       Qual é a tese da resenha crítica em relação à obra Leite derramado, de Chico Buarque?
6 – Pode-se afirmar que o crítico Carlos Graieb escolheu um título propositadamente ambíguo para sua resenha: “Memórias quase póstumas”. Explique essa ambiguidade, relacionando-a com a tese adotada pelo crítico a respeito do livro Leite derramado.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Aos pais e responsáveis

3º bimestre

Prova de gramática (adjetivos, pronomes e figuras de linguagem) - 18/08/17

Prova de literatura (Realismo-Naturalismo e livro "A relíquia") - início de outubro

Trabalhos de compensação de ausências - entregar até 04/09/17.

domingo, 14 de maio de 2017

REALISMO-NATURALISMO


 Momento histórico do Realismo

     Na segunda metade do século XIX, a Europa caracteriza-se pela consolidação do poder da burguesia, com suas bases ideológicas (o liberalismo político) e materiais (o liberalismo econômico).
     Esse processo se traduz na implantação acelerada do sistema capitalista, cujo avanço industrial já esboça a mecanização do mundo e da vida que caracteriza a sociedade moderna. Entre os fatores de modernização, destaca-se a crescente velocidade das comunicações que importantes descobertas garantem: máquinas a vapor, novas técnicas de impressão e o uso da eletricidade.
     Por outro lado, esse mesmo processo intensifica contradições e tensões político-sociais pois marginaliza a maior parte da população e, em especial, o proletariado urbano, que não tem acesso aos benefícios do progresso e que luta contra a opressão da ideologia burguesa dominante.
     A “Comuna de Paris”, de 1871 (tentativa da classe proletária de tomar o poder político), constitui o ponto culminante de uma série de movimentos e crises que se alastram por toda a Europa desde 1860 e colocam em xeque o modelo burguês-capitalista nela predominante.
     Nesse contexto, o grande desenvolvimento científico e filosófico, de cunho fortemente racionalista, em parte provocado pela utilização da ciência como suporte do crescimento econômico-industrial, dá origem a conhecida “Geração Materialista”.
     Com sua poderosa influência, uma sucessão de ”ismos” passa a explicar a realidade e o comportamento humano, dentro dos parâmetros das chamadas leis naturais, fundamentadas nas ciências biológicas, físico-químicas, e também nas ciências sociais, como a sociologia, que assume uma posição de liderança no cenário das ideias.
     O positivismo de Augusto Comte, o determinismo histórico e geográfico de Taine, o evolucionismo de Darwin, o socialismo utópico de Proudhon e o socialismo científico de Marx e Engels, a negação do Cristianismo e da atitude religiosa em geral de Renan, entre outras correntes científicas e filosóficas, constituem os principais alicerces do período. Acreditava-se sobretudo na racionalidade e no cientificismo como forma de ser e de ver a existência, numa perspectiva fundamentalmente materialista.
     Palavras como evolução, processo, progresso e suas variantes predominavam em todos os setores do conhecimento, que elegiam a dimensão da existência visível, material, mensurável, traduzível em fórmulas acabadas, como seu valor absoluto e inquestionável.
     Em consonância com essas ideias surge no cenário artístico-literário o Realismo-Naturalismo e o Parnasianismo.
     O surgimento de tais estilos de fundo realista já se havia anunciado na fase final do Romantismo. As “narrações de costumes” burgueses exemplificam a passagem do Romantismo ao Realismo.
     Em 1857, a publicação de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, obra que tematiza o adultério feminino e questiona os males do casamento visto como instituição burguesa, provoca uma sucessão que culmina com um processo judicial contra o autor.
Essa data oficializa o início do Realismo literário francês, enquanto o Naturalismo, que decorre do exagero, da exacerbação dos pressupostos realistas, é oficializado com a publicação, em 1880, de O romance experimental, de Émile Zola. Nesta obra o autor defende a aproximação entre o método do escritor e o método do cientista. Traz o rigor e a experimentação da ciência positivista e determinista para o campo da literatura.
      O Realismo surgiu na segunda metade desse século, como oposição ao Romantismo. Baseia-se nas ideias de racionalidade, objetividade e impassibilidade, propondo retratar fielmente a vida contemporânea (a sociedade burguesa e seus valores) para desnudá-la, criticá-la, transformá-la.
     Podemos considerar o Naturalismo como um estilo que consiste fundamentalmente no exagero, na exacerbação da tendência racionalista do Realismo, em sua proposta básica de compromisso com a “verdade” objetiva das mazelas que denuncia.
     Como o escritor realista, o escritor naturalista pretende dissecar o real. No entanto, sua postura ao fazê-lo é a de um pesquisador que não se limita a observar reflexivamente a realidade; ele quer explica-la de acordo com os padrões da ciência positivista e determinista da época.

Características

Realismo:
a)      Investigação da sociedade e dos caracteres individuais feita “de dentro para fora”, isto é, por meio de uma análise psicológica capaz de abranger toda a sua complexidade, utilizando entre outros recursos a ironia, que sugere e aponta, em vez de afirmar;
b)      Ênfase nas relações entre o homem e a sociedade burguesa, atacando suas instituições e seus fundamentos ideológicos: o casamento, o clero, a escravização do homem ao trabalho como meio de “vencer na vida”; as contradições entre ricos e pobres, vistas da ótica dos “vencidos” (os marginais, os operários, as prostitutas etc.) e não dos “vencedores”;
c)      O tratamento imparcial e objetivo dos temas garante ao leitor um espaço de interpretação, de elaboração de suas próprias conclusões a respeito das obras.

Naturalismo:
a)      Investigação da sociedade e dos caracteres individuais ocorre “de fora para dentro”; as personagens tendem a se simplificar, pois são vistas como joguetes dos fatores biológicos e sociais que determinam suas ações, pensamentos e sentimentos;
b)      Ênfase na descrição das coletividades, dos tipos humanos que encarnam os vícios, as taras, as patologias e anormalidades reveladoras do parentesco entre o homem e o animal; no homem descendo à contradição animalesca em sua situação de mero produto das circunstâncias externas, como a hereditariedade e o meio ambiente;
c)      O tratamento dos temas a partir de uma visão determinista conduz e direciona as conclusões do leitor e empobrece literariamente os textos.

     Embora possuam tais diferenças. O Realismo e o Naturalismo se identificam em sua postura antimonárquica, anticlerical, antiburguesa e antirromântica. As duas escolas estão racionalmente engajadas em “fazer a anatomia do caráter” da sociedade burguesa.

O primo Basílio
Fragmento I

     Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Luísa vestia-se para ir à casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse não havia de gostar não. Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã ainda tinha os arranjos a costura, a toalete, algum romance... Mas de tarde!
     À hora em que Jorge costumava voltar do ministério, a solidão parecia alargar-se em torno dela. Fazia-lhe tanta falta o seu toque de campainha, os seus passos no corredor!...
     Ao crepúsculo, ao ver cair o dia, entristecia-se sem razão, caía numa vaga sentimentalidade; sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas apaixonadas gemiam instintivamente no teclado, sob os seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços moles. O que pensava em tolices então!

Fragmento II


     Servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de anos mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifros, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer os desejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltava a saúde!... Era demais! Tinha agora dias em que só de ver balde das águas sujas e o ferro de engomar se lhe embrulhava o estômago. Nunca se acostumara a servir. [...]

     As antipatias que a cercavam faziam-na assanhada, como um círculo de espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhes enodoar a pele; e se lhe ralhavam, a sua cólera rompia em rajadas.
     Começou a ser despedida. Num só ano esteve em três casas. Saía com escândalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas pálidas, todas nervosas...
[...]
     A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hábito de odiar; odiou sobretudo as patroas, com um ódio irracional e pueril.

1 – Considera o seguinte fragmento de uma das famosas Conferências do Cassino Lisbonense, em que Eça de Queirós teoriza sobre o novo estilo, comparando-o com o Romantismo:
     “[...] o Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; - o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mal na nossa sociedade”.

a)      O narrador caracteriza Luísa como uma personagem romântica. Que traços da personagem, presentes no fragmento I, nos permitem associá-la com o Romantismo?
b)      Luísa é caracterizada por meio de uma ótica realista, na medida em que o narrador critica-lhe o romantismo, em vez de aderir a ele. Que frase do fragmento I comprova essa afirmação?

2 – Além da postura racional e objetiva, necessária para a “anatomia do caráter” pretendida pelos escritores realistas, este estilo, em sua vertente naturalista, vê o comportamento humano como consequência de certos fatores que o determinam.
a)      No caso de Luísa, que no romance é casada com Jorge e tem uma vida ociosa, de classe média abastada, a que fatores presentes no texto podemos atribuir os seus traços românticos?
b)      E no caso de Juliana, a segunda personagem caracterizada no fragmento 2? Qual é o fator determinante de sua revolta e seu ódio?

3 – Para realizar sua “anatomia do caráter”, o Realismo-Naturalismo utiliza a comparação entre o comportamento humano e o dos animais, inclusive para realçar “o que houver de mal na sociedade” burguesa, cujas contradições critica implacavelmente.
a)      Transcreva o trecho do fragmento 2 que exemplifica essa característica:
b)      Mencione a contradição da sociedade burguesa a que o exemplo se refere.

O Realismo e o Naturalismo em Portugal

     A partir de 1865 Portugal vive um período de recuperação e expansão, com sua ideologia liberal, centrada na ideia de progresso. As instituições parlamentares funcionam regularmente e a comunicação com o exterior é intensa, em termos técnicos, econômicos e culturais. O país havia superado em grande parte o processo de substituição de sua cultura clérico-aristocrática por uma cultura laica, burguesa e dirigida a um público então massivamente alfabetizado.
     Essa expansão que havia se baseado na comercialização de riquezas já existentes ou advindas da produção agrícola, tem seu fluxo interrompido devido à fragilidade do processo de industrialização no país.
     Com uma produção industrial quase inexistente, em desequilíbrio com a produção agrícola, a partir de 1891 assiste-se à estagnação do país, do ponto de vista tecnológico, econômico e mesmo social. Tal atraso contrastava com a presença do estilo e do modelo europeus na política, nas instituições e nas ideias, conforme se davam conta certos setores mais avançados da sociedade, dentre os quais se destaca a juventude acadêmica de Coimbra, de cujos quadros surge a chamada “Geração de 70”, que deu origem ao Realismo português.
     A Questão Coimbrã, em 1865, e as Conferências do Cassino Lisbonense em 1871, são os principais eventos que desencadearam o Realismo-Naturalismo em Portugal.
     A Questão Coimbrã foi uma polêmica que se estabeleceu entre os românticos, defensores da produção literária romântica, e os jovens revolucionários de Coimbra, dentre os quais se destacam Antero de Quental, Teófilo Braga e Eça de Queirós.
     Antônio Feliciano de Castilho, em posfácio ao livro de poesia romântica Poemas da mocidade, de Pinheiros Chagas, critica os moços de Coimbra, afirmando faltarem-lhes “bom senso e bom gosto”. Antero de Quental responde à crítica num folhetim que intitula “Bom Senso e Bom Gosto”, colocando os pressupostos estéticos do Realismo e sua missão de “reformar a sociedade portuguesa”.
     A partir daí, desenvolve-se a polêmica, da qual saem vitoriosos os jovens realistas, que a partir de 1868 se reúnem em Lisboa, criando um espaço de debates que ficou conhecido como “Cenáculo”.
     Em 1871, consolidam o grande projeto literário, filosófico e político proposto por sua geração com as Conferências do Cassino Lisbonense, que tematizam o Realismo-Naturalismo, impregnado das ideias revolucionárias de Proudhon, Taine, Comte, Hegel, Darwin etc.
     Realizadas num momento histórico-social dos mais tensos (anos da Comuna de Paris e ano em que a Associação Internacional dos Trabalhadores aprofunda sua presença em Portugal), as Conferências foram consideradas subversivas, sofrendo ataques de jornais conservadores e sendo encerradas devido à intervenção do ministro do reino, Antônio José de Ávila.
     O Realismo-Naturalismo português, deflagrado e amadurecido por meio desses eventos, inicia-se oficialmente no país apenas em 1875, ano da publicação de O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós. Em 1890, quando é publicado Oaristos, livro de poemas simbolistas de Eugênio de Castro, o movimento se encerra e dá espaço à nova tendência estética – o Simbolismo – que se mantém até o surgimento do Modernismo, em 1915.

A poesia realista

     A poesia realista foi entendida como arma de combate e de ação, como forma de realização do compromisso do poeta de engajar-se na luta social de seu tempo, de colocar sua obra a serviço da causa comum: a reforma da mentalidade portuguesa, atrasada e provinciana em relação às ideias que fervilhavam na Europa e cujo ritmo o país precisava acompanhar.
     Antero de Quental, Teófilo Braga, Gomes Leal e Guerra Junqueiro constituem as vozes mais representativas dessa vertente poética.
     Além da poesia realista, há outras experiências poéticas pós e antirromânticas desenvolvidas no período: a poesia metafísica, de Antero de Quental; a “poesia simbolista”, de Gomes Leal; a “poesia do cotidiano”, de Cesário Verde, são as mais significativas.

Antero Tarquínio de Quental (1842 – 1891)

     Nasceu nos Açores. Estudou Direito em Coimbra, onde cedo se tornou o líder dos estudantes que constituiriam a chamada “Geração Materialista”, que implantou o Realismo em Portugal.
     Em 1865, com Teófilo Braga e outros escritores, deflagrou a Questão Coimbrã e publicou Odes modernas. Em seguida viajou para Paris, a fim de trabalhar como tipógrafo, pondo em prática as ideias socialistas. Desiludiu-se com o projeto. Após estada em Nova Iorque, voltou a Lisboa, tornando-se figura central do grupo “O Cenáculo” e posteriormente das Conferências do Cassino Lisbonense.
     Sempre inquieto, inconformista, Antero ligou-se a membros avançados do Movimento Proletário Internacional e procurou incansavelmente instaurar o pensamento socialista em seu país, decepcionando-se, entretanto, a cada tentativa. A última foi em 1890, quando filiou-se à Liga Patriótica do Norte, na ocasião do ”Ultimatum inglês”.
     Com mais esse malogro, e já doente, entregou-se a um pessimismo doentio que o levou ao suicídio em 1891, com dois tiros na boca.
     Manifesta em sua obra a angústia de uma vida torturada, dividida entre posturas opostas. De um lado, a combatividade, o ativismo político, o compromisso revolucionário de transformar a sociedade. De outro, a educação tradicionalista, a formação religiosa, a tendência à contemplação, à especulação metafísica.
     Segundo os críticos, desse combate interior de Antero entre a emoção lírica, a verdade umbilical do sentimento e da religiosidade, que ele negava compulsivamente, e o pensamento materialista, o ceticismo filosófico, a obsessão reflexiva proveniente das verdades adquiridas é responsável por um drama humano e por uma riqueza artística sem paralelo nas letras portuguesas.
     A obra de Antero de Quental pode ser dividida em duas fases. A 1ª, que podemos chamar de romântico-realista, compõe-se de um Romantismo social libertário que evolui para um Realismo engajado, militante, compromissado com reforma social.
     Na 2ª fase, o caráter panfletário e entusiasmado da 1ª dá lugar a outros elementos, que colocarão as contradições existenciais do poeta em primeiro plano: a interiorização, a introspecção, a solidão dilacerada, a exteriorização de inquietações que o compromisso materialista e racionalista abafara.

Mais luz!
Antero de Quental

Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis,
À borda dos abismos silenciosos...

Tu, Lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro Sol, amigo dos heróis!

1 – Que expressões presentes na 1ª estrofe evocam os poetas românticos?
2 – Por que os adjetivos “mudos e impassíveis”, utilizados para evocar os poetas românticos do spleen, podem ser considerados depreciativos perante a concepção da literatura como meio de transformação da sociedade, que caracteriza o Realismo?
3 – Na 2ª estrofe, que pedido o sujeito lírico faz à Lua, musa inspiradora do Romantismo?
4 – Na segunda parte do soneto, que se compõe dos tercetos, predomina a defesa explícita de valores que denominaremos diurnos. Transcreva o verso dessa parte que faz a apologia desses valores.
5 – As duas imagens presentes no poema – a Lua e o Sol – constituem metáforas das posturas romântica e realista, que denominamos noturna e diurna. Em sua opinião, que traços fundamentais de ambos os estilos podemos identificar com as imagens da Lua e do Sol, da noite e do dia?
6 – Considerando que o soneto defende as ideias realistas em detrimento das românticas, interprete o título “Mais luz!”

Soneto 1

Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espetáculo divino.

Mas o homem, na Terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante...
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá na Terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
´té que a revolta o remoinhar da luta,
´té que a fecunde o sangue dos heróis!

Soneto 2

Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;

É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.
O que há-de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida;
Se procura, só acha... o destino?

Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a Terra degredo, o Céu destino.

1 – No soneto , da 1ª fase de Antero, o primeiro quarteto se refere ao Céu, e o segundo à Terra. Releia-os e responda:
a)      O verso que indica o distanciamento e a dúvida do sujeito lírico quanto à existência de Deus:
b)      O verso que se refere à liberdade de escolha do homem, quanto às suas ações na Terra:
2 – Depois de reler os tercetos do soneto 1, explique:
a)      No primeiro terceto, o sujeito lírico vê a Ideia como uma força que se encarna no peito humano para fazê-lo pulsar. Há uma metáfora e uma comparação presentes no terceto que comprovam essa afirmação. Identifique-as e em seguida responda: por que se trata de uma visão romântica a respeito da Ideia?
b)      No segundo terceto, o sujeito lírico defende para o homem, inspirado na força da Ideia, um destino de luta, de combate. Como esse destino se relaciona com o projeto de poesia realista?
3 – No primeiro quarteto do soneto 2 defrontamo-nos com a perda de certeza do sujeito lírico em relação à soberania da Ideia. Cite duas expressões desse quarteto que comprovam tal afirmação e aponte a imagem nelas presente que se opõe à comparação da Ideia com o Sol, do soneto 1.
4 – Em que sentido o segundo quarteto do soneto 2 aproxima-se da fase realista de Antero, na qual há a idealização do pensamento, da racionalidade?
5 – Quais os significados da Terra e do Céu, do Homem e de Deus, nos sonetos 1 e 2?

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850 – 1923)

     Guerra Junqueiro viveu dividido internamente entre o sentimento, exaltadamente romântico e religioso, e o pensamento revolucionário. Daí ter evoluído de suas obras panfletárias como A morte de D. João, A musa em férias e A velhice do Padre Eterno – em que escreve versos próximos do discurso e da polêmica, condenando a fraqueza moral da Pátria e toda a sorte de hipocrisias e corrupções do clero – para uma fase de elogio dos simples, dos humildes, dos camponeses, vistos como puros, contemplativos, sonhadores, de acordo com uma perspectiva cristã.

Falam condenados
Guerra Junqueiro

Faminto, nu, sem mãe, sem leito,
Roubei um pão.
Quem vai além da farda e de grã-cruz no peito?
- Um ladrão!
Todos os crimes da Desgraça
Em mim reúno.
Quem vai além tirado a parelhas de raça?
- Um gatuno

Pela miséria crapulosa,
Eu fui traído.
Que esplêndido palácio em festa! Quem o goza?
- Um bandido!

Viola, seduz, furta, assassina,
Que prostituta está cantando àquela esquina?
- A lei!

1 – Nesse poema de Guerra Junqueiro percebe-se o tom panfletário e declamatório, que predomina em sua fase poética realista. Qual é o tema do poema?

Antônio Duarte Gomes Leal (1848 – 1921)

     Gomes Leal foi um poeta que oscilou entre a loucura e a genialidade. Do conjunto de sua obra, de grande sensibilidade simbolista e surpreendente riqueza na produção de imagens poéticas, dois títulos podem ser destacados: Claridades do Sul e O Anticristo, este último manifestando a adesão do autor ao Realismo, do qual acaba no entanto se afastando por causa do excessivo rigor racionalista desse estilo.

José Joaquim Cesário Verde (1855 – 1886)

     Foi um criador solitário, que não se interessou pela função política da poesia. Na verdade, descobriu uma vertente poética anunciadora do Modernismo. Trata-se de uma poesia “antipoética”, de um lirismo “antilírico”, da “despoetização” do ato poético.
     A poesia de Cesário Verde funde objetividade e subjetividade.

Fragmento de “O sentimento dum ocidental”
Cesário Verde

I
Ave-Marias

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
  
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina
  
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países;
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

 Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga os mestres carpinteiros.

 Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

1 – No 1º quarteto, que paisagem deflagra o “desejo absurdo de sofrer” a que se refere o sujeito lírico?
2 – Em sua opinião, por que ele considera absurdo esse desejo?
3 - A segunda estrofe intensifica certa negatividade presente na paisagem enfocada no poema. De que aspectos, particularmente, ela trata e por que podemos considerá-los negativos?
4 – Na terceira estrofe, percebemos que o sujeito lírico tem momentaneamente sua tristeza aplacada. O que desperta o entusiasmo do sujeito lírico?
5 – Identifique duas figuras de linguagem presentes na quarta estrofe.
6 – Qual das imagens identificadas na questão anterior parece “antipoética”, segundo as convenções literárias tradicionais? Por quê?
7 – Embrenhando-se pelos becos, errando pelo cais, o sujeito lírico novamente parece entusiasmar-se, embora esse entusiasmo não lhe diminua a tristeza, a melancolia.
a)      O que de novo provoca o entusiasmo do sujeito lírico?
b)      Copie o verso da última estrofe em que o sujeito lírico demonstra ter consciência de ser ilusório o entusiasmo que o distancia do tédio cotidiano.

A prosa do Realismo-Naturalismo português

     A prosa da Geração de 70 ocupou-se fundamentalmente com a reforma da sociedade portuguesa. Para realizar a emocionada proposta de reforma social, os escritores adeptos do Realismo-Naturalismo transformavam a literatura em “espelho” que devia refletir as contradições sociais, retratando-as por meio da análise e da crítica de suas principais instituições.
     Assim, o casamento e o adultério tornam-se temas preferenciais de romances. Associar à figura feminina uma fragilidade decorrente da própria natureza e das condições ambientais revela alguns elementos típicos do determinismo naturalista: a “fraqueza” humana, particularmente da “fêmea”, perante os instintos, a submissão à tirania da carne, que animaliza as personagens, empobrecendo-as enquanto seres humanos.
     Além da família em decomposição, outros pilares da ordem social então vigente, tais como o clero e a aristocracia, são escolhidos como alvos e dissecados em seus vícios e hipocrisias.
     Os escritores realistas tinham grande rigor quanto à arquitetura de suas obras. Muitas delas apresentavam uma precisão de montagem quase matemática, uma vez que funcionam como demonstrações de “teses” antimonárquicas, antiburguesas e anticlericais. O mais importante representante da prosa realista-naturalista em Portugal é Eça de Queirós.

José Maria de Eça de Queirós (1845 – 1900)

     Considerado um dos maiores prosadores em língua portuguesa, é o criador de uma vasta obra que pode ser dividida em três fases.
     À primeira pertencem O mistério da estrada de Sintra, As farpas e Prosas bárbaras.
     A partir de O crime do padre Amaro, inicia-se sua segunda fase, que conta com O primo Basílio e Os maias, os três “romances de tese” do escritor, isto é, romances que se propõem a realizar um “inquérito da vida portuguesa”, combatendo três de suas principais instituições – a Igreja, a burguesia e a monarquia.
     A terceira fase abrange romances como A ilustre casa de Ramires, A cidade e as serras e A correspondência de Fradique Mendes. Aqui, a crítica cáustica do Realismo-Naturalismo deixa espaço para a meditação filosófica e esperançosa em valores humanos e espirituais. É nessa fase que alcança a plena maturidade artística, coma superação do esquematismo cientificista e da ironia.

Fragmento de O crime do padre Amaro
Eça de Queirós

     Ela concordou logo - como em tudo que saía dos seus lábios. Desde a primeira manhã, na casa do tio Esguelhas, ela abandonara-se-lhe absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento: não havia na sua pele um cabelinho, não corria no seu cérebro uma ideia a mais pequenina, que não pertencesse ao senhor pároco. Aquela possessão de todo o seu ser não a invadira gradualmente; fora completa, no momento que os seus fortes braços se tinham fechado sobre ela. Parecia que os beijos dele lhe tinham sorvido, esgotado a alma: agora era como uma dependência inerte da sua pessoa. E não lho ocultava; gozava em se humilhar, oferecer-se sempre, sentir-se toda dele, toda escrava; queria que ele pensasse por ela e vivesse por ela; descarregara-se nele, com satisfação, daquele fardo da responsabilidade que sempre lhe pesara na vida; os seus juízos agora vinham-lhe formados do cérebro do pároco, tão naturalmente como se saísse do coração dele o sangue que lhe corria nas veias. "O senhor pároco queria ou o senhor pároco dizia" era para ela uma razão toda suficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos nele, numa obediência animal: tinha só a curvar- se quando ele falava, e quando vinha o momento a desapertar o vestido.
     Amaro gozava prodigiosamente esta dominação; ela desforrava-o de todo um passado de dependências - a casa do tio, o seminário, a sala branca do Sr. conde de Ribamar... A sua existência de padre era uma curvatura humilde que lhe fatigava a alma; vivia da obediência ao senhor bispo, à câmara eclesiástica, aos cânones, à Regra que nem lhe permitia ter uma vontade própria nas suas relações com o sacristão. E agora, enfim, tinha ali aos seus pés aquele corpo, aquela alma, aquele ser vivo sobre quem reinava com despotismo. Se passava os seus dias, por profissão, louvando, adorando e incensando Deus, - era ele também agora o Deus duma criatura que o temia e lhe dava uma devoção pontual. Para ela ao menos, era belo, superior aos condes e aos duques, tão digno da mitra como os mais sábios.

1 – No fragmento de O crime do padre Amaro, que traços do comportamento de Amélia podem ser relacionados com o Naturalismo? Por quê?
2 – Quanto ao padre Amaro, o protagonista do romance:
a)      Utilizando-se de elementos do fragmento, escreva sobre a função de Amélia na sua vida, como homem e como religioso.
b)      Que tese Eça de Queirós pretende defender por meio da personagem do padre, em sua opinião?