sábado, 3 de fevereiro de 2018

REVISÃO 2

CLASSICISMO

Momento histórico
     No século XVI, presenciamos a configuração de uma sociedade política, econômica, social e culturalmente modificada.
     Politicamente, as monarquias tornaram-se superiores aos senhores feudais. O rei, aliado aos interesses da burguesia, conquista a sua soberania. Dessa aliança forma-se o Estado moderno, e o monarca passa, então, a decretar leis, exercer a justiça, arrecadar impostos, manter um exército nacional permanente. Estava formado o sistema conhecido como Antigo Regime.
     As relações econômicas na Europa sofrem profundas alterações no momento em que o homem aventura-se pelo oceano Atlântico, procurando atingir as fabulosas fontes do comércio oriental.
     Para conseguir realizar tão grande desafio, precisou desenvolver-se tecnicamente: a bússola e o astrolábio, instrumentos trazidos do Oriente pelo europeu, são aperfeiçoados; é inventada uma nova forma de embarcação, a caravela, que permitiu ao homem percorrer grandes distâncias marítimas.
     Mas para que tudo isso fosse possível foi preciso muito dinheiro. E a burguesia, interessada em desenvolver o comércio e conseguir privilégios com o rei, financia as Grandes Navegações.
     As ciências exatas e naturais desenvolvem-se e teorias fundamentais para a evolução científica do homem são descobertas e comprovadas. Na Astronomia, destacaram-se Nicolau Copérnico (1473 – 1543), que comprovou a teoria heliocêntrica, e Galileu Galilei (1564 – 1642), que descobriu os anéis de Saturno, os satélites de Júpiter e comprovou a Lei da aceleração da queda dos corpos.
     A Igreja Católica, que até então desempenhara um papel importante através da autoridade papal e de suas riquezas em terras e propriedades, passará por um processo de transformação, originando a Reforma. Dentre as muitas causas que determinaram esse movimento revolucionário, religioso e político, podemos salientar:
     - a grande riqueza da Igreja, que interessava aos reis e aos nobres;
     - a corrupção em certos setores eclesiásticos (vendas de cargos e indulgências);
     - o desenvolvimento do espírito crítico, provocado pelos humanistas, contestando os dogmas e a organização da Igreja.

Momento literário

     Toda transformação política, econômica e social que ocorreu no século XVI influiu de forma marcante no homem da época.
     Os artistas e os cientistas trazem de volta o modo de pensar e as formas estéticas dos gregos e dos romanos como modelos a serem seguidos. Suas ideias iam ao encontro das necessidades do homem do início da Idade Moderna, por buscar os interesses terrenos, o individualismo, a glorificação do homem e do natural em oposição ao divino e ao extraterreno. Assiste-se à supervalorização do homem (antropocentrismo), em contraste com a supervalorização de Deus, característica do teocentrismo medieval.
      Importa a capacidade de usar a razão para descobrir e conhecer o próprio homem e um mundo novo, cheio de desafios e interrogações.
     Tal atitude manifesta-se na literatura à medida que se prende à rigidez formal dos modelos clássicos e passa a produzir poemas líricos que abordam os sentimentos na sua forma mais universal possível.
     A partir do momento em que a Igreja Católica é questionada, a mitologia pagã, herança clássica, entra em cena nas várias manifestações artísticas: pintura, escultura e literatura. Os deuses gregos e latinos, por serem verdadeiros heróis, fortes, destemidos e, ao mesmo tempo, cheios de vícios e virtudes, mais próximos, portanto, dos humanos, têm lugar relevante na produção artística do período.
     A essa transformação no âmbito cultural, historicamente, dá-se o nome de Renascimento ou Renascença. Em literatura, o estilo de época desse momento recebe o nome de Classicismo.
     Costuma-se assinalar o ano de 1527 como o marco cronológico do início de Classicismo em Portugal, data do regresso do escritor Sá de Miranda, que, depois de permanecer seis anos na Itália, leva para Portugal as novas concepções de arte, assim como uma proposta de renovação da poesia: a medida nova (versos decassílabos), além de formas poéticas como o soneto, a elegia (composição de inspiração de tristeza e de luto), a écloga (composição que diz respeito aos temas ligados à vida no campo), a ode (composição de exaltação).
     A novela de cavalaria encontra seus últimos leitores em Portugal. Nesse período, destaca-se a novela sentimental Menina e moça, de Bernardim Ribeiro. Porém, o escritor mais representativo e importante do Classicismo português é Luís Vaz de Camões.

LUÍS VAZ DE CAMÕES (1525 – 1580)

      Dúvidas e hipóteses cercam até hoje a vida de Camões. Nasceu provavelmente em Lisboa, por volta de 1525. Estudou em Coimbra, no Convento de Santa Cruz. Frequenta os serões do Paço Real e a vida boêmia de Lisboa, envolvendo-se com brigas e prostitutas. Talvez desterrado por causa de amores que arrumara no paço, parte para a luta contra os mouros, em Ceuta, onde, em combate, perde a vista direita. Retorna a Lisboa. É preso por envolver-se em briga. Viaja ao Oriente, a serviço do império. É nomeado, em 1556, provedor-mor dos bens de defuntos e ausentes em Macau, na China. Acusado de prevaricador no desempenho do cargo, volta a Goa, sob prisão. Durante essa viagem, naufraga na foz do rio Mecon (Indochina). Nesse naufrágio, perde sua companheira chinesa (a Dinamene de suas poesias), mas consegue salvar a nado, numa das mãos, os manuscritos de Os Lusíadas. Retorna a Lisboa em 1570, paupérrimo. Publica, em 1572, Os Lusíadas. Leva uma vida miserável em Lisboa, apesar de uma pensão anual de 15 mil-réis, fornecida por D. Sebastião. Morre em 1580, em extrema miséria.
OBRAS:
Poesia lírica
Poesia épica: Os Lusíadas
Teatro: Anfitriões, El-Rei Seleuco e Auto de Filodemo

CAMÕES LÍRICO

     A produção lírica de Camões é a expressão de duas épocas: Idade Média e Renascença.
     Da Idade Média, Camões recebeu a influência dos trovadores medievais e de toda a tradição popular, ao compor as redondilhas, forma de composição denominada medida velha.
     Da Renascença, Camões recebeu influência dos escritores clássicos (latinos e gregos) e dos poetas italianos (Dante e principalmente Petrarca). Essa nova forma de composição denominou-se medida nova. Dentre essas novas formas de versejar, destacam-se o soneto e o decassílabo heroico.    
     Em sua poesia lírica, procura sondar o mundo do “eu”, da pátria, da mulher e de Deus. A lírica camoniana oscila entre dois polos:
     - o lirismo confessional, poesia próxima do lirismo romântico, na qual Camões expressa suas experiências e anseios pessoais;
     - a chamada “poesia de arte pura”, em que pretende transpor os temas e os sentimentos a um plano formal, desligado da emoção pessoal.
     O tema amoroso, influenciado por Petrarca, é concebido como uma aspiração que engrandece o espírito, mas não pode realizar-se sob pena de se extinguir. Deve ser sempre sofrimento e desejo insatisfeito (platonismo amoroso).

CAMÕES ÉPICO

Os Lusíadas

     A obra Os Lusíadas, publicada em 1572, é um poema épico composto em dez cantos. Todas as estrofes ou estâncias são, nesse poema, chamadas oitava rima, por conterem oito versos decassílabos, obedecendo ao seguinte esquema de rimas: ab ab ab cc. O poema totaliza 8816 versos, distribuídos em 1102 estrofes.
     Para a composição da obra, Camões recorreu a modelos famosos na epopeia épica: Eneida, de Virgílio, e Ilíada e Odisseia, de Homero.
     Escrito em uma época em que Portugal vivia o êxito de dominar com orgulho o comércio marítimo, o assunto central do poema gira em torno da viagem de Vasco da Gama a Calicute, nas Índias. Camões, porém, não quis glorificar apenas o importante navegador. Simultaneamente à narração da viagem, exaltou os feitos heroicos dos portugueses e reconstituiu toda a história de sua pátria, desde D. Afonso Henriques (1143) até D. João de Castro (1547). Relatou com bastante exatidão histórica os acontecimentos, baseando-se nos cronistas nacionais: Fernão Lopes, Eanes de Azurara, Rui de Pina, Duarte Galvão, João de Barros e Fernão Lopes de Castanheda.
     Obedecendo ao modelo dos poemas épicos da Antiguidade Clássica, estruturou Os Lusíadas da seguinte forma:

1 – Proposição – o poeta diz que vai glorificar os heróis portugueses, responsáveis pela grandeza e importância de sua pátria.

2 – Invocação – o poeta invoca as Ninfas do Tejo, tágides, para que lhe deem inspiração.

3 – Dedicatória – o poeta oferece o poema a D. Sebastião, rei de Portugal na época da publicação de Os Lusíadas. Camões exalta-lhe a majestade e anima-o a subjugar as terras da África e os mares do Oriente.

4 – Narração – é onde ocorre a narrativa da história do povo português. É a parte mais extensa do poema.

5 – Epílogo – o poeta reflete sobre a decadência em que se encontrava a sua pátria e exorta o rei D. Sebastião à conquista do Marrocos.


O QUINHENTISMO BRASILEIRO

     As necessidades econômicas nos períodos compreendidos entre os séculos XV e XVI     
levaram vários países da Europa a promover as grandes viagens marítimas.
     Com a intenção de descobrir uma nova rota marítima para as Índias, pois o caminho pelo mar Mediterrâneo havia sido fechado pelos turcos,  Cristóvão Colombo parte em 1492. Em busca do Oriente pelo Ocidente, descobre a América.
     O verdadeiro mérito, porém, cabe a Vasco da Gama, que consegue chegar às Índias em 1498. Em seu diário de viagem, conta ter percebido indícios de terra a oeste de sua rota. Assim, D. Manuel, o Venturoso, organizou uma poderosa armada, entregue ao comando de Pedro Álvares Cabral, que em 1500 chega ao Brasil.
     Na verdade, para Portugal, era muito mais promissor investir no Oriente, porque poderia proporcionar maiores perspectivas comerciais. Diante disso, o Brasil ficou relegado a uma posição secundária.
     Diante do quadro histórico que anuncia a existência do Brasil em plena Idade Moderna, compreende-se a ausência de uma produção literária.
     Enquanto na Europa a literatura vivia uma época de crescente valorização, retratando as profundas transformações no modo de pensar do homem, o Brasil encontrava-se sem um passado a retratar e com um presente nas mãos dos portugueses e de outros europeus.
     Como primeiro documento escrito sobre o Brasil, temos a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão que fez parte da esquadra de Cabral. Caminha dá informações da terra descoberta, sua gente, seus costumes e sua riqueza ao rei de Portugal, D. Manuel.

MANIFESTAÇÕES LITERÁRIAS

     As manifestações literárias do Quinhentismo fazem parte da literatura de viagens do Renascimento português. Essas obras não são propriamente literatura brasileira, mas literatura sobre o Brasil.
     Incluem-se nessas manifestações a literatura informativa dos viajantes e a literatura catequética do Pe. José de Anchieta.

LITERATURA INFORMATIVA

     São documentos, cartas e relatórios de navegantes, de administradores e de missionários e autoridades eclesiásticas. Os mais importantes são:
. a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Cabral, relatando o descobrimento da nova terra(1500);
. o Diário de navegação de Pero Lopes de Sousa, escrivão da frota de Martim Afonso de Sousa (1530);
. as cartas e os relatórios dos missionários jesuítas.
     São as obras que se ocupam da descrição da nova terra e de seus habitantes, traduzindo sempre a perplexidade diante da natureza tropical e dos costumes exóticos dos índios. As mais importantes são:
. Diálogos sobre a conversão do gentio, de Pe. Manuel da Nóbrega;
. Tratado da terra do Brasil e História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, ambas de Pero de Magalhães Gândavo (1576);
. Tratados da terra e gente do Brasil, de Pe. Fernão Cardim;
. Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa (1587);
. Diálogos das grandezas do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão (1618);
. História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador (1627).
     As obras que constituem a literatura informativa são importantes fontes documentais para o estudo do primeiro século da colonização.

LITERATURA CATEQUÉTICA      -       JOSÉ DE ANCHIETA

     O padre José de Anchieta nasceu nas Canárias. Ingressou na Companhia de Jesus e, como noviço, aos dezenove anos, veio para o Brasil com o governo de Duarte da Costa, em 1553. Colaborou com Nóbrega na fundação do Colégio de Piratininga, a cuja volta formou-se a cidade de São Paulo. Dedicado à catequese e à educação, escreveu peças teatrais, poesias, cartas e estudos sobre a língua tupi. Compôs sua obra em português, espanhol, tupi e latim.
     Com seus escritos pretendia realizar o trabalho de catequese, o que determinava a função pedagógica e didática de sua obra. Sua poesia e seu teatro apresentavam as seguintes características:  uma certa ingenuidade na concepção da vida e do mundo – divididos entre as forças do Bem e do Mal -  e uma simplicidade de meios expressivos que buscavam a eficiência comunicativa. Usava versos redondilhos, temática religiosa e moral, concepção teocêntrica do mundo e teatro alegórico (ao modo dos autos de Gil Vicente).

Obras:
. Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil;
. Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões;
. De Beata Virgine Dei Matre Maria;
.  Poemas;
. Teatro.

TEXTO 1 
Pero Vaz de Caminha. Carta

     A feição deles é serem pardos, maneira d´avermelhados, de bons rostos e bons narizes bem-feitor. Andam nus sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas e estão acerca disso com tanta inocência como têm de mostrar o rosto.

TEXTO 2
Pero de Magalhães Gândavo, Tratado da terra do Brasil.

     Não se pode numerar nem comprender a multidão de bárbaro gentio que semeou a natureza por toda esta terra do Brasil; porque ninguém pode pelo sertão dentro caminhar seguro, nem passar por terra onde não acha povoações de índios armados contra toda as nações humanas, e assi como são muitos permitiu Deos que fossem contrários huns dos outros, e que houvesse entrelles grandes ódios e discórdias, porque se assi não fosse os portuguezes não poderião viver na terra nem seria possível conquistar tamanho poder de gente.
     Havia muitos destes índios pela Costa junto das Capitanias, tudo enfim estava cheio delles quando começarão os portuguezes a povoar a terra; mas porque os mesmos índios se alevantarão contra elles e fazião-lhes muitas treições, os governadores e capitães da terra destruirão-nos pouco a pouco e matarão muitos delles, outros fugirão pera o Sertão, e assi ficou a costa despovoada de gentio ao longo das Capitanias. Junto dellas ficarão alguns índios destes nas aldeias que são de paz, e amigo dos portuguezes.
     A língua deste gentio toda pela Costa he, huma: carece de três letras , não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assi não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.
     Estes índios andão nus sem cobertura alguma, assi machos como fêmeas; não cobrem parte nenhuma de seu corpo, e trazem descoberto quanto a natureza lhes deu.

TEXTO 3
Fernão Cardim, Tratado da terra e da gente do Brasil.

     Todos andam nus assim homens como mulheres, e não têm gênero nenhum de vestido e por nenhum caso envergonham-se, antes parece que estão no estado de inocência nesta parte, pela grande honestidade e modéstia que entre si guardam, e quando algum homem fala com mulher vira-lhe as costas. Porém, para saírem galantes, usam de várias invenções, tingindo seus corpos com certo sumo de uma árvore com que ficam pretos, dando muitos riscos pelo corpo, braços etc. a modo de imperiais.

1 –Os três fragmentos descrevem os costumes dos indígenas que viviam no Brasil na época em que os portugueses começaram a colonizá-los. Que preconceitos seus autores demonstram ter?
2 – Que grande contradição existe no primeiro parágrafo do texto 2?
3 – Qual dos três autores parece aceitar melhor os costumes indígenas, tão exóticos para sua cultura europeia? Explique.
4 – Comente a descrição que Pero de Magalhães Gândavo faz da língua dos indígenas.

     

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