sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

REVISÃO 1 - EXERCÍCIOS


TROVADORISMO

Cantiga
D. Afonso Sanches

  Dizia  la  fremosinha: 
  ai,  Deus,  val! 
  Com’estou  d’amor  ferida! 
  ai,  Deus,  val! 

  Dizia  la  bem  talhada 
  ai,  Deus,  val! 
  Com’estou  d’amor  coitada! 
  ai,  Deus,  val! 

  Com’estou  d’amor  ferida! 
  ai,  Deus,  val! 
  Nom  vem  o  que  bem  queria! 
  ai,  Deus,  val! 

  Com’estou  d’amor  coitada! 
  ai,  Deus,  val! 
  Nom  vem  o  que  muit’amava! 
  ai,  Deus,  val!” 


fremosinha – formosinha
ai, Deus, vai! – ai, valha-me Deus!; ai, Deus me ajude!
bem talhada – elegante, bonita
coitada – infeliz, cheia de sofrimento amoroso

1 – Há duas vozes na cantiga. Explique essa afirmação.

2 – Por que a moça se sente “coitada” e “d´amor ferida”?

3 – Comente a razão de tão grande sofrimento: é um fato banal, corriqueiro, ou é um grande drama de amor?


Cantiga de amigo
Martim Codax

Ondas do mar de Vigo,
acaso vistes meu amigo?
Queira Deus que ele venha cedo!

Ondas do mar agitado,
acaso vistes meu amado?
Queira Deus que ele venha cedo!

Acaso vistes meu amigo,
aquele por quem suspiro?
Queira Deus que ele venha cedo!

Acaso vistes meu amado,
por quem tenho grande cuidado (preocupação)
Queira Deus que ele venha cedo!

1 – A voz que fala na cantiga é masculina ou feminina?

2 – A quem essa voz se dirige?

3 – Qual a sua insistente pergunta?

4 – Qual o desejo expresso no refrão?

Cantiga de amor
D. Dinis

Quero à moda provençal
fazer agora um cantar de amor,
e quererei muito aí louvar minha senhora
a quem honra nem formosura não faltam,
nem bondade; e mais vos direi sobre ela:
Deus a fez tão cheia de qualidades
que ela vale mais que todas as do mundo.

Pois Deus quis fazer minha senhora de tal modo,
quando a fez, que a fez conhecedora
de todo bem e de muito grande valor,
e além de tudo isto é muito sociável
quando deve; também deu-lhe bom senso,
e desde então não lhe fez pouco bem
impedindo que nenhuma outra fosse igual a ela.

Porque em minha senhora nunca Deus pôs mal,
mas pôs nela honra e beleza e mérito
e capacidade de falar bem, e de rir melhor
que outra mulher, também é muito leal
e por isto não sei hoje quem
possa cabalmente falar no seu próprio bem
pois não há outro bem, para além do seu.

1 – A voz que fala na cantiga é masculina ou feminina?

2 –Releia os três primeiros versos da primeira estrofe. Que objetivo a voz lírica anuncia?

3 – Qual a diferença formal mais evidente entre esta cantiga e a de Martim Codax?

4 – Comparando ainda as duas cantigas, qual delas reflete uma visão mais realista do amor?
Qual das cantigas reflete uma visão mais refinada e idealizada do amor?

Cantiga de escárnio
Pero Larouco

Sobre vós, senhora, eu quero dizer verdade
e não já sobre o amor que tenho por vós:
senhora, bem maior é vossa estupidez
do que a de quantas outras conheço no mundo;
tanto na feiura quanto na maldade
não vos vence hoje senão a filha de um rei.
Eu não vos amo nem me perderei
de saudade por vós, quando não vos vir.

1 – Paródia é uma obra que imita satiricamente o tema e/ou a linguagem de outra obra. Que elementos próprios das cantigas de amor encontramos nessa paródia.

2 – Em qual verso o trovador deixa clara a sua intenção satírica? Qual é a primeira palavra em que o elogio, que se espera em uma cantiga de amor, se transforma em insulto?

3 – A que versos da cantiga de D. Dinis correspondem os dois primeiros versos de Pero Larouco? Por quê?


4 – Pero Larouco utiliza uma hipérbole para falar da estupidez da mulher. Qual a hipérbole semelhante utilizada por D. Dinis para falar das qualidades de sua senhora?  

HUMANISMO

Cantiga sua partindo-se
João Ruiz de Castelo Branco

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
tão fora d’esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

1 – No Trovadorismo, as cantigas de amor exprimiam um intenso sofrimento pela impossibilidade da realização do amor; o homem idealizava a mulher, objeto de sua contemplação distante, à qual ele prestava o serviço amoroso, isto é, a vassalagem. Quais as semelhanças e as diferenças entre a “Cantiga sua partindo-se” e as cantigas de amor?

2 – Por outro lado, as cantigas de amigo, cujo tema era o amor possível, realizável, muitas vezes exprimiam o sofrimento da mulher pela partida do namorado. Quais as semelhanças e as diferenças entre a “Cantiga sua partindo-se” e as cantigas de amigo?

3 – Toda a linguagem e a expressividade desse poema organizam-se em torno de uma metonímia. Identifique-a e escreva um pequeno comentário sobre ela.

4 – O sentimento do homem ao partir é expresso pela repetição insistente de um adjetivo.
a)      Que adjetivo é esse.

b)      Há um momento em que o autor torna o adjetivo mais expressivo, substantivando-o. Copie o verso em que isso ocorre.

c)       Amplificação é uma figura de estilo que consiste no desdobramento de uma palavra ou ideia, desenvolvendo todos os seus aspectos. A técnica mais utilizada para a amplificação é a enumeração. Na segunda estrofe há uma longa amplificação da tristeza, que culmina em uma hipérbole. Quais são os adjetivos enumerados na amplificação? Qual é a hipérbole?

O cerco de Lisboa
Fernão Lopes

     Andavam os moços de três e de quatro anos pedindo pão pela cidade pelo amor de Deus, como lhes ensinavam suas madres; e muitos não tinham outra cousa que lhes dar senão lágrimas que com eles choravam, que era triste cousa de ver; e se lhes davam tamanho pão como uma noz, haviam-no por grande bem.
     Desfalecia o leite àquelas que tinham crianças a seus peitos, por míngua de mantimento; e vendo lazerar seus filhos a que acorrer não podiam, choravam amiúde sobre eles a morte, antes que os a morte privasse da vida; muitos esguardavam as preces alheias com chorosos olhos, por cumprir o que a piedade manda; e, não tendo de que lhes acorrer, caíam em dobrada tristeza.

[...]

     Ora esguardai, como se fôsseis presentes, uma tal cidade assim desconfortada e sem nenhuma certa fiúza de seu livramento, como viveriam em desvairados cuidados quem sofria ondas de tais aflições! Ó geração que depois veio, povo bem-aventurado, que não soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de tais padecimentos!

Desfalecer – diminuir, minguar
Lazerar – ter muita fome
Acorrer – socorrer
Choravam amiúde sobre eles a morte, antes que os a morte privasse da vida – choravam-lhes a morte, mesmo antes que eles morressem
Esguardar – olhar, observar
Fiúza – confiança
Desvairado – diferente, diverso
Quinhoeiro – participante

1 – Para a mentalidade medieval, o centro dos acontecimentos históricos eram os grandes homens -  os reis e os nobres. As narrativas de guerra giravam sempre em torno dos cavaleiros, cuja idealização reunia força, integridade de caráter, honra e, sobretudo, heroísmo.

a)      Em que esses fragmentos se diferenciam dessa concepção medieval da História?
b)      Com a intenção de sensibilizar o leitor, o cronista descreve o sofrimento dos mais indefesos habitantes da cidade. Quem são eles?

2 – Uma das qualidades de Fernão Lopes é a criação de quadros da vida medieval com grande riqueza de detalhes.

a)      Em que parágrafo o autor anuncia a sua intenção de descrever os sofrimentos do cerco de Lisboa de modo tão realista que o leitor tenha a impressão de tê-los vivido?
b)      Que verbo desse parágrafo demonstra a consciência do autor acerca da força das imagens que cria, do caráter visual de sua descrição?

Fragmento do Auto da barca do inferno
Gil Vicente

 Vem um Frade com uma rapariga pela mão, um escudo e uma espada na outra e um capacete debaixo do capuz. E ele mesmo fazendo uma vénia, começa a dançar, cantando:

DIABO
 Que é isso, padre?!
 Quem vem lá?

FRADE
Deo gratias! Sou cortesão. (*)
 [(*)Graças a Deus! Sou homem da corte. De todos os personagens usados por Gil Vicente nesta peça, o Frade é o mais criticado. Certamente era o que mais fazia rir ao público da época, pois era em si gozado por todas as camadas sociais.]

DIABO
 Sabes também o tordião?(*)
 [(*)Canto que uma pessoa trauteia quando faz uma dança improvisada. Também pode significar um tipo de dança feita sem ordem nem compasso certo.]

FRADE
 Pois então! Ora, se não sei!

 DIABO
 Pois entrai! Eu tocarei
 E faremos um serão. (uma festa)
Essa dama, é ela vossa?

 FRADE
 Por minha, eu a tenho,
 E sempre a tive como minha.

DIABO
Fizestes bem, que é formosa!
Mas não vos punham lá grossa (censuravam)
No vosso convento santo?

FRADE
Eles lá fazem outro tanto!(*) [(*)Diz o Frade perante a admiração do Diabo de que os outros frades também tinham amantes como a dele.]

DIABO
Que coisa tão preciosa...
Entrai, padre reverendo!

FRADE
E para onde levais a gente?

DIABO
Para aquele fogo ardente,
Que não temestes vivendo.

FRADE
Juro a Deus que não te entendo!
E este hábito, de nada vale? (as veste religiosas)

DIABO
Gentil padre mundanal,
A Belzebu vos encomendo!

FRADE
Corpo de Deus consagrado!
Pela fé de Jesus Cristo,
Que eu não posso entender isto!
Hei de eu ser condenado?!...
Um padre tão enamorado
E tanto dado à virtude?
Assim Deus me dê saúde,
Que eu estou muito admirado!

DIABO
Não penses em mais detença. (demora)
Embarcai e partiremos:
Tomareis um par de ramos.

FRADE
Não ficou isso em avença. (em acordo)

DIABO
Pois dada está já a sentença!


1 – O diabo, ao receber o frade, estranha a pessoa que está em sua companhia. Qual é a causa desse estranhamento?

2 – O diálogo que ocorre entre as duas personagens revela não apenas a condição moral do frade, mas também a de outros membros da Igreja. Qual é essa condição?

3 – Para livrar-se do inferno, o frade apresenta alguns argumentos ao diabo.
a)      Identifique dois desses argumentos.
b)      Pelas respostas do diabo, deduza: o frade deverá ir para a barca do inferno ou para a barca do céu? Por quê?

              4 – O julgamento a que são submetidos os mortos que se dirigem ou à barca do inferno ou à barca do céu é na verdade um julgamento de toda a sociedade. No que se refere ao julgamento do frade: a intenção do autor é criticar a Igreja como instituição ou os homens?
Justifique.


              










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