quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

REVISÃO 1

TROVADORISMO

     É de Provença que vem o influxo próximo. Aquela região meridional da França tornara-se no século XI um grande centro de atividade lírica. As Cruzadas, compelindo os fiéis a procurar Lisboa como porto mais próximo para embarcar com destino a Jerusalém, propiciaram a movimentação duma fauna humana mais ou menos parasitária, em meio à qual iam os jograis.  Estes introduziram em Portugal a nova moda poética.
     A época inicia-se em 1198 (ou 1189), com a cantiga dedicada por Paio Soares de Taveirós a Maria Pais Ribeiro, e termina em 1418, quando Fernão Lopes é nomeado Guarda-Mor da Torre do Tombo, ou seja, conservador do arquivo do Reino, por D. Duarte.
   
A POESIA TROVADORESCA

     Duas espécies principais apresentava a poesia trovadoresca: a lírico-amorosa e a satírica. A primeira divide-se em cantiga de amor e cantiga de amigo; a segunda, em cantiga de escárnio e cantiga de maldizer. O idioma empregado era o galego-português, em virtude da então unidade linguística entre Portugal e a Galiza.

     Cantiga de amor – O trovador empreende a confissão dolorosa de sua angustiante experiência passional frente a uma dama inacessível aos seus apelos. Os apelos do trovador colocam-se alto, num plano de espiritualidade, de idealidade ou contemplação platônica. É o sofrimento de amor que ele confessa, dirigindo-se em vassalagem e subserviência à dama de seus cuidados (mia senhor ou mia dona).
     A cantiga de refrão é o tipo mais frequente e fácil de cantiga de amor. Quando ausente o estribilho, a cantiga recebe o nome de cantiga de maestria, por tratar-se de um esquema estrófico mais difícil, intelectualizado, sem o suporte facilitador daquele recurso repetitivo.

     Cantiga de Amigo – Escrita igualmente pelo trovador que compõe cantigas de amor, focaliza o outro lado da relação amorosa entre ele e uma dama: o fulcro do poema é agora representado pelo sofrimento amoroso da mulher, pertencente às camadas populares. O drama é o da mulher, mas quem ainda compõe a cantiga é o trovador. No geral, quem fala é a própria mulher, dirigindo-se em confissão à mãe, às amigas, aos pássaros, aos arvoredos, aos riachos. O conteúdo de sua confissão é sempre formado duma paixão não correspondida, mas a que ela se entrega de corpo e alma.
      As cantigas surpreendem momentos do namoro desde as primeiras horas até as dores do abandono, ou da ausência, pelo fato de o amado estar no fossado, ou seja, no serviço militar. A palavra amigo pode significar namorado e amante.
     A cantiga de amor é idealista, a de amigo é realista. A cantiga de amigo possui caráter mais narrativo e descritivo que a de amor.

     Cantiga de Escárnio e Cantiga de Maldizer – A cantiga de escárnio é aquela em que a sátira se constrói indiretamente, por meio da ironia e do sarcasmo, usando “palavras cobertas, que hajam dois entendimentos para lhe lo não entenderem”. Na de maldizer, a sátira é feita diretamente, com agressividade, com “palavras que querem dizer mal e não haverão outro entendimento senão aquele que querem dizer chãmente”.

     As cantigas implicavam uma aliança estreita entre a poesia, a música, o canto e a dança. Quando o sentimento poético se mantinha inalterado em todas as estrofes, e para exprimi-lo o trovador recorria às mesmas expressões, apenas utilizando sinônimos nas rimas, tínhamos o paralelismo, e a cantiga recebia o nome de paralelística.
     O trovador era o artista completo: compunha, cantava e podia instrumentar as cantigas; as mais das vezes, era fidalgo decaído. Jogral podia referir o saltimbanco, o ator mímico, o músico e até mesmo aquele que compunha suas melodias; de extração inferior, por seus méritos podia subir socialmente e ser tido como trovador. Segrel era o trovador profissional. Menestrel era o músico da Corte.

      Cancioneiros são coletâneas de canções. Dos vários cancioneiros que ficaram, três merecem especial destaque:
     Cancioneiro da Ajuda;
     Cancioneiro da Vaticana;
     Cancioneiro da Biblioteca Nacional.

NOVELAS DE CAVALARIA

     A época do Trovadorismo ainda se caracteriza pelo aparecimento e cultivo das novelas de cavalaria. Originárias da Inglaterra e/ou França, e de caráter medieval, nasceram das poesias de temas guerreiros. Convencionou-se dividir a matéria cavaleiresca em três ciclos: ciclo bretão ou arturiano tendo o Rei Artur e seus cavaleiros como protagonistas; ciclo carolíngio, em torno de Carlos Magno e os doze pares de França; ciclo clássico, referente a novelas de temas Greco-latinos.
     Das várias novelas que então circularam, somente permaneceram as seguintes: História de Merlim, José de Arimateia e A Demanda do Santo Graal.

     Na época do Trovadorismo outras formas ainda se cultivam. Trata-se das crônicas, das hagiografias e dos livros de linhagem (ou nobiliários). Das primeiras, interessam as Crônicas Breves do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, por dar início à historiografia portuguesa.
     As hagiografias, escritas em latim, falam da vida dos santos.
     Os livros de linhagens eram relações de nomes, especialmente de fidalgos, com o fito de estabelecer graus de parentesco que serviam para dirimir dúvidas em caso de herança, filiação ou de casamento em pecado (casamento entre parentes até o sétimo grau).

 HUMANISMO

     A época do Humanismo inicia-se quando Fernão Lopes é nomeado Guarda-Mor da Torre do Tombo por D. Duarte, em 1418.
     Os acontecimentos que marcaram esse início têm começo na revolução popular de 1383, deflagrada em consequência da morte de D. Fernando e do governo dúbio de sua mulher, D. Leonor Teles. Esta, mancomunada com o Conde de Andeiro, trabalhava no sentido de anexar Portugal ao trono espanhol. Descoberta a intenção, o povo rebela-se, liderado pelo Mestre de Avis, filho bastardo de D. Pedro I. A revolução dura dois anos, a massa popular se apodera do trono e elege herdeiro natural o seu líder: o Mestre de Avis torna-se então D. João I.
     A etapa que com ele se inaugura, é das mais importantes da história de Portugal, entre outras coisas porque veio a constituir-se numa franca e profunda renovação da cultura portuguesa. Rei culto, determinado, empreendedor, entendeu logo o significado do apoio régio ao desenvolvimento das Letras. Além de ele próprio dar o exemplo escrevendo o Livro de Montaria, propiciou a formação dum clima mental que, continuado por seu filho, D. Duarte, condicionou o aparecimento duma figura como Fernão Lopes, que dá início à nova época da Literatura Portuguesa.
     Esta época se caracteriza fundamentalmente por um processo de humanização da cultura. O século XV português corresponde ao nascimento do mundo moderno, na medida que inaugura um tipo de cultura preocupada com o homem. A concepção teocêntrica de vida continua vigente, mas já começam a despontar atitudes contraditórias centradas no homem.  A cultura torna-se laica em grande parte de suas expressões; e a educação do homem constitui o objetivo da literatura moralista então escrita. Nas crônicas de Fernão Lopes, o povo, a massa popular, comparece pela primeira vez.

FERNÃO LOPES

     De origem humilde e de incerto nascimento, a primeira data que a seu respeito se conhece é a de 1418, quando é nomeado por D. Duarte como “guarda das escrituras” da Torre do Tombo. Em 1434, D. Duarte, sucedendo a seu pai, incumbe-o de “poer em caronica” a vida dos reis de Portugal. Das várias crônicas que teria escrito acerca dos monarcas portugueses, várias se perderam, só restaram três: Crônica Del-Rei D. Pedro, Crônica Del-Rei D. Fernando e Crônica Del-Rei D. João I.
     Fernão Lopes tem sido considerado o “pai da História” em Portugal. Seu valor como historiador reside no fato de procurar se moderno, desprezando o relato oral em favor dos fatos documentados. Procede à análise da fonte utilizada sempre com o máximo rigor, objetividade, honestidade e imparcialidade, tentando reconstruir a verdade histórica e fazer justiça na interpretação dos acontecimentos e das personagens que neles se envolveram. Sua concepção da História é regicêntrica, ou seja, gira em torno de reis. Alguns pormenores fazem dele um homem avançado para o seu tempo. Confere, pela primeira vez na historiografia portuguesa, grande importância aos movimentos de massa na configuração de certos acontecimentos e considera as causas econômicas e psicológicas do processo histórico. Apresentava um estilo maleável, coloquial, primitivo, saborosamente palpitante e vivo.
      Gomes Eanes de Azurara (ou Zurara) nascido depois de 1410 e morto entre 1473 e 1474, sucedeu a Fernão Lopes em 1454, e intentou continuar-lhe o plano de escrever a crônica de todos os reis portugueses. Azurara vale como iniciador da historiografia da expansão ultramarina.
Sucedeu-o Vasco Fernandes de Lucena, que nada escreveu apesar de ocupar o cargo mais ou menos 30 anos.  O quarto cronista-mor foi Rui de Pina, que viveu provavelmente entre 1440 e 1522.

A PROSA DOUTRINÁRIA

     Servindo à educação da realeza e da fidalguia, com o objetivo de orientá-la no convívio social e do adestramento físico para a guerra. O culto do esporte, especialmente o da caça, ocupa o primeiro lugar nessa pedagogia que busca alcançar o perfeito equilíbrio entre a saúde do corpo e a do espírito.
     Entre as numerosas obras moralistas aparecidas durante o século XV destacam-se:
    -  Livro da Montaria, de D. João I, em que se ensina a caça ao porco montês;
    - O Leal Conselheiro e o Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela, de D. Duarte;
    - A Virtuosa Benfeitoria, de D. Pedro, o Regente;
    - O Livro de Falcoaria, de Pero Menino.

CANCIONEIRO GERAL

     Mesmo após o declínio do Trovadorismo no final do século XIV, a poesia continua a ser cultivada, mas sob a influência da nova atmosfera cultural inaugurada por D. João I. Grande parte da produção poética quatrocentista foi recolhida por Garcia de Resende no seu Cancioneiro Geral (1516).
     A poesia nele contida caracteriza-se pelo divórcio entre a letra e a música e passa a ser composta para a leitura solitária ou a declamação coletiva. Torna-se autônoma, realizada apenas com as palavras, despidas do aparato musical. O ritmo, agora, é alcançado com os próprios recursos da palavra disposta em versos, estrofes. O Cancioneiro Geral introduziu o emprego compacto do verso redondilho (maior e menor).
     A par dessas novidades formais, o Cancioneiro geral trouxe novidades temáticas. O ponto alto da produção é representado pela poesia lírica. O amor-sofrimento, súplica mortal é tema frequente. Retomando o subjetivismo da tradição, os poetas enriquecem-no de espiritualidade e platonismo. Algo de novo se insinua nesse lirismo suplicante e contemplativo: a mulher perde seu halo ideal, carnaliza-se, adquirindo inclusive graças físicas e sensoriais. Ao mesmo tempo, os poetas descobrem a Natureza. Ela torna-se o consolo, confidente e refúgio para os males do amor.

O TEATRO POPULAR
GIL VICENTE

     Durante a Idade Média, despontou um tipo de teatro que recebeu o nome de popular por suas características. De remota origem francesa, iniciara-se com os mistérios e milagres, que consistiam na representação de breves quadros religiosos alusivos a cenas bíblicas e encenados em datas festivas.  O local da encenação era o interior das igrejas, o próprio altar. No começo, era reduzido o texto e escasso o tempo de representação. Com o tempo, o próprio povo entrou a representar suas peças, agora de caráter não-religioso, num tablado erguido no pátio defronte à igreja: daí o seu caráter profano. Abandonando o pátio, o teatro popular se disseminou por feiras, mercados, burgos e castelos da Europa.
     A biografia de Gil Vicente anda envolta em dúvidas. Teria nascido em 1465 ou 1466 e morrido entre 1536 e 1540. Ourives e mesmo mestre da balança da Casa da Moeda de Lisboa, começa seu teatro a 7 de junho de 1502, por ocasião do nascimento do futuro D. João III, filho de D. Manuel e de sua segunda mulher, D. Maria de Castela.
Gil Vicente declama em espanhol o Monólogo do Vaqueiro (ou Auto da Visitação). Causa boa impressão e daí por diante dedica-se a escrever e representar teatro.
     Durante os anos de sua trajetória, escreveu e representou dezenas de peças. Pode-se dividir em fases o teatro vicentino:
- de 1502 a 1514 – influência de Juan Del Encina;
- de 1515 a 1527 – corresponde ao ápice de sua carreira dramática, com a encenação de suas melhores peças: Trilogia das Barcas, o Auto da Alma, a Farsa de Inês Pereira, o Juiz da Beira;
- de 1528 a 1536 – com Floresta de Enganos, intelectualiza seu teatro sob influência do classicismo renascentista.
     O teatro vicentino caracteriza-se por ser primitivo, rudimentar e popular, organizava-se sob a lei do improviso e uso de mímica. Teatro de sátira social, não perdoa qualquer classe, povo, fidalguia ou clero. Obra moralista, põe em prática o lema do castigat ridendo mores (rindo, corrige os costumes).

NOVELA DE CAVALARIA

Amadis de Gaula (1508) – novela de cavalaria de autor desconhecido. Formado por 12 livros. Amadis é um cavaleiro-andante, que vive a atmosfera do amor cortês, equilibrada por uma atmosfera de sensualidade.

Par de enamorados: Amadis e Oriana. Amadis é o herói moderno, elo entre o mundo medieval que morria e o despontar da renascença.

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